Jó sem paciência

Ele era fiel a Javé e seguia seus preceitos. Ainda assim, foi punido pelo Criador depois de uma jogatina sem sentido com o demônio

Postado dia 15/07/2016 às 08:30 por Tiago Cordeiro

 

jó

Foto: Reprodução/Internet

Quando recebi o convite para escrever posts contínuos para a Sociedade Pública, pedi para tratar de religião, um assunto que me fascina. E escolhi, por livre e espontânea vontade e com apoio incondicional da equipe desta revista eletrônica, um único assunto, que rende posts para além do que sou capaz de escrever: a Bíblia. Desta biblioteca fascinante de livros que formam um conjunto inestimável de conhecimento teológico, moral, ético e (relativamente) histórico, tenho meus livros favoritos.

De alguns já tratei – caso do Gênesis e do Êxodo, obras-primas de qualquer compilação da literatura mundial. Outros, eu aguardo com água na boca o momento de destrinchar, com calma e carinho – penso aqui nos Evangelhos, os livros que mais marcaram minha vida, mas também no Apocalipse e suas descrições secas e realistas de seres que mal cabem nos livros mais fantásticos que foram escritos depois. Mas, talvez, nenhuma obra supere o livro de Jó.

Não entendo nem mesmo como um livro deste teor entrou para o cânone eleito pelos sábios do judaísmo. Mérito deles, na verdade: é de uma sinceridade atroz aceitar que, de todas as centenas de relatos que, direta ou indiretamente, tratam da criação do mundo, da formação do povo eleito e de sua tumultuada trajetória, uma obra que critica Deus tão abertamente possa fazer parte da compilação final.

Jó é o maior crítico de tudo o que Javé é, diz, fala, pensa, manifesta. E todas as dúvidas profundamente complexas que ele descreve fazem parte do coração da própria Bíblia. Parecem ser incorporadas aos textos que vieram depois – muitos dos livros dedicados aos antigos profetas se digladiam com questões que Jó levantou. O povo de Javé tem uma característica fascinante: é inteligente e crítico. E, neste sentido, Jó é um de seus maiores símbolos.

Não é um livro curto: outros, muitos outros, são bem menores. tem aproximadamente 50 páginas. Começa descrevendo o personagem principal: um homem íntegro, correto, temente a Deus, pai de 7 filhos e 3 filhas, dono de 7 mil ovelhas e 3 mil camelos. Era uma família festeira, como o texto bíblico descreve: “Seus filhos costumavam dar festas, um dia em casa de um, outro dia em casa de outro. E convidavam suas três irmãs para comerem e beberem com eles. Terminados os dias de festa, Jô mandava-os chamar para orar por eles. De manhã cedo ele oferecia um holocausto na intenção de cada um, pois dizia: ‘Talvez meus filhos tenham cometido pecado, maldizendo a Deus em seu coração’.”

Eis que Satanás aparece. Não é uma citação aleatória: nosso pensamento impregnado pelo catolicismo medieval interfere num fato claro e simples, o de que o Diabo não tem nenhuma relevância no Antigo Testamento. Os falsos deuses são atacados o tempo todo. Javé e os profetas criticam abertamente o povo judeu por recair o politeísmo. Mas Satanás simplesmente nunca é mencionado! A não ser, especificamente, no livro de Jó.

Misteriosamente, ele é citado como se fosse um personagem conhecido do leitor. “Um dia, foram os filhos de Deus apresentar-se ao Senhor. Entre eles, também Satanás”, afirma o texto sagrado. Eis que este novo personagem, possivelmente excluído pelos editores da versão final de outros livros mas muito famoso entre as pessoas comuns, resolve jogar pôquer com o Criador. Deus cita Jó como o exemplo máximo da bondade humana. Satanás responde, basicamente, que é fácil ser fiel quando se tem tudo. Deus decide então tirar tudo de Jó. Joga com a vida dos outros, aposta a vida que não é sua, ainda que Jó seja uma criatura de Deus (tanto quanto Satanás…).

De repente e sem explicação alguma, Jó vê seu mundo sumir. Todos os entes queridos morrem, o patrimônio se esvai, a saúde acaba, a pele fica coberta de feridas dolorosas. Sabemos, mesmo quem nunca leu o livro, que Jó vai ser recompensado ao final e acabará recuperando a saúde e as riquezas. Mas quem morreu não volta – ele ganha nova família mas as perdas mais profundas não são recuperadas. Jó entende que a punição que recebeu não é justa. Diz isso a vários amigos que o procuram para criticar sua falta de fé diante das provações. Estes diálogos dolorosos é que compõem o cerne do livro.

Jó questiona quem o critica. Garante que não mereceu punição alguma. Desafia o Criador, várias vezes, com afirmações duras: “Se caminhei na falsidade se meu pé se apressou para a fraude, que Deus me pese numa balança exata e reconhecerá a minha integridade”. Amigos e anciãos, um a um, vão e voltam, e recebem o mesmo tipo de argumento: Jó garante que nunca perdeu a fé, apenas não entende por que fez tudo certo e foi tão brutalmente punido. (E nós, leitores, sabemos desde o primeiro capítulo que ele tem razão, que tudo não passa de um jogo entre Deus e o Diabo em que apenas o pobre humano é agredido, espancado, maltratado.)

A teimosia do fiel Jó não tem nada a ver com a fé, ou a falta dela: ele se rebela contra uma situação de grave injustiça. Sua postura, corajosa, se mantém até o final, quando ele é confrontado por Deus em pessoa. Irritado, ameaçador, Javé o desafia, várias vezes. É loquaz, fala muito mais do que escuta, interrompe seu interlocutor – sinal de que havia perdido a razão e sido derrotado pelo homem honesto e teimoso.

A cada vez que Javé faz afirmações na linha “Então, quem censura o Poderoso, quer ainda discutir? Quem acusa o próprio Deus, deve agora responder!”, Jó responde de forma cautelosa, mas seca: “Reconheço que podes tudo e que para ti nenhum pensamento é oculto.” Ele parece irritado com o Criador, sem paciência para debater sua situação. E Javé se repete, várias vezes, sem motivação aparente. Parece saber que foi derrotado não só pelo humano, mas pelo demônio que o incitou a cometer um grave crime contra um fiel que seguiu todas as suas regras – e o que Deus mais faz para seu povo é criar regras.

Como acontece com frequência na Bíblia, um último capítulo surge, amenizando a dureza de todas as páginas anteriores e garantindo, rapidamente, que tudo acabou bem e sem conflitos. Não funciona: a leitura do livro de Jó leva o próprio livro sagrado a se questionar de ponta a ponta, de uma maneira inteligente, astuta e rigorosa.

Por isso mesmo é um dos livros mais influentes já escritos. Estimulou romances, peças, filmes e canções nos últimos milênios. E sempre vai continuar mexendo com a fé e a imaginação de quem quer que leia a obra e se coloque na pele machucada do fiel Jó, um homem mais correto do que seu próprio Criador.

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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