Manual para ser louco

Ou estamos mais birutas ou mais espertos na detecção da maluquice. Os dois?

Postado dia 29/09/2016 às 11:20 por Rick Ferreira

louco

Foto: Reprodução/Internet

[… ] “Mas eu não ando com loucos”, observou Alice.
Você não tem como evitar”, disse o Gato, “somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca”.
É que você sabe que eu sou louca?”, disse Alice.
Deve ser”, disse o Gato, “Senão não teria vindo para cá.” […]

Imaginando o diálogo acima nas bocas do escritor Charles Dodgson e dos membros da Associação Americana de Psiquiatria, é bem provável que Lewis Carroll fosse Gato e a Associação, a menina Alice (ou seria o contrário?!!).

Em 1952, a APA (American Psychiatric Association) lançou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM (na sigla inglesa). Nele, em 100 páginas, foram listadas todas as categorias de transtornos mentais, e os critérios para diagnóstico.

Sessenta e uma primaveras lunáticas depois é publicado o DSM-5 (“O Império Contra-Ataca”) e, para a loucura geral, contendo cerca de 1.000 páginas!!!

Ou estamos mais birutas ou mais espertos na detecção da maluquice. Os dois? Huuum… Bem, sim, deixemos assim. Seria a solução mais óbvia mesmo, e a que sempre nos ocorre quando não sabemos como responder (é como o modismo de se chamar de “quântico” todo fenômeno de “energia” que somos  incapazes de explicar). Enfim, papo de louco…

Voltando… Na última reunião de condomínio que tive com o ID, o Ego e o Superego, chegamos os três à conclusão (quântica!) de que os transtornos inflacionaram ao logo do século XX. Descobrimos a América!!!

Alimentação processada, tendência ao sedentarismo, núcleos familiares mais flácidos, estresse (palavra “quântica” para o que é do mal) e demais et ceteras da vida moderna… Uhuuu! Foram anos muito loucos mesmo!

Por outro lado, o inchaço do DSM indica também que a “fita métrica” aumentou de tamanho e mais e mais traços de comportamento, antes coisa de gente “fechada” ou artistas (por natureza, “quânticos”), agora são transtornos e ponto. Inclusive o estresse agudo!

Isso me faz lembrar o Dr. Simão Bacamarte, personagem central do conto “O Alienista”, de Machado de Assis. O médico se considerava uma personalidade perfeita numa cidade de gente cheia de “ismos”, mas, ao fim e ao cabo… Bem, não serei maluco de estragar o barato de quem ainda não leu, né?

E se algo dentro de você, bem lá no fundo, ainda acredita de verdade que seria capaz de escapar a qualquer diagnóstico baseado no DSM atual, tudo bem! Sem crise, a gente entende… É normal ser louco por dentro.

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Rick Ferreira

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