Inimigo número 1

O diabo aparece pouco na Bíblia, mas a Idade Média transformou o Coisa Ruim numa grande obsessão. E com razão: ele é bem perigoso

Postado dia 08/11/2016 às 08:00 por Tiago Cordeiro

inimigo

Foto: Reprodução/Internet

Ele mal é citado no Antigo Testamento. Até que, de repente, Satanás aparece no céu, diante de Deus, para bater papo. Acaba induzindo o criador a torturar seu mais fiel seguidor, Jó. Assim é o capeta: não precisa aparecer o tempo todo. Mas, quando entra em cena, suas mentiras e artimanhas são terríveis. Jesus que o diga: precisou aguentar o mesmo Satanás charmoso e bom de papo enquanto jejuava no deserto – mas o filho de Deus, talvez escaldado pela experiência do pai, não cai na conversa e se mantém fiel.

É curioso que mesmo a história das origens de Lúcifer nem sequer seja descrita na Bíblia judaica. O caso do anjo vistoso, que afronta Deus por ciúmes da atenção do chefe aos humanos e é derrotado numa batalha épica, só veio a público graças a obras secundárias, a maior parte delas posterior ao relato canônico que conhecemos. Mas os autores do texto sagrado sabem muito bem que Satanás existe e é perigoso: os casos de possessão se multiplicam nos livros bíblicos. Vide o episódio em que Jesus expulsa um grupo de demônios, lança-os sobre porcos e os animais se jogam em um abismo.

Ao longo da Idade Média, também por influência do antigo deus Pã, dos gregos, o diabo foi ganhando o visual com que é mais conhecido: pele vermelha, cascos, rabo, chifres. E também recebeu apelidos mil – nosso João Guimarães Rosa, no clássico dos clássicos Grande Sertão Veredas, cita dezenas, como Coisa Ruim, Cão, Cramulhão, Severo-Mor, Tristonho, Danador, Pé-de-Pato.

É curioso que até mesmo religiões que não aceitam a existência de um único criador reconheçam que seres maléficos existem e nos atormentam, nos fazem desviar de nossos caminhos – é o caso do budismo. Fica fácil entender o motivo: alguma coisa, algum ser, precisa ajudar a explicar os absurdos que nós humanos somos capazes de cometer.

O capeta chegou a tempos mais recentes como chefe de sua própria religião. Na corte do rei francês Luís XIV, por exemplo, no século 17, virou moda participar de missas negras, variações bizarras da missa cristã que envolviam pentagramas, cruzes de ponta-cabeça e, dizem, sacrifícios humanos e de animais – tudo acompanhado de orgias e a contaminação de hóstias e taças de vinho consagrado.

Ainda hoje fazem muito barulho os grupos satânicos, o mais famoso fundado por Anton LaVey nos anos 1960. LaVey, que interpreta o Tinhoso no filme Bebê de Rosemary, criou a Igreja de Satã. Outras seitas satanistas continuam provocando polêmica – uma delas tentou, em 2014, realizar uma missa negra dentro das dependências da Universidade de Harvard e acabou barrada.

O tempo passa e Lúcifer continua sedutor. Mas, do ponto de vista da Bíblia, ele não é páreo para Deus. Afinal, é apenas uma das criaturas entre tantas, um anjo egoísta e invejoso que foi expulso do palácio celestial se mudou para o andar de baixo.

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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