José Maria

Professor há 35 anos, José Maria é um publicitário que acompanhou diversos períodos e mudanças nas áreas de propaganda e Marketing.

Postado dia 01/02/2016 às 21:31 por Wilson Neves

DSC_0018

Quem é o José Maria?

Meu nome é José Maria da Silva Junior, tenho 56 anos de idade e nasci na cidade de Mogi das Cruzes. Sou publicitário de formação e professor por escolha e dedicação. Porém, iniciei minha vida profissional ainda bem jovem, trabalhando com meu pai em uma sapataria que ele tinha na rua Moreira da Glória. Há 40 anos aproximadamente, no ano de 1977 optei por fazer o curso de comunicação social, devido meu sonho de ser um profissional de propaganda, optei pela instituição que na época era chamada de Federação das Faculdades Braz Cubas, a atual UBC (Universidade Braz Cubas). Consegui um emprego na universidade, e no ano de 1978, dei início ao curso de comunicação com habilitação em publicidade e propaganda, que era o que gostava e queria abraçar pelo resto da minha vida, e assim realmente foi. Comecei a trabalhar em revistas, agências de propaganda, jornais e rádios. Realizei diversos trabalhos para que eu pudesse um dia ter minha própria agência, a “Aspecto”, que conquistei no ano de 1989, e segui com ela durante o período de 11 anos.

Como foi que iniciou a sua vida de docente?

Em 1981, eu estava terminando a faculdade quanto eu tive a oportunidade de dar aula em um colégio técnico de Mogi das Cruzes, chamado Marechal Rondon. Eu nunca havia pensado em dar aulas, ainda não tinha experiência e nem estava preparado, mas eu fui. Ocorreu que acabei gostando, me identificando com a profissão, e esse ano estou completando 35 anos ininterruptos como professor. Então, na Universidade Braz Cubas eu trabalhava na área administrativa, e logo eu fui chamado para dar aula no colégio Policursos, devido meu trabalho no colégio Rondon. No ano de 1984, ocorreu o desligamento de um professor da Braz Cubas, e o coordenador da época perguntou se eu gostaria de assumir a vaga, aceitei o cargo, e em 1986 fui convocado para ser o coordenador dos cursos de comunicação da universidade, onde fiquei até 1988, e finalmente no ano de 1989, iniciei minha empresa de propaganda, a Aspecto.

De 1989 para os dias de hoje, houve uma mudança radical na estrutura das agências de comunicação, publicidade e propaganda. A tecnologia atual favorece o desenvolvimento dos projetos, como a otimização de diversos recursos de fácil acesso por meio dos profissionais, principalmente via internet. Como era a ser publicitário em 1989, com todas as complexidades inclusas em um projeto?

Não havia computador. Tudo era feito manualmente. Havia uma pessoa que trabalhava comigo, que era o desenhista, atualmente o cargo que ele ocupava é conhecido como de diretor de arte. Ele desenhava praticamente tudo a mão livre, desde as letras e os títulos dos comerciais, e também as ilustrações. Depois disso era necessário fazer a impressão, então um dos recursos era o cliché, e a maioria dos jornais da região publicavam os anúncios entre as matérias dos jornais utilizando linotipia. Depois veio o offset, bem mais sofisticado, e aí trabalhava-se com fotolito. O período para preparar uma arte com o fotolito era aproximadamente 12 dias, para ficar pronto um único cartaz, além de ser um custo bem alto para esse tipo de produção.

E como foi a adaptação com as novas tecnologias e como sentiu a transição?

Comecei a sentir dentro da própria agência. No período de 1989 até 2000 as mudanças mais profundas aconteceram, uma delas foi a chegada dos computadores e suas diversas possibilidades, inclusive na parte gráfica, além da internet e da telefonia móvel. Essa evolução aconteceu nesse período que eu estava a frente da empresa, e fui me adaptando ao mesmo tempo que eu transmitia isso para os nossos alunos. Foi uma necessidade ter que conviver com esses “novos fenômenos” da evolução da comunicação pela tecnologia, em especial na propaganda.

DSC_0021Essa evolução contínua da tecnologia voltada para a comunicação, contribuiu para maior interesse das pessoas em atuarem com publicidade e propaganda? Como isso é refletido atualmente no mercado de trabalho?

Isso diversificou mais os segmentos profissionais dentro dessas áreas, além do aumento do interesse das pessoas e do número de profissionais e estudantes. Uma coisa interessante que vale a pena acrescentar é que nesse período começou a evoluir os meios de comunicação. Os jornais e revistas passaram a investir mais em tecnologias, como também fizeram as emissoras de rádio, até que a cidade de Mogi das Cruzes, passou a ter televisão, o que foi um momento de divisão de águas, pois a partir desse momento as agências de propaganda tiveram que se profissionalizar muito mais, ao mesmo tempo que, os anunciantes perceberam que era importante divulgar, mas com possibilidade de retorno.

