João de Barro

Postado dia 24/08/2015 às 11:03 por Sociedade Pública

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Arranca toco da Terra

Perrengue de mata careca

Caindo casa do galho

No tronco já velho e falho

João de barro a chorar

 

João bateu asas pro norte

Foi ao encontro da sorte

Joana que estava em casa

Sumiu no meio da brasa

A ave queria entender

 

João ficou arrasado

Olhou seu barro quebrado

Encontrou numa canção baixinha

Joana morrendo sozinha

Então lhe cobriu com amor

 

João de barro calou

João de barro pensou

O céu não é mais liberdade

Se na terra está sua saudade

E pra cá voltará sem saber

 

No meio da brasa desmaiou

Não viu Joana quando acordou

Estava entre duas mãos

Ardentes pelo calor de sua missão

Ser solidário somente ao que vê

 

Foi um homem que salvou João

O colocou em uma caixinha de papelão

João lá preso ficou

Imaginando que criatura o salvou

De olhos carinhosos e coração cego

 

E assim pela tarde Inteira

João escuta toda a choradeira

Dos gritos de dor pra sobreviver

Da agonia de estar pra morrer

Os homens não podiam escutar

 

Tá chegando o bicho gente

Ele tá mostrando os dentes

Corre que lá vem o açoite

Quem quiser dormir de noite

Fica longe desse animal

 

O verde se torna cinza

A vida se torna extinta

Teve sorte este João

Em sua caixa de papelão

Viajando sem suas asas no ar

 

Este mundo é muito grande

Mas o verde se acabou

Para ser João de Barro

Sem o barro eu não sou

Quero ser o que fui sempre

Viajar com minhas asas

Mas aquilo que eles tocam

Num instante se acaba

Se alguém sorri pra mim

Eu não vejo alegria

A minha real beleza

Já se foi naquele dia

Não entendo o meu destino

Que se estende sem motivo

Pois se eu não sou mais livre

Não há porque estar vivo

Mas o homem aprende um dia

Depois de tanto errar

Que para receber os céus

Não precisa saber voar

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