A Lei de Gérson

Uma infeliz frase criada para que o campeão da Copa de 1970, Gérson, a usasse para a propaganda de cigarros, tornou-se um clichê que enquadrou uma tendência latente em boa parcela de nossa população: “eu gosto de levar vantagem em tudo!”

Postado dia 13/02/2017 às 09:00 por José Iwabe

Gérson

Foto: Reprodução

Nada há de errado em procurar defender os próprios interesses, mas quando essa intenção é à revelia de tudo e de todos, passa a violar o interesse de terceiros.

Um aficionado da “lei de Gérson” desconsidera colegas de trabalho, amigos e até pessoas da família, quando corre atrás de vantagens. Ele é crítico e invejoso do sucesso alheio. Jamais dá ou faz algo por outrem de maneira desprendida. Sempre visa uma reciprocidade em que saia no lucro. Considera piegas a compaixão, é egoísta, mesquinho e sua relação com os demais é habitualmente em nível de competição.

gerson

Foto: Antiga propaganda do cigarro Vila Rica, onde o ex-jogador Gerson protagonizou uma grande polêmica

Quem vive em função de tirar vantagem raramente se apercebe quão egoísta é, pelo contrário, se julga esperto e essa inclinação malévola lhe parece algo positivo.

Escrevi acima “uma tendência latente em boa parcela de nossa população”. Efetivamente um dos traços que mais dificultam o desenvolvimento de nosso País, desde a mais remota época de nossa História, é o excessivo individualismo, a nossa crônica dificuldade em interagir com os demais, de sermos cooperativos. Não há em nós o gosto, o prazer, a humildade de querer servir. É isso evidente naqueles que ocupam funções no serviço público. A consciência de que estão ali para oferecer os seus préstimos ao público é sufocada pela embriaguez de ocupar um cargo que lhe significa relevância e julgam mais ser uma autoridade do que um servidor. Daí a arrogância e o ar de superioridade com que (mal)tratam quem deles depende nas inúmeras repartições governamentais.

Um país depende, para que exista e possa progredir, de instituições sólidas e confiáveis. Ele não é fruto apenas do ajuntamento de muitas pessoas, mesmo que sejam muitos milhões.

O homem é uma miniatura perfeita da sociedade. Trilhões de células distribuídas com funções específicas nos diversos órgãos e membros do corpo, que necessitam de um sólido esqueleto que os sustente. Assim, uma nação é constituída de milhões de pessoas, cada qual com o seu papel, fazendo parte de organismos setoriais, de atividades, classes econômicas, os quais são equilibrados por instituições dotados de amplo leque de atribuições. Se este “esqueleto” é sadio, consciente do mister fundamental de estruturar e sustentar a legalidade e a legitimidade, o país tem as condições necessárias para o seu pleno desenvolvimento.

gerson3Lamentavelmente a mesma “lei de Gérson” que contamina boa porção da nossa sociedade é também a que regula a conduta da maioria de nossos políticos, congressistas e magistrados. Isto ocorre pela venalidade que caracteriza o processo eletivo, seja pela rotina de compra e venda de votos praticados nos certames, seja pelo conluio de interesses que envolvem as indicações de nomes para os cargos não eletivos. O “toma lá, dá cá” é apenas o exercício mais mefistofélico da “lei de Gérson”, que está na essência de toda a corrupção que toma conta do Brasil.

Será que algum dia mudará? O Brasil chegará um dia a ser um país civilizado? Desde que haja uma radical transformação da mentalidade vigente, que valorizemos a integridade e compreendamos que ela é a maior vantagem que nós é dado usufruir, então seremos coerentes com o lema “Ordem e Progresso”. Se não, o abismo que nós mesmos estamos cavando está com a sua bocarra aberta, a nossa espera, pois é para ele que estamos caminhando, como estúpido rebanho rumo ao matadouro.

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José Iwabe

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