Fale sobre essa mudança ocorrida no feedbacks dos anunciantes.

Hoje se respeita a propaganda. O que ocorreu foi que diminuiu a troca de favores, onde o anunciante pensava em fazer um anúncio para evitar que o seu negócio fosse detratado por veículos de mídia, passando a visar um retorno significativo no investimento que fazia em propaganda. Isso ocorreu graças à profissionalização da propaganda.

Com todas essas mudanças tecnológicas, houve mudanças na forma de abordagem dos clientes? Como em processos de vendas, estratégias de marketing, ou os princípios básicos ainda se mantem?

Mudou radicalmente. Virou uma página completa. Isso veio acontecer nos meados da década passada. O custo de produção era muito alto. Para produzir um filme por exemplo, precisava-se de uma grande produtora e uma equipe especializada com ótimos equipamentos, e para colocar um comercial no ar, em tempos atuais, o preço seria de R$ 300.000,00, e atualmente, pode-se produzir um comercial interessante com R$ 5.000,00. Por que eu faço questão de falar isso? Porque antigamente dava-se demasiado valor para a produção. Toda essa produção lhe dava a atenção necessária para você produzir um material profissional, no entanto, antes era necessária muita criatividade nas campanhas. A diferença para os tempos atuais, é que as propagandas estão mais estratégicas do que criativas. A propaganda criativa não necessariamente vende, e o anunciante quer vender.

E o que torna essa relação entre os clientes e as empresas mais eficaz?

As redes sociais. Quando elas chegaram mudaram toda a forma de comunicação entre empresas e clientes. De um lado existe um emissor, do outro um receptor, entre eles há uma troca de informações. Antigamente, a comunicação feita por meio de propagandas não tinha feedback dos consumidores, o anunciante falava sobre seu produto e o consumidor apenas poderia conhecer o produto pelas qualidades que eram vendidas, mas atualmente, além do consumidor poder pesquisar melhor, ele pode expressar a opinião dele. Isso mudou tudo sobre a forma de como uma empresa se aproxima dos clientes, pois hoje o consumidor procura informações por algum interesse pessoal. O consumidor conseguiu o poder da escolha, e é cada vez mais respeitado por isso.

Qual a tendência da segmentação de mercado para as mídias?

Na televisão por exemplo, eu hoje assisto os canais que eu quero, do tipo que eu quero, e na hora que eu quero. A segmentação pela televisão é por emissoras e programação.

E na internet?

A internet te oferece uma outra possibilidade que é muito mais completa, eu só vejo aquilo ou acesso o que realmente me interessa, eu posso acessar o que eu quiser, onde eu tenho a possibilidade de acessar qualquer coisa, e exatamente naquilo que me interessa, podendo me locomover facilmente pela quantidade de informações que facilmente me indicam os tipos dos conteúdos disponíveis.

Qual a sua visão sobre esses avanços tecnológicos em relação ao comércio?

Com certeza, as pessoas estão comprando bem mais produtos hoje em dia. Antigamente além das dificuldades para a compra, os produtos tinham que ser duráveis. Uma geladeira por exemplo, tinha que durar no mínimo 15 ou 20 anos. Hoje em dia, a movimentação de produtos é bem maior. Um aparelho smartphone, mesmo que seja novo e caro, é geralmente trocado por um novo modelo em um período de aproximadamente um ano.

DSC_0001Falando agora sobre educação, como o senhor vê a estrutura educacional nas escolas e universidades?

Primeiramente, falarei das universidades em geral, onde em quase todo o mundo, as mudanças ocorridas na estrutura educacional foram tímidas. A base das universidades veio da antiga Grécia, onde um professor ensinava seus conhecimento, e os alunos ou discípulos, apenas ouviam para que pudessem aprender. Essa forma de ensino ainda é tradicional em quase todo o mundo, com a diferença que nos dias de hoje existe maior conforto do que na antiga Grécia, e os professores possuem recursos extras para facilitar o ensino como um quadro negro, transparências para projeção, ou datashow para exibição de multimídia. Embora haja avanços significativos como o EAD (ensino a distância), a estrutura das aulas ainda é a mesma. Mas essa cultura vem desde a escola primária, passando pelo ensino fundamental e ensino médio. Então tornou-se convencional, e o próprio aluno  não consegue se adaptar, ou não acredita em outras formas de educação que não sejam convencionais. Por mais que o ensino e as tecnologias tenham evoluído, a essência ainda é a mesma.

E como modernizar as estruturas educacionais?

