Irmãos siameses

Historiadores e jornalistas estão ligados intimamente. Ainda que conjuguem verbos em tempos diferentes, suas responsabilidades são semelhantes

Postado dia 31/08/2016 às 08:30 por Heródoto Barbeiro

 

 

siameses

Foto: Reprodução/Internet

Sem dúvida jornalismo e história estão umbilicalmente ligados. Ainda que conjuguem verbos em tempos diferentes. Para ambos há a necessidade de se fazer uma conferência dos fatos e só depois se mergulhar na interpretação. Já se disse que os fatos são sagrados e a opinião é livre. Historiadores e jornalistas são necessariamente selecionadores – ou, como se diz no jargão, editores, aqueles que em última análise constroem as histórias que serão divulgadas.

Eles escolhem o que consideram relevante ou não. O que decidem ser irrelevante volta para o arquivo ou simplesmente é deletado. Os dois devem ter em mente que a exatidão e a acurácia são deveres e não virtudes. Uma apuração pífia pode resultar em uma reconstituição deturpada do passado, mas quando praticada por jornalistas atinge a reputação de pessoas, marcas ou instituições. Assim, se está em um documento, é verdade. Vale para a carta de abertura dos portos do Brasil, em 1808, ou em um boletim de ocorrência em uma delegacia de policia, ou a ata da última reunião do Copom.

Jornalistas e historiadores trabalham sobre o que apuraram e decifram estes dados para o público. Precisam ser didáticos, claros, e o mais objetivos que consigam ser. Ambos pertencem ao presente, ainda que um atue com fatos passados. A história é uma fonte importante para a construção de reportagens e outros trabalhos jornalísticos. Tanto um como outro não podem resumir o seus trabalhos com as providenciais teclas do ctrl C e ctrl V à disposição de todos.

Eles não são nem escravos, nem senhores absolutos dos fatos. Há, portanto, uma interação continua entre o autor de uma reportagem ou um episódio histórico com o que relatam. Não vivem isolados em ilhas do conhecimento, mas fazem parte da floresta que divulgam nos seus trabalhos. Portanto não estão imunes às influências do cotidiano, e por isso votam, torcem para times de futebol, usam transporte, vão ao templo e tudo mais que uma pessoa comum pratica no dia-a-dia. Também têm seus dias de mau humor. Mas os problemas pessoais não podem ser descarregados em cima dos seus personagens, sejam eles mais ou menos simpáticos. Qualquer ato que pratique está sempre ligado à sociedade a que pertence.

Jornalista e historiadores são produtos da história. Ambos são influenciados pelo passado e pelo presente. Lembram o deus Jano, que num mesmo corpo tem duas faces. Era o deus da mudança contínua, dos casamentos e nascimentos. Representava a transição da vida primitiva para a civilização, do campo para a cidade, da guerra e da paz, da infância e da maturidade. Ainda que um seja um cientista social e o outro não. Acompanham o fluxo social e eles mesmos são fluxos. Retratam as relações necessárias que independem de sua vontade e descrevem a produção social dos meios de produção. Olham para a sociedade, passada e presente, como uma arena de conflitos sociais e identificam os que sustentam e se contrapõem aos movimentos. Todos influenciam o seu trabalho do dia-a-dia.

Ainda que irmãos siameses, dão ênfases diferentes sobre fatos sociais. Para o historiador, a condição de bom marido de Napoleão Bonaparte só interessa se seu casamento influenciou nos acontecimentos da França no século 19. Já para o jornalista pode ser um fato que sustente uma reportagem sobre a convivência de um casal no mundo contemporâneo, ou um exemplo que explique uma reportagem sobre o número de divórcios divulgados pelo IBGE.

 

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter