Liminaridade e sua (in)sustentável leveza do ser

Difícil entender o que de fato concebemos enquanto “nós” até que todas essas pequenas falsas ideias não sejam questionadas

Postado dia 11/07/2016 às 08:00 por Tania Zaccharias

liminaridade

Foto: Reprodução/Internet

Quando tudo se vai e só resta o que é.

Recentemente conheci a palavra liminaridade. Que bom conhecê-la, ainda mais assim, no momento em que a estou vivendo…

Para aqueles que ainda não a conhecem, explico: “Liminaridade é um estado subjetivo, de ordem psicológica, neurológica ou metafísica, consciente ou inconsciente, de estar no limite entre dois estados diferentes da existência.  O termo é usado na neurociência, na metafísica e até na antropologia sobre os rituais, para falar desse lugar fronteiriço ou limítrofe entre rituais de trânsito”.

Na música, este também é o nome ao pequeno espaço entre duas notas. Para os budistas, o silêncio absoluto, a meditação plena.

Bem, não é todo dia que estamos nesse lugar-não-lugar. Em geral, estamos vivendo uma fase ou outra da vida. Eis que a liminaridade aparece para mim nesse seu-meu momento de vida, e me ensina muitas coisas.

Nós, seres humanos, somos ensinados para ter certeza das coisas. Isso, por si só, é um fato bem engraçado, porque nessa vida a gente não tem certeza de absolutamente nada, exceto que vamos morrer – e queremos ter certeza de tudo, mas por outro lado temos medo da morte, nossa única certeza…

Isso é engraçado, é bem engraçado! Seria mais engraçado ainda se não fosse um pouco trágico!

Nesse mecanismo da busca pelas certezas, tendemos a ter medo, insegurança, ansiedade e qualquer outro tipo de sentimento não necessariamente positivo nessas faixas de transição da vida. Todos passamos por essas faixas. É inevitável, afinal tudo muda na vida. Mas, normalmente, quando algo chacoalha, nos agarramos aos nossos outros aspectos seguros para não perdemos a noção daquilo que concebemos como  “nós”.

E o que é “nos”? Nosso trabalho? Relacionamento? Papel na vida? Ser pai? Mãe? Mulher? Amiga? Difícil entender o que de fato concebemos enquanto “nós” até que todas essas pequenas falsas ideias não sejam questionadas…

E eis que a vida em sua santa sabedoria, nos ajuda nesse caminho, fazendo suas peças e mudando tudo de lugar de uma vez só. De repete muito daquilo que nos trazia um senso de ‘nós” se vai: relacionamentos, viagens, trabalho, casa, corpo,  saúde e dinheiro. Tudo muda de lugar, tudo se desfaz, tudo se vai…

E o que fica?

NÓS. Não mais o “nós”, mas NÓS.

Nesse lugar, não há nada além de nós mesmos para olhar para nós.

Pode ser assustador. Pode ser entusiástico. Pode ser muitas coisas – mas todas elas são inúteis de se pensar ou sentir, pois não se sabe o que vem, se será melhor ou pior, bom ou chato, legal ou dolorido.

Só se sabe o que vem depois de novamente se cruzar o limítrofe da liminaridade – e aí não mais nela estamos!

Assim, sinto que sua maior beleza seja justamente o simples (e não tão simples) desafio da entrega, de não pensar, de não qualificar, de não julgar. De apenas sentir e SER… somente SER…

 

O que era preciso ir, já foi.

O que tem pra vir, chegará.

O tempo que vai demorar, é o necessário. 

E o que vai acontecer não se sabe.

 

Nesse lugar do tudo-nada, a mente pira (ou pode pirar), mas depois disso, ela se entrega – e foi nesse vazio para onde tudo se foi e de onde tudo vem  que encontrei, em um domingo à noite em meio a tantas incertezas em todos os aspectos o verdadeiro sentido da PAZ. Nada a se fazer, nada a se pensar, nada se decidir. Apenas SER, confiar e entregar…

Termino aqui compartilhando uma frase que muito me encantou há alguns anos, e que acredito que somente neste momento eu a compreendi de verdade. Ela tem a ver com fé, entrega, confiança – e para mim, com liminaridade:

 

“Nada irreal existe.

Nada real pode ser ameaçado.

Nisso está a paz de Deus.”

(Um Curso em Milagres)

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Sobre o Autor

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Tania Zaccharias

Ex-menina, atual mulher "porque". Entusiasta da poesia da vida real, curiosa por tudo e sempre questionadora.

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