A partir de uma proposta onde o professor irá motivar o aluno, sugerindo a ele, aquilo que ele gosta e tem vontade de aprender, transmitindo seu conhecimento, mas deixando que o estudante seja o elemento principal do processo de aprendizado. Mas para modificar a estrutura de ensino é preciso quebrar alguns paradigmas. O primeiro é do professor, que aprendeu de um jeito, e a maioria deles são competentes em suas obrigações e dedicados no que fazem, mas eles aprenderam tudo o que sabem dentro de um determinado modo de ensino, o tradicional. O outro paradigma são os alunos, pela experiência que eles possuem com as instituições de ensino, e o terceiro paradigma, são os pais dos alunos, que também possuem dificuldades de aceitarem novas propostas. Eu visitei diversas instituições de ensino pelo Brasil, e tive a oportunidade de acompanhar ideias bem apresentadas sobre uma nova proposta de educação, especialmente, lembro que em uma delas, os alunos estavam animados com as propostas, dizendo que tinham achado as ideias bem boas, mas que ainda preferiam a forma antiga.

Quem fizer essa mudança na estrutura educacional ganha vantagens dobre as demais instituições?

Não, não ganha, por ser uma mudança bem radical, ela deve ser feita de forma gradativa.

Hoje estamos vivendo um momento estranho. Uma grande crise, que não se sabe ainda com clareza a origem. O que o senhor tem a dizer para quem quer começar uma universidade hoje e ir em busca do sucesso em um determinado mercado, e para os empresários e comerciantes que diariamente são afetados por essa instabilidade politica e econômica?

Bom, eu tenho uma opinião bem pessoal sobre isso. Para mim essa crise, é acima de ser uma crise ética, é uma crise filosófica de falta de fundamentação e de perspectiva, que resulta em questionamentos como: Eu estudo pra que? Trabalho pra que? Vivo pra que? A quantidade de pessoas que saem do Brasil é absurda. Não se sabe o que acontecerá com o país. Então as pessoas devem pensar sobre o que querem para a sua vida, ou seus planos para o futuro. Devemos ter consciência da importância do nosso papel social, e procurarmos melhorar, fazer a nossa parte, para não sermos somente expectadores da vida.

Com os altos preços no mercado, o consumidor está à procura de cada vez mais ofertas que satisfaçam seu poder de compra. Nessa época de instabilidade comercial e econômica, o que o senhor acha das empresas que cortam os gastos em publicidade e propaganda? Não seria esse o momento de aproveitarem para conseguir destaque e tirar melhor proveito possível da crise?

Eu concordo, mas é preciso ver que a propaganda é o reflexo da marca, não adianta fazer uma propaganda bem feita se a marca não é forte. Eu não reforço a marca só com propaganda, a propaganda é o reflexo da marca, e a marca é o reflexo do que vendo, se o meu produto é bom, a marca é forte, e se a marca é forte, eu vou divulga-la, com a certeza que eu vou levar o melhor produto possível para os consumidores. O consumidor é exigente e ele quer comprar, nunca se comprou tanto como nos últimos anos, mas para fazer um bom plano de marketing, a empresa precisa estar alinhada com o real valor do produto e da força que a marca dela possui.

Zé Maria, após tantos anos de profissionalismo, projetos, estudos, quais são planos agora para o seu futuro pessoal?

Apesar de ter sido professor de planejamento, pessoalmente eu tenho feito projetos de curto e médio prazo, de um a cinco anos. Hoje tenho alguns projetos, um ainda inclusive voltados para o lado profissional, aqui mesmo na Universidade Braz Cubas, no intuito de reforçar as estratégias que possam melhorar ainda mais a qualidade do ensino, com a possibilidade dos alunos aprenderem ainda mais. Eu não sou o único nesse projeto, mas eu sou aquele que mais se apaixonou por essa iniciativa. Eu sei que em um ano consigo mudar 10% da cabeça dos alunos e professores. Esse projeto muda as possibilidades da educação da nossa instituição, isso fará com que consigamos atingir uma nova postura comportamental dos professores, que não é válida somente para o ensino superior, isso pode atingir todas as classes de estudantes de diversas idades, na forma que a criança e o jovem aprendam cada vez mais. Bom, pessoalmente não tenho  muitas aspirações no momento, ter conseguido trabalhando pela Universidade Braz Cubas chegar até aonde eu cheguei, vindo de uma sapataria, foi bem mais do que esperava  profissionalmente e financeiramente. Mas um plano pessoal que tenho é realizar três viagens por ano.

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Wilson Neves

Sou publicitário e especialista em Marketing , proprietário da WCN agencia de propaganda, fundador e diretor da revista digital “Sociedade Pública”.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter