Mariana: a desgraça e os pontos de interrogação

Ladrões roubam máquinas em Mariana e levantam suspeitas acerca do que continua acontecendo na cidade após o desastre ambiental

Postado dia 15/01/2016 às 18:18 por Janaína Leite

Foto: Divulgação/Internet

Alguém já disse que a América do Sul era o único lugar do mundo em que o realismo fantástico poderia ter nascido. Por aqui as pessoas lidam com as maiores estranhezas como se elas fossem o retrato da normalidade. Tome-se como exemplo o que acontece na cidade mineira de Mariana. Após ter sido atolada em novembro do ano passado sob a lama podre e a negligência criminosa da mineradora Samarco, a cidade agora sofre com quadrilhas que roubam de retroescavadeiras a portas, além de falsificar assinaturas para raspar contas bancárias que abrigam doações às vítimas da tragédia. É a escória do humano revelando sua face predatória de inúmeros modos, mas a notícia não passou de mais uma entre tantas, como o possível faturamento de Pedro Bial no próximo “Big Brother”.

A ação dos vigaristas é de arregalar os olhos. Primeiro, um grupo apresentou-se à prefeitura de Mariana como voluntário para limpar vias e abrir estradas. Passados alguns dias, os homens tinham roubado três escavadeiras hidráulicas, uma retroescavadeira e uma caminhonete. Deixaram também pendurada as contas do hotel, da lavanderia e de um posto de combustíveis. Como alguém rouba máquinas enormes sem levantar suspeita? Ou melhor, levantando apenas uma única suspeita. Um dos donos do hotel achou excessivo o consumo do frigobar. Ufa.

Triste pensar que Mariana é uma analogia perfeita para o que acontece no Brasil. Gatunos e sua ganância (pessoal ou encomendada) são fonte de muitos prejuízos que poderiam ser evitados, caso não fossem recebidos de braços abertos pela população e por aqueles que deveriam zelar pelo patrimônio público.

Mariana, aliás, talvez devesse ser condecorada com o título de capital nacional da confiança. Uma falha estrutural grande o suficiente para causar a ruptura de uma barragem monstruosa (razoável supor que uma rachadura assim não acontece do dia para noite) não foi notada por ninguém, nem pelos técnicos que deveriam fiscalizá-la. Depois, quando a catástrofe acontece, as autoridades permitem que forasteiros tenham acesso a planos de recuperação e máquinas caríssimas sem uma checagem diligente de seus antecedentes.

A questão que precisa ser respondida é se o roubo interfere no cronograma de limpeza dos detritos. Se houver atraso, a pergunta vira outra: há ali algum tipo de material que possa ser absorvido e deixe de ser detectado com a demora em revolver a lama? Poderia existir alguém interessado em atrapalhar a remoção do material pútrido ou os ladrões só queriam mesmo lucrar com a desgraça alheia? A conferir.

O rompimento da Barragem do Fundão foi considerado o maior desastre ambiental do mundo nos últimos cem anos. Cerca de 60 milhões de metros cúbicos de lodo, misturado com rejeitos minerais, escorreram por 600 quilômetros, até o litoral do Espírito Santo, matando tudo pela frente. Ou seja, 24 mil piscinas olímpicas de imundície ocuparam um trecho equivalente ao das estradas que ligam São Paulo a Cabo a Frio.

O segundo maior estrago no ranking do período – ocorrido nas Filipinas, em 1982 – liberou 32 milhões de metros cúbicos de lama, praticamente a metade do estrago sofrido por Mariana. Tais números foram calculados pelo geofísico David Chambers e pela consultoria Bowker Associates, especialista em riscos na construção pesada.

Os mesmos analistas consideraram que os prejuízos causados pela catástrofe brasileira chegam a US$ 5,2 bilhões, mais ou menos R$ 21 bilhões ao câmbio atual, R$ 1 bilhão a mais do que o governo (União e estados de Minas Gerais e Espírito Santo) quer cobrar da Samarco e suas controladoras, a Vale e a BHP Billinton. Ainda em novembro de 2015, mês em que aconteceu o desastre, a Vale admitiu que usava o Fundão para depositar rejeitos da Usinas de Tratamento de Minério da unidade de Alegria, também em Mariana.

Alegria de quem, ninguém sabe. Ainda.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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