Inverno ou verão?

A vitória do capitalismo na Guerra Fria acabou com o espírito amador dos Jogos Olímpicos. Para ampliar o potencial lucrativo, eles se tornaram jogos "de verão", em contraponto às competições "de inverno"

Postado dia 17/06/2016 às 08:00 por Heródoto Barbeiro

olímpicos

Foto: Reprodução/Internet

Vence quem tiver mais força. Para os espartanos, o prêmio é o direito de estar na primeira fila da batalha, ao lado do rei. Para disputar os jogos, havia uma paz religiosa aceita por todos os que estavam envolvidos em guerras. Sob a égide do encontro entre cidades-estado, da disputa ética e da paz, realizavam-se os jogos olímpicos na Grécia antiga.

Com essa mesma proposta, os países se reuniram nos Jogos Olímpicos, recuperados por Coubertin no final do século 19, período conhecido pelas disputas colonialistas e imperialistas, principalmente nos continentes africano e asiático. O nacionalismo ganhou uma importância vital nas competições. As bandeiras, as medalhas, os hinos eram as provas de superioridade de uma nação sobre a outra, mostradas para o mundo desde o topo do pódio.

Já no período entre guerras, abriu-se uma ampla janela para as disputas de ordem étnicas, em um contexto racista ideológico. Ganhar era venerar a superioridade de uma raça sobre outra – tudo utilizado como propaganda política. Os Jogos Olímpicos perderam a sua pureza e as competições ficaram em um segundo plano e só se destacavam quando Hitler e seus asseclas transformaram a Olimpíada alemã na testemunha do êxito do seu regime.

O cenário da Guerra Fria se adequou às disputas entre as nações capitalistas e comunistas. Vencer uma prova ou conquistar um maior número de medalhas significava comprovar a supremacia de um sistema sobre o outro. De um lado, a juventude socialista. De outro, os atletas capitalistas, especialmente americanos. O que movimentava os atletas era o ideal de conquistar uma medalha para si, para o seu país e para a sociedade que vivia.

A guerra de propaganda se intensificou com as novas tecnologias com as provas transmitidas ao vivo e em cores para quase todo o globo. Ora os comunistas ora os capitalistas boicotavam o evento. Terroristas se apresentaram mesmo sem ser convidados.  Nasceu desse contexto o esmero do país sede em mostrar na abertura dos jogos um verdadeiro teatro no estádio olímpico. Todo o esforço possível para que a abertura dos jogos superasse o evento anterior e chamasse a atenção do mundo para as suas conquistas. Era o momento de juntar bailarinos, músicos, acrobatas e toda a pirotecnia possível para mostrar o progresso que aquele país tinha alcançado. Era um show para ninguém perder, principalmente os políticos que usavam ou como uma conquista pessoal ou do sistema.

As empresas multinacionais entraram nos jogos. Primeiro patrocinando as transmissões de tevê, depois com a publicidade nos estádios. Finalmente elas chegaram aos uniformes de todos os atletas. Com isso, acabou o amadorismo e surgiram os contratos milionários. Com o fim do sovietismo, as grifes ganharam os uniformes de competição, de passeio, e até mesmo os palitos no desfile das delegações na solenidade de abertura.

Os refrigerantes, fast foods, eletro eletrônicos, companhias aéreas, bancos, financiadoras, seguradoras, fabricantes de carros, roupas esportivas, relógios, enfim, um sem fim de produtos que queriam se identificar com a prática esportiva. Colar a marca em práticas de saúde, vitória, rejuvenescimento, progresso econômico e tudo de bom que a sociedade capitalista pode produzir. Os anunciantes queriam mais espaço.

Os tradicionais Jogos Olímpicos ganharam o qualificativo “Verão “, isto porque as competições no frio se tornaram Jogos Olímpicos “de Inverno”. Ao invés de a cada quatro anos, a Olimpíada passou a intercalar os jogos de verão e de inverno. Para buscar a admirabilidade da sociedade, foram recuperados os  jogos paraolímpicos. Atletas portadores de necessidades especiais ocupam espaços anteriormente reservados para os super atletas. O último passo foi permitir que a sede se deslocasse de países ricos para os países pobres. Mesmo que o custo ultrapasse os 29 bilhões de reais – que provavelmente fazem falta nas escolas, postos de saúde e saneamento.

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Sobre o Autor

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Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

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