Lisandro Frederico

Lisandro Frederico é um ativista defensor dos animais. Desde cedo um profissional engajado, ainda jovem assumiu a direção da ONG Projeto Adote Suzano, o PAS.

Postado dia 12/02/2016 às 00:53 por Sociedade Pública

lisandro pas projeto adote suzano

Foto: Acervo Sociedade Pública – Lisandro com os animais da ONG Projeto Adote Suzano (PAS)

Lisandro Frederico, apresente-se para nossos leitores contando um pouco de sua trajetória de vida.

Meu nome é Lisandro Frederico, tenho 28 anos e sou nascido em Suzano. Sou filho da Yvone Taboada, costureira que por muitos anos se dedicou e fez com perfeição seu ofício, filho também do saudoso comerciante Oswaldo Frederico, de quem herdei a paixão pelos animais. Tenho um irmão mais velho que mora em Mogi, ele é casado e ele tem uma filha. Quando nasci eu também tinha um irmão canino de cinco anos, se chamava “Feliz” e viveu comigo até a adolescência. Eu nasci fora da programação, como minha mãe sempre disse, ela achou que o manjar que comeu no réveillon estava estragado e acabou descobrindo que era eu causando as náuseas na barriga. Nasci em um domingo, dia 23 de agosto. Do signo de virgem herdei o perfeccionismo, a escuta e a timidez. Há quem diga que o virginiano tem uma predisposição a cuidar do meio ambiente, quem sabe isso contribuiu pelo minha defesa em favor dos animais!

Como iniciou sua vida profissional?

Comecei a trabalhar por opção muito cedo. Com 11 anos meu pai faleceu e então decidi ajudar meu tio em uma empresa de confecção. Sempre fui muito antenado com a triste realidade que vivia o país, para um jovem como eu, que tinha muitos sonhos, era angustiante ver a dificuldade que as pessoas da minha idade enfrentavam para ingressar em um bom mercado de trabalho. Quando completei 18 anos meu desejo era juntar uma grana e sair do país, assim como fizeram alguns primos. Tentei entrar em uma grande empresa de Telemarketing para fazer minha poupança e sair do Brasil, mas para minha surpresa fui reprovado no processo seletivo. Felizmente um novo convite aconteceu e para participar dos novos processos seletivos me afoguei em assistir vídeos do Shop Tour e imitar aqueles vendedores. Deu certo, os mesmos recrutadores se surpreenderam com o avanço e me contrataram. Com um mês na empresa fui recebido pelo prefeito com um certificado de funcionário exemplar e em um ano eu já havia recebido duas promoções, assumindo cargo de liderança.

E ainda assim queria sair do país?

A minha vontade de sair do país acabou, eu sentia que meus esforços estavam gerando resultados e eu estava sendo recompensado pelo meu trabalho. Na época eu era um verdadeiro workaholic, trabalhava com prazer das 7h às 22h e aos finais de semana levava trabalho para casa. Depois de dois anos um novo convite: Dessa vez o cliente da empresa que eu prestava serviços me fez um convite e eu ingressei no banco HSBC, onde atuei por seis anos liderando projetos e coordenando operações de call center. Foi mais uma grande fase de aprendizados. Em todo esse período eu resgatava animais na medida do possível, tentando conciliar com a difícil rotina de trabalho, eu também ajudava ONGs da região, inclusive de assistência a crianças. Em 2013, paralelamente ao trabalho no banco, participei de uma reunião com protetores de animais de Suzano e decidimos fundar uma ONG que é a atual PAS.

Com animais da ONG que aguardam adoçãoDesde quantos anos você cuida de animais e como descobriu essa vocação?

Desde criança vivi em uma família que tinha muito zelo pelos animais. Meu tio tinha um sítio onde vivi boa parte da infância, toda família tinha cachorros em casa e com frequência adotávamos ou ajudávamos mais um. Em 2014, com a minha saída do banco, decidi dedicar por um tempo ao que eu mais gostava, que era cuidar e fazer projetos para os animais da ONG. Esse foi um caminho sem volta, a triste realidade e a dependência em que vivem os animais me faz cada dia estar mais próximo desse causa, que precisa muito de ajuda. Desde então o meu principal ofício tem sido esse, embora seja voluntário, tenho que driblar o relógio para encontrar tempo para manter um trabalho remunerado e pagar minhas contas.

Houve alguma experiência marcante na sua vida que o motivou?

Não me recordo de um momento específico. Foi tudo muito natural, os cuidados com animais sempre fizeram parte da minha família, eram como membros da família e sempre os respeitei dessa forma, em especial os vira-latas. Minhas lembranças são de mãe, pai, tios sempre cuidando muito bem como filhos. Mas acho que algo bem marcante foi quando um dos meus cachorros, que se chamava Faruk, foi diagnosticado com cinomose. Foi impressionante a situação a que ele chegou pelo modo que a doença avançou. Ele parou de andar e de comer. Foram meses de tratamento. Na época, diversos veterinários sugeriram a eutanásia, mas felizmente meu irmão não desistiu e depois de seis meses o Faruk levantou, viveu por 12 anos e deu muita alegria para a casa. O cachorro é dependente da gente, é direito dele viver, ser cuidado e retribuir tão bem a nossa família. Por pior que estivesse o Faruk, os olhos dele sempre expressaram sua vontade de viver!

Fale um pouco mais sobre a ONG PAS

A ONG PAS (Projeto Adote Suzano) foi criada através de uma iniciativa popular que começou no Facebook. Um cachorro vítima de atropelamento repercutiu na rede social e entre os comentários se viu muita gente disposta a fazer um trabalho em prol dos animais, foi aí que sugeriram uma reunião pública onde conheci muitos protetores. Nos unimos e formamos uma ONG, na época eu me candidatei ao cargo de secretário da ONG e com o tempo os voluntários me pediram para assumir a presidência, onde estou até hoje.

Com amigos durante entrega de doações para vítimas da chuva no Alto Tietê.Como foi a trajetória da ONG

Durante a trajetória da ONG, quase três mil animais tiveram suas vidas modificadas graças ao nosso trabalho, ganharam um lar, muitos foram castrados e vacinados. A ONG não recebe nenhum tipo de recurso público e não tem nenhum funcionário assalariado. Todos são voluntários, e dependemos de doações. Também não temos sede, e os animais são abrigados em lares provisórios cedidos na casa de voluntários.

Quais os projetos que o PAS realizou e continua criando na região?

Atualmente a ONG realiza campanhas de adoção periódicas em Mogi e Suzano. Em nosso histórico também organizamos a primeira manifestação de rua em prol dos animais de Suzano, fizemos diversos eventos de conscientização e arrecadação de fundos. Criamos parcerias com clínicas veterinárias que oferecem para a população preços mais acessíveis para castrações e procedimentos. Em 2015 procurei o legislativo de algumas cidades e conquistamos a lei que autoriza o transporte de animais domésticos em ônibus, garantindo o socorro dos animais que estejam dentro das especificações e cujo proprietário não tenha carro. Ainda no ano passado nos reunimos com o prefeito de Suzano, pedimos mais atenção nos programas em benefícios aos animais, mais rigor nas penas para maus tratos. Tudo isso resultou na atual reforma do canil municipal que está em andamento e na compra de milhares de vacinas preventivas.

Quantas pessoas são voluntárias hoje na ONG?

Temos cadastrados conosco mais de 200 voluntários, infelizmente a participação é bem abaixo disso. Hoje participam ativamente dos trabalhos da ONG 10 voluntários e cerca de 20 são “semi-ativos” cuja participação acontece, mas com menor frequência.

Como está a legislação brasileira em relação aos direitos dos animais se compararmos com a década de 90, quando a comunicação não era tão eficaz? As mudanças foram significativas ou ainda são tímidas?

As mudanças foram significativas, mas ainda são insuficientes. De 20 anos pra cá, felizmente, foi proibida a prática de eutanásia nos centros de controle de zoonoses. Um avanço! Me dá medo imaginar que a prefeitura matava cães e era amparada pela lei. Também houve a proibição de animais em circo, assim como algumas festividades que usam animais em alguns estados. Em 1998 criou-se uma Lei Federal que classifica a prática de maus tratos como crime ambiental e prevê detenção para quem pratica. O problema é que a população ainda não enxerga o rigor dessa lei, o sentimento é de impunidade. Primeiro porque é difícil registrar uma denúncia de maus tratos, a política militar muitas vezes se nega e a polícia ambiental está sempre sobrecarregada. Depois porque o judiciário transforma as penas brandas em serviços comunitários. É quase um sentimento de que o crime compensa! Hoje lutamos para aumentar as penas para crimes contra animais, a proibição do rodeio e defendemos a criação de programas que beneficiem a saúde e bem estar dos animais, como centros de castração e até mesmo posto de atendimento veterinário gratuito, como está sendo feito em Mogi das Cruzes por indicação da vereadora Karina.

Ensinando sobre posse responsável em emissora de Tv em GuarulhosQuais os tipos de casos mais comuns recebidos nas ONGS tanto no PAS como em outras?

Protetores e ONGs costumam sofrer principalmente com o despejo de animais que acontecem em suas residências ou dependências. Quem abandona tem a falsa visão que o protetor tem facilidade em cuidar, quando na verdade só está dificultando ainda mais o trabalho deles. O abandono é crime até nessas circunstâncias… Esse tipo de situação é frequente, mas também acontecem muitos chamados por animais que se machucam na rua e precisam de socorro, além de tutores que não castram e depois que o animal se reproduz quer deixar a responsabilidade sobre as ONGs… Infelizmente a demanda é infinitamente maior que os recursos que temos, por isso nós não conseguimos consegue ajudar todos os casos, aliás, ajudar nós conseguimos em todos, seja com veterinário mais barato, castração, etc. O problema é que na maioria dos casos as pessoas não querem nem custear, muito menos encontrar um local para o animal ficar.

Qual a solução para que a sociedade possa auxiliar mais as ONGS e protetores a cuidar de tantos animais necessitados de atenção e carinho?

Castração é a solução. Ela não resolve o problema imediato que são os animais que estão neste momento sofrendo nas ruas, mas em longo prazo evitará as crias indesejadas que acabam caindo na rua e se tornam até uma questão de saúde pública.

E as adoções? Vem aumentando o número de interessados?

Felizmente sim. Acho que a consciência das pessoas tem aumentado e percebido que não tem sentido comprar animais enquanto tantos estão na rua à espera de um lar. Hoje a ONG tem conseguido bons números de adoção, mas ainda podem melhorar. Os animais adultos, pretos e deficientes sofrem uma rejeição muito grande.

Lisandro Realizando eventos em abrigos para crianças de Mogi das CruzesEm sua opinião, o que facilitou a consciência da população sobre o dever de cuidar dos animais?

Acho que as mídias sociais tem um papel importante na comunicação e isso fez o cidadão ser mais consciente. As ONGs e protetores tiverem como se expressar melhor e fazer seu recado chegar à população. É claro que a mídia social também serviu de termômetro para a política enxergar os interesses da população, desde o caso da Yorkshire espancada, o Instituto Royal, enfim, isso mostrou que o povo quer mais direitos para os animais e assim as coisas tem caminhado, mas em passos (ainda) lentos.

Quais são os serviços gratuitos que a população pode utilizar aqui na região?

Hoje uma lei estadual obriga os municípios a realizarem programas permanentes de castração, o que não acontece na maioria das cidades da região. Somente em Mogi das Cruzes e Arujá a população deve procurar o centro de controle de zoonoses da prefeitura para agendar a castração do seu animal. Em Mogi além da castração em posto fixo, a população conta com o “castramovel”, que é um veículo que visita os bairros e realiza a castração de animais. Em Mogi já existe a construção de um centro de bem estar animal, que oferecerá atendimento veterinário básico quando estiver concluído. Outro ponto que vale lembrar é que em caso de maus tratos a população deve registrar denúncia para a polícia ambiental. A unidade que cuida da nossa região é Mogi das Cruzes, O fone é 47982737

Algum recado para os leitores da Revista Digital Sociedade Pública?

Meu recado a todos os leitores da Sociedade Pública é que cada um tenha consciência que esse mundo não é exclusivamente nosso, temos que respeitar e principalmente, zelar pelos animais que o habitam. Para nós que temos cães e gatos próximos, a alternativa mais saudável é castrar. Faz bem para saúde do animal e faz bem para sociedade! Em tempo, vale lembrar que a vacinação e placas de identificação também são excelentes recursos para evitar a morte por doenças contagiosas ou a perda do animal.

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