Mau exemplo

A chegada ao poder pela campanha eleitoral nem sempre quer dizer a consolidação da democracia

Postado dia 13/07/2016 às 08:00 por Heródoto Barbeiro

eleitoral

Foto: Reprodução/Internet

Há um exemplo histórico que demonstra: existem métodos de vale-tudo que justificam a ausência de qualquer princípio ético, desde que o resultado seja obtido. Um deles é o chamado princípio de simplificação e do inimigo único – isto é, bater sempre em uma ideia única, um slogan, um chavão, um cantochão e individualizar o adversário em um único inimigo. O passo seguinte é o contágio, ou seja, reunir todos os adversários em uma só categoria (por exemplo, “todos são ladrões”), ou em um único indivíduo, um só rosto, para ficar mais fácil desconstruí-lo.

Ajuda muito no sucesso eleitoral atribuir ao adversário os próprios erros. É o método da transposição: responder a um ataque com outro, ou inventar notícias que distraiam o público das más notícias que não podem ser negadas. Atribuir ao oponente o uso de campanha sórdida e amplificar até o exagero, desfigurando qualquer afirmação dele, mesmo que seja uma piada boba ou uma ameaça grave que mostre o caráter do oponente.

A publicidade eleitoral tem de ser voltada para a base da pirâmide social, centrada  nas pessoas com menor padrão cultural. É  o necessário principio da vulgarização. Vem acompanhada de um reducionismo antiético e eivado de mentiras. Poucas ideias, as melhores que um marqueteiro possa inventar. O público-alvo não deve fazer nenhum esforço mental para ser convencido; isto é, parte-se da premissa que as massas têm capacidade rara de compreensão e grande facilidade para esquecer.

O ponto central desse método é o princípio da orquestração. Assim, propaganda política deve se restringir a um número pequeno de ideias, repetidas incansavelmente. A repetição sistemática as transforma em verdade, mesmo que sejam afirmações inverídicas ou mentirosas. Não se pode esquecer do ensinamento: se uma mentira é repetida suficientemente, acaba por converter-se em verdade.

O foco é desmontar o discurso do oponente. Para isso se aplica o princípio da renovação, ou seja, emitir constantemente informações e argumentos novos a um ritmo tal que, quando o adversário responder,  o público já está interessado em outro assunto. As respostas do oponente nunca devem poder contrariar o nível crescente de acusações.

Para completar este decálogo: construir argumentos de campanha a partir de fontes diversas, através  dos chamados balões de ensaios ou de informações fragmentadas. Difundir a parte que interessa a vitória, e não o todo. Uma tática de ouro é o princípio de calar sobre as questões para as quais não se tem argumentos e encobrir as notícias que favorecem o adversário, com o uso dos meios de comunicação à exaustão.

E, finalmente, o ponto mais contundente: a propaganda opera sempre a partir de um substrato preexistente, seja uma mitologia ou um complexo de ódios e prejuízos tradicionais, com ou sem racionalidade. Importante é que as massas acreditem. Trata-se de difundir argumentos que possam se nutrir em atitudes primitivas.

Todas essas estratégias devem ser coroadas com a construção da imagem de que o candidato é “ um homem do povo e pensa como todo mundo”. Este foi o receituário utilizado na campanha eleitoral que levou ao poder através do voto o mais insano regime político imaginado pelo homem: o nazismo. O autor dessa metodologia foi Joseph Goebbels, que, durante o período do horror da ditadura nazista, se incumbiu do ministério da propaganda.

A campanha eleitoral a que me refiro é a da Alemanha de 1932, quando o partido ganhou apoio de parte significativa da população. Um método para ser lembrado como uma lição da história para que não se repita, ainda que aqui ou ali se note alguma semelhança com a atualidade.

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Sobre o Autor

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Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

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