A mensagem dos coxinhas

O aviso estava dado desde 2013, mas o governo e seus apoiadores ignoraram; agora pode ser tarde demais

Postado dia 14/03/2016 às 13:14 por Janaína Leite

governo

Foto: Divulgação/Internet

O confronto que o país está prestes a mergulhar poderia ter sido evitado. O governo, seu partido e seus apoiadores foram incapazes de entender o recado dado por milhões de pessoas nas ruas em 2013. A pauta, embora mais difusa que a de agora, era na essência a mesma: fim da corrupção, apoio à Justiça, melhora da economia. A diferença é que o número de seduzidos pelo discurso linha-dura era menor. A polícia e sua violência figuravam como alvo de críticas. Os candidatos extremistas tinham menos espaço.

O governo e os seus, no entanto, optaram pela estratégia de calar os protestos e ignorar suas reivindicações. Os participantes das manifestações foram ridicularizados — tornaram-se os “coxinhas” — e tratados como representantes de uma classe média burra, golpista, ignorante da história do Brasil. Black Blocs surgiram para espalhar a violência e confinar os burgueses medrosos em suas casas. Eles que fossem ler e aprender um pouco antes de questionar a esquerda.

Enquanto isso, as contas do país, arrebentadas pelos gastos excessivos, eram maquiadas para financiar com dinheiro público o capitalismo de compadres que garantia o apoio de parte do empresariado.

A nação entrou em um 2014 mergulhada em ilusões. Não valia o risco de machucar-se física e psiquicamente por causa da política. Melhor tomar as ruas para defender a seleção e recepcionar os gringos que vinham divertir-se por aqui.

A indignação não tinha desaparecido — tanto que a presidente da República acabou vaiada no estádio à abertura da Copa –, mas novamente foi tratada como uma demonstração de alienação e de apartheid social. Sete a um para a Alemanha.

Veio a campanha eleitoral e o governo reforçou sua postura de “nós, os heróis da classe baixa, versus eles, os coxinhas golpistas e derrotistas”. Nenhuma autocrítica. Apenas um festival de mentiras que, pela variedade e quantidade, fariam corar Münchhausen. A crise era externa. A economia do Brasil, muito sólida. As notícias contra o governo e o partido não passavam de invenções de uma mídia cooptada. Em seus perfis nas redes sociais, acadêmicos, artistas e jornalistas avalizavam as fantasias vendidas em horário nobre pela presidente da República para garantir sua reeleição.

A estratégia deu certo. A maioria caiu no conto de que protestar não dava em nada e que as coisas melhorariam ao longo do segundo mandato. As urnas, no entanto, mostravam o quanto o poder do PT tinha encolhido: a oposição obteve 51 milhões de votos contra 54,5 milhões da candidata oficial, uma margem apertadíssima. Ao mesmo tempo, o mapa eleitoral mostrava que partido governista perdera influência praticamente em todo o país. Ou seja, as ruas estavam caladas, mas o número de descontentes inflara.

Isso levou o governo a rever seu “modus operandi” ao assumir o segundo mandato, em 2015? Realinhar a economia? Investir  em um discurso de conciliação? Trabalhar acordos políticos? De forma alguma.

Os coxinhas continuaram a ser diminuídos, alimentando um processo de radicalização que já vinha em curso. O resultado foi o aumento expressivo de pessoas em guerra nas redes sociais. O achincalhe dos governistas, chamados “petralhas”, aumentou vertiginosamente, tendo como pano de fundo a teimosia e a esquizofrenia do Planalto.

No ano passado, o buraco na contabilidade pública, bem como as ilegalidades criadas para produzi-lo e mantê-lo, foi evidenciado pelo Tribunal de Contas da União. Os brasileiros começaram a ver que, sem a máscara, a face da economia estava mais para Freddy Krueger do que para a Liz Taylor vendida na campanha eleitoral.

