A lição de vida do Super Reinaldo

O dia em que meu aluno de 76 anos me ensinou a não fazer tempestade em copo d’água e a controlar a ansiedade, os medos e os pensamentos negativos

Postado dia 29/03/2017 às 09:00 por Edson Timóteo

reinaldo

Foto: Reprodução

Queridos, no nosso último encontro pudemos refletir sobre o quão maravilhosa é a oportunidade que se chama vida. Foi uma experiência sensacional e o melhor foi saber que muitas pessoas me presentearam com o seu tempo e atenção lendo meu artigo. Então vamos lá, continuar essa jornada em busca da saúde do bem estar.

Não me canso de dizer que não existe saúde isolada, que estando bem fisicamente você está completo ou saudável, e é sobre isto que quero descrever hoje. Para facilitar o entendimento do que quero passar, quero compartilhar um dos dias mais loucos e intensos da minha vida, e ele começou cedo.

Eram cinco da manhã e eu já estava em pé, o trajeto para o trabalho tinha em torno de uma hora, estava ligado no automático e nem me lembro como cheguei. Estava no trabalho às seis manhã, uma hora e meia antes do meu compromisso, aula às 7h30. Aproveitei este tempo para tirar um cochilo; no meio deste sono senti como que uma flechado na cabeça, uma linha rápida que me trouxe uma pequena dor.

Acordei e já estava no meu horário, iniciei a aula recebendo uns caras que não são normais, na verdade são super heróis, X-Men, sei lá. Algum tipo de alienígena: me refiro ao grupo de reabilitação cardíaca ao qual eu era responsável. A média de idade era 80 anos – sim, eu disse 80 anos.

Bem, a aula foi evoluindo – verificação da pressão arterial, exercícios aeróbios, exercícios de fortalecimento e alongamento em grupo no final. Junto com a evolução da aula a dor também foi aumentando; ao final, no alongamento, a dor era insuportável, e eu não conseguia completar o raciocínio para a aula. Um dos alunos, o senhor Reinaldo (ou, melhor dizendo, Super Rei), já havia percebido, com seu olhar de infra-vermelho que eu não estava bem, então encerrou a aula e disse: “vou levar você ao médico”.

Assim que entrei no carro o quadro piorou, perdi a fala, minhas mãos formigavam e a fala estava enrolada. Chegamos então ao Hospital das Clínicas, que era próximo. Fomos atendidos na emergência cardíaca e enviados para o PS de neurológia. Então, ali, cercado por cinco médicos, assustados e intrigados com um quadro agudo para um jovem de 26 anos, perguntaram então ao senhor Reinaldo  o que havia acontecido. Então o Super Rei respondeu: “ele é meu professor de atividade física, tentou me acompanhar e ficou assim”.

Todos os médicos caíram na risada e nos atenderam super bem e me deram total atenção, fiz exames de sangue, meningite e até ressonância da cabeça – tudo isso em hospital com super, mas super lotação. Fui diagnosticado com enxaqueca com aura, uma enxaqueca muito forte com sintomas parecidos de um AVC que tem sua causa a alimentação junto ao distúrbio químico e estresse – isso, estresse, havia terminado recentemente uma jornada intensa na UNIFESP, e após uma semana estava em crise.

Quero tratar deste assunto com vocês, mas, antes, prestem atenção: que conflito. Eu morrendo ali com dor e o Rei fazendo piada. Ele não era irresponsável, ele era sábio, doutor da arte da vida , doutor na arte de viver. Este mesmo senhor Reinaldo havia sofrido um infarto com 30 anos de idade e agora, aos 76 anos, já estava no quarto cardiologista, fugindo de operações e vencendo o problema como um artista de circo que se equilibra na corda.

Após tantos anos, o seu coração, que tinha artérias obstruídas, já havia criado um novo caminho de circulação e ela não haveria de operar. Meu Deus, como pode? Enquanto eu faço tempestade em copo d’água, ele venceu no decorrer da vida. Muitos, mais muitos problemas e situações, e estava ali, aos 76 anos, ajudando um calouro na vida.

Já se passaram alguns anos e nunca me esqueço daquele dia, nunca me esqueço do seu Reinaldo. Tento sempre me inspirar nele, o controle, o equilíbrio da mente, a calma para resolver conflitos. Sem dúvida trazem uma saúde que vai muito além de apenas um momento.

Controlar a ansiedade, os medos, os pensamentos negativos e ter calma e segurança para lidar com os conflitos fazem parte, com certeza, da construção da saúde. O bem-estar, a paz e a tranquilidade têm conexão direta para a saúde como um todo. Não tenho uma receita definida como ser uma pessoa forte e que lida com facilidade com as pressões desta vida, mas sem dúvida buscar a cada dia desenvolver sua própria estratégia deve fazer parte da nossa vida.

Esporte, fé, terapia… Existem diversas maneiras. Quero continuar tratando deste assunto e compartilhar como tenho vencido e me tornado forte como o Super Rei.

Me despeço aqui com um grande abraço e agradecimento por todo carinho a quem tem me acompanhado na coluna. Deixo também a minha homenagem a este gigante que me ensinou, muitas vezes sem palavra alguma, esta arte da vida. Seu Reinaldo, Super Rei, descanse em paz.

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Sobre o Autor

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Edson Timóteo

Possui graduação em Educação Física pela Universidade Camilo Castelo Branco (2007). Pós graduado em Fisiologia do Exercício

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