Irmãos por semelhança

As histórias de José, no Egito, e Daniel, na Babilônia, são muito parecidas. Os dois jovens hebreus, que vivem em terras estrangeiras e contam com Javé para influenciar reis poderosos, oferecem um alento para um povo cativo

Postado dia 03/06/2016 às 07:30 por Tiago Cordeiro

 

jose

Foto: Reprodução/Internet

Jovens, cativos, estrangeiros, mergulhados num mundo estranho. Com rapidez impressionante, tomam o posto de mentores de reis dos povos que os dominam. José e Daniel são assim: personagens que oferecem alento para os judeus, um povo que passou boa parte da sua história cativo ou vivendo em terras estrangeiras. É por conta deste tipo de relato, ao qual a Bíblia dá grande valor, que este povo parece se manter resistente a perseguições e culturas diferentes (e muitas vezes agressivas). A resiliência do povo não vem de uma pessoa, nem de uma geração: os judeus não controlaram Jerusalém por extraordinários 21 séculos, do domínio de Roma até o fim da Segunda Guerra Mundial.

Tinham tudo para serem absorvidos e desaparecer como povo de identidade própria, como aconteceu com tantas civilizações milenares. Ainda assim, continua olhando para trás e se espelhando em figuras que, possivelmente, nem existiram, mas são tremendamente inspiradoras.

O que impressiona em José e Daniel é que eles se tornam poderosos dentro dos reinos do Egito e da Babilônia simplesmente porque são puros e corajosos, e por isso deixam Javé atuar livremente. É Deus quem mostra sua força, e não os dois. É Ele quem ajuda a interpretar sonhos, uma ferramenta pagã decisiva para convencer o faraó (não nominado) e o rei Nabucodonosor do valor de seus fieis. No relato bíblico, os dois líderes entendem que os jovens são ferramentas. Respeitam aos dois, sempre deixando claro que é a Deus que eles temem.

José não ganhou livro próprio, ainda que sua história ocupe expressivos 14 capítulos do Gênesis. Mas sua trajetória ajuda a explicar por que o povo hebreu foi parar no Egito, onde se tornaria uma multidão cativa a ser salva por Moisés. Ele é vendido como escravo por seus próprios irmãos, que dizem ao pai, Jacó, que ele morreu. Cativo, acaba se tornando um administrador dos mais expressivos, governador-geral de todo o império. Salva sua família da fome antes de morrer, aos 110 anos. É por intermédio de José que o povo hebreu se instala no Egito, onde, gerações depois, segundo o texto bíblico, seria escravizado até alcançar a libertação com a ajuda de Moisés.

Já Daniel é um dos hebreus escolhidos para servir pessoalmente ao rei da Babilônia, depois de receber três anos de treinamento. Vive no cativeiro babilônico e também conquista o homem mais poderoso do mundo em seu tempo ao demonstrar talento espantoso para interpretar sonhos. Daniel chega ao cúmulo de adivinhar até mesmo qual foi o sonho que o rei teve, para depois ajudá-lo a interpretar os sinais contidos ali. Perseguido pelos invejosos, que forçam o rei a jogá-lo na cova dos leões, Daniel sobrevive milagrosamente.

As semelhanças dos dois casos são impressionantes. Afastados séculos no tempo e centenas de página na Bíblia, eles continuavam – e continuam – necessários para as lideranças judaicas que precisavam de exemplos expressivos para sustentar a fé do povo. A lição que os dois deixam é clara: na falta de território, exércitos ou riquezas, serenidade, coragem e fé inabaláveis são tudo o que uma pessoa precisa para se manter ligada a Javé. O Criador retribuirá, com favores e benesses que favorecem o indivíduo, mas também todo o seu povo escolhido.

 

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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