Malandragem sagrada

O patriarca que dá nome à nação de Israel venceu na vida porque desrespeitou as regras. Enganou o próprio pai, passou a perna no irmão e fugiu com as filhas do sogro

Postado dia 23/03/2016 às 00:00 por Tiago Cordeiro

israel

Pintura: Horst, Gerrit Willemsz – Isaque abençoando Jacó

 Seja na Antiguidade, na Idade Média ou mesmo em muitas sociedades atuais, não existe maior privilégio do que ser o primeiro filho homem. Foi em busca de um herdeiro do sexo masculino que o rei inglês Henrique VIII matou suas esposas, uma depois da outra. Acontece que o homem que Javé batizou de Israel, e que deu origem às doze tribos que formavam o povo eleito, não era o primogênito. E precisou de muito jeitinho para alcançar as graças divinas e o casamento com a mulher amada. Antes de ganhar o novo nome, ele se chamava Jacó.

Neto de Abraão, filho de Isaque com Rebeca, ele nasceu poucos segundos depois de seu irmão gêmeo, Esaú. Os dois haviam lutado dentro do útero da mãe mas Esaú, mais forte, conseguiu nascer antes. Jacó perdeu assim o direito a ser o filho eleito, o legítimo sucessor do pai e o herdeiro da aliança de Javé. Mas, inteligente, fez de tudo para conquistar a preferência da mãe. Rebeca foi decisiva num episódio que determinou o futuro do povo hebreu.

Isaque pediu a Esaú um guisado. Excelente caçador, mais forte e trabalhador do que o irmão mais novo, o filho mais velho partiu em busca de um animal fresco que agradasse o paladar do pai. Ao fim desta refeição importante, ele receberia a bênção definitiva do patriarca. Ao voltar, descobriu que Isaque já tinha preparado um prato, com a ajuda de Rebeca. Aproveitando que o pai estava muito velho e quase cego, o filho mais novo se apresentou como se fosse Esaú e tomou o posto. Na sequência, seguiu para terras distantes, a fim de encontrar uma esposa. Quando, muitos anos depois, reencontrou o irmão, fez de tudo para conter a ira do mais velho. Estava apavorado porque sabia da malandragem que havia cometido. (Um parêntese: Esaú parecia não primar pela esperteza. Num episódio anterior, já havia trocado os direitos de um primogênito por um prato de lentilhas.)

Antes de voltar para casa, Jacó foi enrolado pelo sogro. Ele se apaixonou por Rachel. Como dote, o pai da moça exigiu sete anos de trabalhos no pastoreio. Na hora do casamento, trocou Rachel pela filha mais velha, Leia. Para ter direito a desposar Rachel, Jacó teve de trabalhar outros sete anos. Começou então a pedir pela herança da família, em pagamento por outros seis anos de lida. Mas o sogro, seu tio Labão, insistia em enrolar o genro. Em resultado, Jacó fugiu com as duas esposas e a parte do rebanho que achava justa para si – é claro que os animais que ele levou eram os mais saudáveis, escolhidos a dedo. Encontrado por Labão e seus homens, só escapou da punição porque Javé interferiu a seu favor.

Deus gostava de Jacó e defendeu o patriarca em muitas ocasiões. Com exceção de um episódio, ainda hoje aberto a múltiplas interpretações: atacado por um anjo, ele passa a noite inteira lutando pela própria vida. Ao amanhecer, havia conseguido sobreviver. Os motivos do ataque e a identidade do anjo (seria o próprio Javé?) são um enigma gigantesco.

Rebatizado Israel, Jacó teve filhos com suas duas esposas e duas servas. Um deles, em especial, era seu favorito. José contava com tantas graças do pai que acabou sendo vendido pelos irmãos e se tornado escravo no Egito. A história miraculosa de José levaria o clã de Israel para dentro das terras do faraó. O povo só sairia dali muito tempo depois, pelas mãos de Moisés. Israel morreu no Egito, com 147 anos, e seu corpo foi levado para Canaã, para ser enterrado ao lado de Abraão e Isaque. De acordo com a tradição, seus restos estão em Hebron, dentro do Túmulo dos Patriarcas, ao lado de Abraão, Sara, Isaque, Rebeca e Leia – morta durante o trabalho de parto de Benjamim, ela teria sido enterrada em Belém.

Quanto a Esaú, ficou no rodapé da história. Sua morte nem sequer é mencionada pelo livro do Gênesis, ainda que uma tradição judaica muito antiga afirme que ele foi morto por um neto de Jacó ao tentar impedir que o irmão mais novo fosse enterrado junto aos demais patriarcas. A lenda só reforça que, na disputa entre os dois, venceu a esperteza.

#:
Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter