Já não há mais “antigamentes” como antes

Só hoje compreendo que o universo mental de um povo é o seu próprio mundo, sua vida, seu tempo, seu espaço

Postado dia 01/12/2016 às 08:00 por Leila Cabral

 

antigsamente

Foto: Reprodução

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos eu era feliz e ninguém estava morto” (F. Pessoa; Aniversário); havia ruas, ao fim da tarde, para brincarmos de roda e cabra-cega, queimada e lenço-atrás.
A família libanesa nos convocava e aos meus irmãos, e aos primos de montão para iniciar a convivência, embora sempre controlados pela hora do regresso. Era como se a rua entrasse casa adentro e saísse dela quando quiséssemos.

Tamanha a euforia do momento que, para nós, não havia futuro; morava em nós a alegria de todos e, ao regressar a nossas camas, noite adentro, o tempo habitava cada um apenas como companheiros de folguedos. Embalados por mais um dia, adormecíamos sem pensar.

A cidade se aquietava nos embalos da família, eu mergulhava nos sonhos e povoava-os de prazeres. Entre mim, a família, a casa e o meu mundo particular não cabia mais ninguém. O universo estava para cá da fechadura como o infinito para a amanhecência.

Só hoje compreendo que o universo mental de um povo é o seu próprio mundo, sua vida, seu tempo, seu espaço; o mesmo que constrói os “antigamentes de outrora”, a memória que não dá trégua, embora existam tantos a quererem sepultá-la.

Tudo isso se chama esperança, alma de um patrimônio que necessita de guardiões, batalhadores atuantes.

A memória coletiva tem suporte em um grupo limitado, no espaço e no tempo, mas este só é real na medida em que tem um conteúdo, ao oferecer uma gama de acontecimentos ao pensamento. Limitado, relativo, o tempo possui realidade plena, ampla para fornecer às consciências individuais um quadro documentado e, desse modo, podermos nele dispor e encontrar suas lembranças.

A memória coletiva não existe sem que se desenvolva em uma tela espacial; por isso explica-se o fato de gostarmos de voltar aos lugares que nos ajudaram a construir nossa identidade, para resgatar esta ou aquela categoria de lembranças.

O mais decepcionante, contudo, é quando procuramos por antigos patrimônios que marcaram nossa infância, nosso imaginário e constatamos que sequer o lugar existe (culpa do “cupim”). Ou, então, o encontramos enterrado, juntamente com a história dos nossos antepassados, ou nos deparamos com o convite ao “nada”: nada de futuro, nada a ver, nada a mostrar aos nossos descendentes, nada a dizer aos nossos discípulos a não ser sobre a mágoa de não vermos preservadas as nossas raízes, a história vilipendiada, colocada no panorama do “ao deus dará”. Lamentável.

Inspirado em Mia Couto

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Sobre o Autor

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Leila Cabral

Especialista em língua portuguesa, é também doutora em literatura e história pela Universidade de SP.

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