Insistir no erro é… Política

As medidas anunciadas pelo governo foram calculadas com base apenas na manutenção do cargo de Dilma Rousseff

Postado dia 29/01/2016 às 10:54 por Janaína Leite

crise

Foto: Divulgação/Internet

Na cidadezinha do interior, a professora estala a régua de madeira na palma da própria mão. “Quanto é cinco vezes cinco?” pergunta, solene, ao aluno que tenta resolver uma operação matemática no quadro negro. O menino franze a testa e chuta. “Trinta!” A sala cai na risada. A professora, indignada, pega o estudante pela orelha. Bate sua testa contra a lousa e avisa aos galhofeiros que façam silêncio. Faz a turma inteira recitar a tabuada, enquanto agita a régua como se fosse uma batuta. “Uma vez cinco, cinco. Duas vezes cinco, dez. Três vezes cinco, quinze. Quatro vezes cinco, vinte…” Vira-se para o distraído. “Cinco vezes cinco?”, interpela. O garoto saca outro número da cachola. “Quarenta!” A mestra segura o fôlego, arregala os olhos e encrespa as mãos. Quer esganá-lo — desta vez são duas batidas da testa no quadro. A classe se esbalda. Uma algazarra. A mestra espanca a mesa exigindo silêncio. No meio da balbúrdia, o aluno sentado à primeira carteira tenta passar cola ao amigo. Abre o livro, aponta a gravura de um pinheirinho enfeitado e sussurra o resultado. “Vinte e cinco! Vinte e cinco!” A professora insiste. “Cinco vezes cinco?” E o pobre questionado, sem entender direito o que o colega dizia, meio atônito, meio entregando para Deus, consegue se superar: “Natal!”

A cena é de “Cinema Paradiso”, filme que ganhou o Oscar de melhor produção estrangeira em 1990, mas é perfeita para explicar as escolhas do governo na atualidade. A professora é a crise. Por mais que a presença dela seja opressora, draconiana, por mais ela que bufe e castigue, suas punições não adiantam para fazer com que o aluno – no caso, o Planalto e sua equipe econômica – deem uma resposta adequada. Pior. Eles não acertam nem quando a maioria esmagadora dos especialistas converge para a mesma receita: redução de despesas públicas e controle de inflação.

O primeiro item, a redução das despesas, tem sido ignorado de modo perseverante. O governo fechou 2015 com um rombo de R$ 115 bilhões nas contas e até agora não tomou nenhuma medida significativa para evitar que o mesmo aconteça em 2016. O segundo ponto, a inflação, segue tão ruim quanto. No ano passado, o índice estourou a meta e bateu a casa dos dois dígitos, alcançando 10,7%. Em bom português, o Estado é um gastador contumaz e sem freio, e a alta de preços carcome os salários, principalmente dos que ganham menos.

O ideal seria que o governo anunciasse um conjunto de medidas e metas divididas em curto, médio e longo prazo, um plano consistente de combate à crise. No entanto, a opção foi fazer cena com um batalhão de empresários, tentando recriar um conselho que nunca serviu para muita coisa, uma vez que aparentemente a presidência da República não ouve direito os conselhos de ninguém. Liberou ainda R$ 83 bilhões de crédito usando recursos do FGTS. Ou seja, além de não arrumar as suas contas, o governo criou incentivos para que os brasileiros também se endividem. Isso justo quando o cenário alerta para que as pessoas sejam prudentes e não brinquem com recessão, juros altos e desemprego cada vez maior.

O primeiro impulso é perguntar como seria possível esperar diferente de um governo no Brasil, um lugar no qual 40% dos alunos são incapazes de entender sequer o enunciado de uma questão de matemática e menos de 4% estão capacitados a trabalhar com tecnologia, segundo o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). A Medalha Fields de Artur Ávila, sozinha, não pode redimir um país. Infelizmente.

O caso, porém, é que a matemática em questão não é a tradicional. Não visa a economia, nem tem grandes pretensões para o futuro. O cálculo feito pelo Planalto olha apenas uma coisa: a manutenção do cargo de Dilma Rousseff.

Abrir a torneira do crédito oficial, acreditam, comprará de volta o apoio de parte do empresariado. Esfolados pela burocracia, pela falta de infraestrutura e pelos impostos excessivos, eles sempre ficam um pouco mais mansos ao pegar dinheiro mais barato do que no mercado.

A água também resfria uma parcela da classe média que, acreditando no discurso da campanha eleitoral, endividou-se no cartão de crédito e no cheque especial, e agora precisa recorrer ao crédito consignado para não pagar tantos juros.

Por fim, há esperança que a oferta de crédito passe uma mão de tinta sobre a parede arrebentada da relação entre a cúpula dos partidos da base aliada e seus apoiadores regionais. Afinal, as eleições municipais estão aí.

As medidas anunciadas ontem guardam alguma semelhança com a reforma ministerial de 2015, quando o Planalto acomodou o PMDB a partir da distribuição de pastas para o baixo clero daquele partido. Deu certo no curto prazo (o racha no partido foi contido e a votação do impeachment ficou para este ano), mas é uma incógnita que talvez não tenha como se sustentar ao longo dos meses.

Em suma, com mais de um ano de mandato, o que o governo realizou no campo econômico? Uma olhada rápida não traz a lembrança de uma lista muito boa:  1) Fritou um ministro da Fazenda; 2) substituiu o antigo, que não tinha forças, por outro, com prestígio, que caminha na direção oposta à da sensatez; 3) embolou-se em propostas que não andam no Congresso; 4) perdeu a credibilidade junto aos grande investidores; 5) tentou distribuir benesses para segmentos específicos, em troca de apoio, todas as vezes que não soube como agir.

É um problema sério quando os economistas em cargos públicos e a política confundem-se a ponto de fazer com que os primeiros esqueçam o livro-texto de suas profissões. Afinal, como diria Groucho Marx, a política é a forma de diagnosticar errado os problemas e depois tentar resolvê-los valendo-se de um remédio também errado.

Cinco vezes cinco? Feliz Natal.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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