Melancolia e inconformismo marcam o fim do governo Dilma

Remanescentes são incapazes de autocrítica; preferem transferir a culpa à imprensa e ao Ministério Público

Postado dia 11/05/2016 às 14:12 por Janaína Leite

 

dilma

Foto: Reprodução/Internet

São os últimos suspiros do governo Dilma Rousseff antes de sua respiração tornar-se completamente artificial. Nada indica, porém, que o paciente tenha compreendido como seu comportamento de risco, recheado de arrogância e inconsciência, levou-o a um fim inexorável: espatifar-se contra o muro da perda de popularidade e dos contrapesos institucionais. A extrema dificuldade de levar adiante uma autocrítica verdadeira entranhou-se no partido desde meados da década de 90 e reduziu a cúpula da legenda de símbolo máximo da esquerda brasileira a um triste aglomerado de acusados, aloprados e nefelibatas.

A estratégia de diminuir a importância das próprias falhas apontando os erros dos outros – inventando, aumentando, distorcendo, descontextualizando e manipulando tais erros sempre que possível – desgastou-se com o tempo. Tornou-se inócua, quando não ridícula. Apenas os que continuam emocionalmente ligados ainda relutam em reconhecer a distância entre o discurso e a prática dos políticos petistas. O desejo de um mundo sem desigualdades, onde os menos favorecidos poderão desenvolver seu potencial, confunde-se com a crença de que 1) a redução dos abismos sociais depende necessariamente de seguir os “guerreiros do povo brasileiro”; 2) esses “guerreiros” são vítimas de um sistema injusto, assim como os pobres que eles protegem; 3) quem ataca os “guerreiros” não passa de representante desse sistema injusto e, portanto, é inimigo declarado dos pobres e dos avanços sociais. É uma lógica manca, que nasce de premissas tolas.

Insistir por anos em tapar o sol com a peneira e render-se à ganância teve um custo altíssimo para o PT. O diálogo interno e externo, a troca de ideias sadia a partir do contraditório, minguou; deu lugar a um modelo em que a central de propaganda determina uma linha de pensamento replicada “ad infinitum”. Vozes transformaram-se em ecos. Santos e mártires foram artificialmente criados e venerados. Teorias conspiratórias e persecutórias multiplicaram-se. A aproximação com meia dúzia de apaniguados entre banqueiros, empresários e empreiteiros foi garantida por meio da intimidação de adversários e da concessão de favores com dinheiro público. O caixa dois, a compra de votos e o recebimento de propinas tornaram-se normais.

Enquanto isso, a pauta de reivindicações típica da esquerda era ignorada. Sua visão econômica jamais foi assumida completamente junto aos eleitores e acabou implementada de forma escamoteada, incompleta, desastrosa. Entre nunca chegar ao poder e manter-se íntegro, o PT cedeu. Vergou-se. Tornou-se um Frankenstein político que não atendeu satisfatoriamente nenhum lado, nem o mercado, nem os trabalhadores. Suas maiores conquistas tinham pés de areia; começaram a se desfazer ao menor vento na economia, conforme a realidade mostrou.

Ao longo do caminho, o partido perdeu nomes como Paulo de Tarso Venceslau, Cesar Benjamin, Cristovam Buarque, Eduardo Jorge, Fernando Gabeira, Luiza Erundina, Marina Silva, Heloísa Helena, Ivan Valente, Plínio de Arruda Sampaio, Chico Alencar e outros tantos. Alguns deles, por lealdade histórica, são declarada ou veladamente contra o impeachment. Outros querem o impedimento. Todos eles, por temperamento e formação, entenderam há tempos a necessidade de afastar-se dos métodos petistas, uma vez que o grupo de comando do partido não tinha o menor interesse em revê-los. Quem ficou no lugar deles? Os irmãos Tatto, por exemplo. E os envolvidos no mensalão, no petrolão, na máfia dos vampiros e em outros esquemas do passado, além de possíveis outros que começam a ser investigados.

Na cabeça dos remanescentes, entretanto, não é o comportamento do PT que levou o partido e o governo à derrocada. O grande problema, creem, foi ter subestimado o poder da informação e não ter colocado um cabresto na imprensa “oligárquica, corrupta e golpista” e no Ministério Público Federal, “exibicionista, parcial, ingrato e abusado”. Omitem propositalmente que daqui a pouco, quando estiverem na oposição, é exatamente aos jornalistas e aos procuradores que recorrerão para colocar a lupa sobre as ações de seus sucessores. Por enquanto, contentam-se com o de sempre: quando a crise é grave, transferem a culpa integralmente a quem estiver por perto.

O governo, infelizmente, termina exatamente como começou. Entra no coma induzido narcotizado por si próprio, a partir de uma autoimagem inflada, de mentiras e bravatas. Artifícios que escondem apenas o tamanho de sua estultícia, sua teimosia e sua absoluta incapacidade de apresentar resultados e de preocupar-se verdadeiramente com algo além de abarrotar o caixa de seu partido, na intenção de manter-se indefinidamente no poder.

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Todo esse rebuliço trazido pelo impeachment será absolutamente inútil se o afastamento de Dilma Rousseff, resultante da maquiagem das contas públicas por meio de “pedaladas”, não resultar em uma reação em cadeia dos Tribunais de Contas dos Estados e municípios.

Dilma não foi a única a pedalar, a descumprir propositalmente a Lei de Responsabilidade Fiscal e a desequilibrar as contas públicas. Vários administradores regionais, inclusive o tucano paulista Geraldo Alckmin, usaram do mesmo estratagema. Os técnicos responsáveis por esquadrinhar a contabilidade pública devem entrar em campo seguindo o exemplo do Tribunal de Contas da União e iniciar a separação do joio e do trigo.

Já é tempo também de a imprensa parar de ecoar o discurso imbecilizante de que o Brasil não tem uma cultura orçamentária consolidada, deixando ao leitor a impressão de que as escapulidas dos gestores públicos é uma falta menor. A Lei de Responsabilidade Fiscal foi sancionada em 2000, ou seja, há 16 anos as regras de transparência e os limites racionais aos gastos estão aí. Passou do tempo a necessidade de exigir seu cumprimento à risca. Além disso, a alteração do “modus operandi” de quem está no poder passa pelo amplo esclarecimento da sociedade sobre a importância dessa alteração, não pela leniência ostensiva, macunaímica, com o jeito de agir antigo.

Por fim, os cidadãos devem manter-se no papel de cobradores de novas atitudes políticas – não só do PT, mas de todos os partidos. Bater panela para a União é compreensível e justificável, mas inútil caso não seja complementado por bater panelas a quem maquia as contas públicas na sua cidade ou Estado. Quando a contabilidade está torta, o dinheiro continuará a descer pelo ralo do mesmo jeito.

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Waldir Maranhão retrata a maioria da Câmara dos Deputados. Afoita, atabalhoada, influenciável, tacanha, fisiológica, sem visão de longo prazo, enrolada com assuntos pouco republicanos e sonhos de grandeza.

De modo que os mais atentos já tinham percebido antes mesmo de o deputado tentar assumir a presidência da Casa que ele despontaria espetacularmente para o anonimato.

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José Eduardo Cardozo poderia ter entrado para a história como um dos poucos centrados que sobraram no governo. Sua infeliz iniciativa de influenciar Maranhão derrubou tinta sobre sua biografia. Uma pena.

 

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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