A Lava Jato e suas prisões, seus números astronômicos dando conta da ganância ilegal, insuflaram a percepção de que, ao tempo em que a estatal e o país eram depenados em uma roubalheira generalizada, sistemática e sem precedentes em escala, os trabalhadores tinham sido enganados. Teriam de conviver com inflação, recessão e desemprego crescentes enquanto outros locupletavam-se.

Em resumo, o governo foi percebido como um grupo que só se importava com o partido e o poder. Unia dois pontos que tornaram o Brasil terra arrasada: corrupção e incompetência.

As manifestações voltaram a acontecer ao longo de 2015, mas de uma maneira bem mais desenxabida. A sensação de que não havia jeito e que o país é uma imensa armadilha destruidora de esperanças estendeu-se como um manto depressivo do Oiapoque ao Chuí. Economistas e administradores gritavam alertando sobre o desastre iminente, preocupados com a imobilidade e o fogo amigo recebido pela equipe econômica. Panelas batiam nas varandas. Adiantou? Não. Coxinhas não mereciam ser ouvidos. Não eram povo, mas uma elite golpista atrás de um terceiro turno eleitoral.

Tudo isso aconteceu às barbas de um Judiciário alçado à categoria de última esperança, papel destinado à imprensa no início dos anos 90, a outra época que combinou o caos político ao caos econômico. A Lava Jato ganhou  dimensão quando em seus inquéritos apareceram nada menos que os quatro principais nomes na linha de sucessão do poder: a presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Temer, e os presidentes da Câmara (Eduardo Cunha) e do Senado (Renan Calheiros). O líder do governo no Senado, Delcídio Amaral, foi preso. E as relações tortas da família Lula da Silva com os endinheirados emergiram.

Era o sopro que reviveria a labareda dos protestos. Os insatisfeitos voltaram às ruas totalmente identificados com o papel que lhes deram — coxinhas, sim, com orgulho. Não encontraram uma oposição capaz de representá-los. A imensa, esmagadora maioria é pacífica. Quer que o Brasil faça uma faxina política e retome bases mínimas de crescimento. Não vê como isso pode ser feito com uma presidente que aferra-se aos seus erros com uma força taurina. Tende a endeusar o juiz Sérgio Moro e sua equipe, sem atentar ao problema que isso trará ao próprio juiz, aos demais investigadores e às investigações.

A fatia  que não consegue mais segurar o ódio, porém, cresceu. A mesma polícia que causou indignação ao atingir uma jornalista com bala de borracha em 2013 passou a ser saudada com gritos de viva, mesmo aparecendo no noticiário esmurrando adolescentes desarmados. Pastores homofóbicos e os defensores de que “o erro da ditadura foi torturar e não matar” são aplaudidos publicamente, enquanto políticos de uma linha mais moderada têm de sair às carreiras, vaiados, diante da suspeita de estarem ligados a casos de corrupção e da incapacidade que demonstraram de representar esses mesmos coxinhas anteriormente.

Essa parcela radical pensa que bandido bom é bandido morto, que os bons tempos eram mesmo os dos militares, que só a mão-de-ferro ajeita este país. Tal postura é um perigo ao Estado democrático, precisa ser combatida desde o seu nascedouro.

Algum ingênuo poderia esperar que o governo e seus apoiadores consigam finalmente entender a mensagem. Não parece ser o caso. Fechados no útero de suas convicções pré-queda do muro de Berlim, eles têm certeza de que essa minoria vitaminada é o retrato de seus adversários. Um bando de obtusos.

Chega a ser mesmerizante. Comportam-se como se entre os esquerdistas a maior parte fosse composta de iluminados heroicos e puros, conhecedores profundos de toda a bibliografia socialista. A realidade, contudo, é bem mais sombria. Apenas oito em cada cem brasileiros tem condições plenas de compreender e se expressar, dizem as pesquisas. O restante oscila em diferentes faixas do analfabetismo funcional. Exigir que dentro desse contingente os manifestantes contrários ao governo sejam luminares de conhecimento, versados e versáteis, é uma asnice monumental. Transformá-lo em um grupo apartado, infinitamente pior que o todo, outra.

Dirão alguns que os esquerdistas têm melhores intenções: distribuição de renda e proteção dos direitos das minorias. Talvez, mas elas aparentemente não passam de intenções que moram no discurso. Nunca foram traduzidas como ganhos duráveis. Inexistiu política para garantir que a ascensão social obtida nos anos de bonança fosse além da apologia ao consumo e chegasse a ser traduzida em investimento em educação, aumento de produtividade e estímulo à poupança. Quanto aos direitos das minorias, pergunte-se às populações indígenas, especialmente ao redor de Belo Monte, por exemplo. Compare-se o tratamento dispensado a elas e às empreiteiras. A lacuna entre as tais intenções virtuosas e as ações com planejamento bambo, calcadas na avidez pelo lucro, ficarão evidentes.

Em resumo,  2013 não morreu. Fora encoberto pela névoa de mentiras que ganharam uma eleição à base do estelionato. Os coxinhas não desistirão de serem ouvidos. A presidente não tem mais como financiar e sustentar seus ilusionismos. Mas, talvez, a esquerda não tenha mais tempo para entender essa verdade óbvia que baila diante de seu nariz. Talvez nem queira. É reconfortante viver em um mundo em que se é o herói e o seu cavalo é o único que precisa falar inglês. Pena que isso impede as boas mentes de pensarem juntas um modo de reinventar a esquerda, revigorá-la, criar condições para que ela volte a ser uma opção para os brasileiros do século XXI.

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Esta semana é decisiva. A quantidade e a qualidade das pessoas que o PT reunir em defesa de Dilma e Lula selará seu destino.

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A articulação da entrega de um ministério para Lula é um confronto direto com o Judiciário e tem potencial para incendiar de vez as ruas. A migração gatuna para um semiparlamentarismo, na esperança de garantir uma coalizão que mantenha os investigados da Lava Jato a salvo no poder, é outra medida totalmente fora de esquadro que contará com resistência da opinião pública.

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Sérgio Moro é o herói da vez, o grande vencedor do momento no duelo com os políticos. Caso mantenha a sobriedade, atendo-se ao processo, e não se perca escrevendo notas com teor político, o juiz tem chances de fazer a Lava Jato prosperar e atingir um espectro político de acusados ainda maior do que o verificado até aqui. Fez e fará história. Caso, entretanto, a vaidade e a vontade de confraternizar com seus apoiadores falem mais alto, acabará se perdendo.

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O Instituto Lula fez a maior barbeiragem da paróquia ao pedir direito de resposta ao Jornal Nacional, mentindo que não foram procurados pela Globo. A exposição da prova por escrito de que os jornalistas fizeram seu trabalho e que os lulistas e seus advogados mentiam, desnudou o desespero e o modo ofídico como eles agem. Também esvaziou o recorrente argumento de que a mídia golpista e malvada lida com vestais.

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O Supremo ficará vendo o país incendiar-se sem agir? O rito do impeachment e a homologação (ou não) da delação feita por Delcídio do Amaral são urgentes. E a permanência de Eduardo Cunha na presidência da Câmara e de Renan Calheiros à frente do Senado — ambos enrolados na Lava Jato –, é um acinte, além de um fator importante para o imbróglio em que o país está metido. Qualquer iniciativa que nasça de algum deles virá passível de questionamentos, inclusive o pedido de impeachment.

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O índice de rejeição do PSDB logo alcançará o do PT. José Serra parece ser o único integrante do partido que saiu ganhando de verdade com os protestos de ontem. Levando-se em conta suas usuais ideias econômicas, sabe-se lá o que isso significa para os brasileiros.

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Os políticos de outros países que apoiaram Lula pertencem a nações próximas em ideologia ou ligadas a negócios grandes com os brasileiros. Seria interessante saber como esse apoio poderá se manifestar quando os desdobramentos internacionais da Lava Jato forem traduzidos como cooperação internacional com a Justiça de outros países.

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Marina Silva é um fenômeno do muro e da toca. Nenhum tucano é tão bom quanto ela nesse quesito.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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