Infância virtual: O que as crianças aprendem com máquinas?

Até quando os aparelhos eletrônicos podem influenciar de forma negativa a vida das crianças?

Postado dia 15/04/2016 às 07:00 por Julliana Santos

crianças

Foto: Reprodução/Internet

Se a criança passa uma parte do tempo na escola, a outra parte da sua formação fica a cargo de toda uma parafernália produzida para controlar mentes e corpos que necessitam de movimento, principalmente na primeira infância, período que vai desde a concepção do bebê até os sete anos. Neste período, grandiosas modificações ocorrem no indivíduo. Energias e forças são mobilizadas e canalizadas para cumprir a tarefa de completar um mínimo de competências necessárias para ingressar num novo ciclo de vida, que também é a maturidade escolar. A primeira infância tem uma característica peculiar: a imitação. Esta ferramenta principal auxilia a criança a se integrar neste mundo novo que se apresenta com grande complexidade. Por meio da brincadeira, as relações humanas se simplificam, como um ensaio para a vida adulta. Neste ensaio, diferentes aspectos físicos e mentais precisam ser aprimorados: ela precisa conhecer seu corpo, controlar seus movimentos, sentir o peso de suas mãos, os sons produzidos pelo seu corpo, a lateralidade (frente, atrás, direita e esquerda), o ritmo de sua respiração e as alterações que ocorrem quando o outro toca suas emoções. É preciso afinar o instrumento para chegar à maioridade com maturidade para encarar os desafios de uma vida autônoma.

As pessoas despertas para a importância da educação se questionam com certo temor, como será nossa sociedade quando esta geração atingir a maioridade? A quem elas estão imitando quando gastam horas presas a uma máquina, repleta de estímulos sensoriais e visuais artificiais, muitas vezes agressivos, ausentes de humanidade? Não acredito que qualquer indivíduo que chegue a estes questionamentos permaneça alheio às consequências do porvir. É óbvio que o excesso de tecnologia está roubando uma parte preciosa da infância, roubando os olhos encantados para um mundo belo, roubando fantasia, perfumes e cores. Quantas histórias estão deixando de existir devido ao confinamento? Quantas lembranças dos tempos da infância ficarão resumidas a aventuras cibernéticas? Quantas forças de (cri)ação estão ainda dormindo no interior da semente? É preciso despertar para a semente brotar.

Rudolf Steiner, filósofo austríaco, fez uma grande revelação numa palestra de 1924, que vale para os pais que costumam responsabilizar as crianças por não brincarem de outras coisas: “O que se diz à criança, o que se ensina à criança, não a impressiona. Mas como você realmente é, se você é bom e expressa esta bondade em seus gestos ou se você é bravo e raivoso e expressa isto em seus gestos. A criança é, toda ela, um órgão sensorial, ela reage a todas as impressões que são estimuladas nela por outras pessoas. Portanto, é essencial que não se pense que a criança seja capaz de aprender (pela razão) o que é bom, o que é ruim… mas é essencial que se saiba que tudo o que é feito na proximidade da criança é transformado no organismo infantil em espírito, em alma e em corpo. A saúde da criança durante toda a vida vai depender de como nos portamos em sua proximidade. As tendências que a criança desenvolve dependem de como nos comportamos perto dela.” A reflexão de Steiner traz a responsabilidade para os adultos, “devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”. (Mahatma Gandhi)

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Sobre o Autor

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Julliana Santos

Educadora em formação pela Universidade Federal de São Paulo.

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