Jacquin: o chef bem temperado

O famoso chef Erick Jacquin lançou uma linha de temperos exclusiva

Postado dia 04/03/2016 às 08:00 por Edgard Reymann

jacquin

Foto: Divulgação/Internet

Conhecido como um dos mais destemperados chefs da cena gastronômica paulistana, Erick Jacquin foi do “fundo do poço” em 2013, quando fechou seu restaurante La Brasserie e se atolou em dívidas trabalhistas, para uma triunfal “volta por cima” a partir do final de 2014, no melhor estilo novelesco, com direito a fama, reconstrução de imagem e até uma linha de “tomperrros” com seu nome. Uma mudança e tanto na trajetória do cozinheiro francês, que em pouco tempo trocou a fama de irascível, ainda que respeitado, pelo de chef celebrado e admirado, especialmente pelas crianças.

Os tais “tomperrros” chegam em oito sabores e levam o nome de UChef. São importados da África do Sul, produzidos pela Cape Foods, empresa especializada na produção de temperos variados e que atua globalmente. Conversando com ele durante o evento de lançamento em São Paulo, no restaurante Le Bife, que tem consultoria do chef, Jacquin me disse que a ideia veio durante um jantar com amigos na sua casa. Um deles fez a ponte com a Cape Foods, ficando a Latinex como responsável pela importação e distribuição. Durante a apresentação Jacquin foi o mais Jacquin possível: “Divulga porque a gente tem que vender essa merde”, disse, para o delírio dos convidados. Cada “merde” dessa, por sinal bem interessante, custa em torno de 17 reais, e inclui sais do himalaia e marinho, temperos para frangos e carnes, o picante, o de ervas, lemmon pepper e pimenta do reino.

Esse gênio trouxe problemas para o cozinheiro. Ele chegou aqui em 1995, para tocar e revitalizar o Le Coq Hardy, que nos anos 1980 foi um dos melhores restaurantes franceses de São Paulo. Com Jacquin, conheceu dias de glória novamente, o suficiente para ele não só ganhar o maior reconhecimento francês em culinária, o de Maître Cuisinier de France, e tentar logo depois seu próprio negócio, o Café Antique, em 1999, imediatamente eleito o melhor francês de São Paulo. Em 2003 fundou o La Brasserie Erick Jacquin. À medida que colecionava prêmios, Jacquin fazia discípulos, muitos dos quais se tornaram desafetos por conta de seu gênio agressivo. Um dos mais comentados foi o teretetê com Wagner Resende, que quase saiu no braço com o chef depois que ele teria lhe jogado um molho de manga com caramelo, deixando inclusive uma cicatriz no braço. Resende saiu e foi convidado para trabalhar no finado Le Marais, de Ida Maria Frank (Due Cuocchi). Jacquin o acusou de ter levado suas receitas para o restaurante – e também a chef pâtissière Amanda Lopes. Resende hoje está no Parigi e Amanda dá aulas no Jelly Bread, tem sua própria marca especializada m festas e eventos corporativos, reatou relações com o antigo chefe, inclusive sendo a responsável pelos doces no casamento de Jacquin com Rosangela Menezes.

Diz a lenda que durante um evento com chefs convidados de outro importante mestre francês das panelas, Jacquin teria se “estranhado” com outro chef convidado, a ponto de pedir que este lhe passasse uma faca que o próprio Jacquin havia deixado no fogo, o que acabou lhe lesionando a mão. Por outro lado, ter trabalhado com Erick Jacquin é uma vantagem no currículo de qualquer profissional em início de carreira. Extremamente exigente e perfeccionista, ele fez escola e ajudou a melhorar a qualidade da culinária francesa servida na cidade, assim como introduziu algumas inovações gastronômicas lançando mão dos ingredientes nacionais. Num evento a que fui, no final de 2011, a convite da Maison Taittinger, que faz champagnes fantásticos, Jacquin teve a ideia de colocar um pouco de cachaça no sorbet de limão que entremeava o primeiro e o segundo pratos. Genial!

Com  tantos desafetos na cozinha, as questões trabalhistas começaram a pipocar em sua mesa. Endividado, Jacquin saiu do endereço em Higienópolis e foi para o Itaim. Ali não durou muito tempo. Todos se espantaram, num almoço no novo endereço, a convite da vinícola chilena Errázuriz, que faz o ícônico Seña e o ótimo Arboleda, entre outros, com a presença de formigões à mesa. Logo depois, a notícia de que Jacquin havia fechado as portas – e que estava quebrado. Mas para quem é talentoso e batalhou muito, a vida lhe deu uma nova chance quando foi chamado para ser um dos jurados do Master Chef Brasil. Ao lado da discreta argentina Paola Carosella (leia-se Arturito, La Guapa e Julia Cocina) e do emergente Henrique Fogaça, Jacquin era o de maior background, e todos os que já conheciam sua fama se perguntaram como ele trataria os candidatos. Ali surgia um novo Jacquin, cujos padrões de exigência transpareciam em seu olhar ígneo, fulminante, mas também muito, mas muito carismático. Foi ali que Jacquin se repaginou. Com as crianças, então, tornou-se um ídolo. “Criança não tem medo e é mais fácil de fazer o que a gente manda”, disse, demonstrando que a autoridade ainda está bem presente.

Desde então, ele não tem mais restaurante próprio: tornou-se consultor de vários, como o Tartar & Co. e o Le Bife, entre outros. Nem por isso passou de vidraça a pedra. Continua recebendo suas tijoladas de vez em quando. Há pouco, a crítica detonou o Le Bife, questionando sua qualidade. Em vez de se revoltar, encarou a crítica como dica, e fez as mudanças.  A outra novidade é que o canal Fox Life está preparando um especial sobre sua vida, da entrada à sobremesa, incluindo os pratos mais indigestos. Jacquin virou ou não virou um chef bem temperado? Ele comemora a mudança.

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Sobre o Autor

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Edgard Reymann

Jornalista que está atualmente dedicando suas atenções para o vinho e para a gastronomia

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