Humildade e Sabedoria

Uma história de dois monges budistas guarda lições muito importantes para nossas vidas

Postado dia 30/06/2017 às 09:00 por João Anatalino

Foto: Reprodução

Esta é a lenda sobre dois monges do budismo zen, a quem chamaremos de Humildade e Sabedoria.

Humildade era um monge analfabeto, que, por não ter aprendido a ler e escrever, foi destacado para os serviços mais humildes que havia no mosteiro. Lavava as roupas dos outros monges, fazia a faxina, limpava as latrinas, ajudava na cozinha, podava as plantas do jardim.

Trabalhava como um doido e mal tinha tempo para participar das orações rituais e dos outros serviços do templo. Dessa forma, não fazia progresso na rígida hierarquia do mosteiro e ninguém, nem ele mesmo, esperava que se tornasse, um dia, um verdadeiro monge.

Sabedoria, ao contrário, era o mais sábio monge que havia no mosteiro. Conhecia de cabo a rabo todos os ensinamentos e rituais. Sabia recitar de cor todos os sutras e mantras sagrados da religião e era tido como o próximo primeiro mestre do mosteiro.

Um dia, o primeiro mestre do mosteiro pediu aos seus discípulos, como lição do dia, que escrevessem um pequeno poema para mostrar o que haviam aprendido acerca da doutrina do zen-budismo. Todos escreveram os seus poemas. A maioria deles era de ótima qualidade, tanto que o venerando mestre mandou fazer uma coletânea com eles para servir de ensinamento aos noviços.

Mas o poema mais esperado era o de Sabedoria, a quem se creditava ser o mais judicioso dos monges daquele mosteiro. Pois além de sábio e conhecedor profundo da doutrina zen, todos o tinham como um grande poeta.

E ele escreveu um belo poema que dizia:

“ O corpo é a árvore da sabedoria,
E o espírito é como um espelho brilhante.
Devemos espaná-lo e limpá-lo sem cessar
Para que nele jamais grude o pó.”

Os monges do mosteiro acharam o poema uma jóia de sabedoria. Pediram que fosse colocado no quadro de orações para que todos os dias pudessem lê-lo e recitá-lo como mantra. O próprio venerando mestre o felicitou pelo belo trabalho.

Humildade, sendo analfabeto, não conseguia ler o gabado poema. Então pediu a um monge que o lesse para ele. Assim que o colega terminou a leitura, ele pensou um pouco e disse: “Gostaria também de fazer um poema sobre esse tema. Poderias escrever o que estou pensando?”

Ele ditou e o colega escreveu:

“ O corpo não pode ser a árvore de sabedoria
Nem o espírito um espelho brilhante.
Pois se, na verdade, ambos são mera ilusão,
Onde, neles, há de grudar o pó?”

Os demais monges, ao ler o curioso poema, ficaram perplexos. Inclusive o próprio Sabedoria, que se sentiu, em princípio, afrontado pela crítica latente que o poema do monge analfabeto veiculava. E com certa arrogância, arrancou o papel do quadro e o rasgou.

Durante alguns dias Sabedoria meditou. Finalmente, uma noite, ele foi à cozinha, onde Humildade cozinhava o arroz para o jantar e perguntou a ele, com cara de poucos amigos:

― Já cozinhastes o teu arroz?

―Sim ― respondeu Humildade, sem se alterar. ―Podes ver que meu arroz é branco, mas precisa ser limpo ― completou, com um sorriso.

― Vem comigo ―, ordenou Sabedoria.

E os dois monges sumiram na noite escura. Desde aquele momento, ninguém, naquele mosteiro, os viu mais.

Dez anos depois, Humildade voltou ao mosteiro para receber a sua ordenação como venerando mestre. Junto dele vinha Sabedoria, como seu leal discípulo.

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Sobre o Autor

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João Anatalino

João Anatalino Rodrigues é bacharel em Direito e Economia e Mestre em Direito Tributário e escritor com 10 publicações autorais.

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