Homenageando Mogi das Cruzes

Uma linda homenagem feita com história e poesia.

Postado dia 22/08/2015 às 13:49 por Leila Cabral

MCruzes AVA

Há modos e modos de ser-no-mundo. No seu, Luiz Miguel, não se limitando apenas ao sentido, prepondera a presença – relação necessária espacial e corporalmente com o mundo e suas coisas. Atente, porém, ao seguinte: qual o saldo dessa empreitada intelectual? O principal, me parece, está no fato de você vislumbrar possibilidades de ressituar atitudes, utilizando corpo e consciência neste espaço de Deus, que é Mogi.

Aspirando a uma transformação do espaço em que vive, o da sua cidade, em objeto a ser sempre inteligido, interpretado e conservado, sem excluir o sujeito cognoscente moderno, reduzido à condição de produtor de progresso, por força do protocolo de se governar, você sempre foi contra esse império do progresso inerte que cresce para os lados, sem planos e sem direção.

Admirei seu poema que abertamente se insurge, não contra a evolução do nosso município, que não é do seu feitio, mas contra a interlocução vazia que caminha sem diagnóstico, desconstruindo um patrimônio que, a seu ver deveria ser mais respeitado.

Há infelizmente e sempre haverá os arautos da demolição, da desprodução, que evidenciam a falta de originalidade, a força política em estado dessubstancializado do mundo, força essa que frequenta há tempos os bolsos já cheios (como você mencionou o caso Itapety) imersos em crises mal resolvidas, metafisicamente falando. Contrariando o bom ou mau gosto intelectual, o homem mogiano, assim como você, deveria ser incansável na busca por um debate mais amplo sobre a crise do nosso patrimônio.

A DANÇA DOS TEMPOS

…a visão do teto…a visão do arquiteto…

Na constante dança dos tempos

O inexorável descompasso histórico

E o progresso da modernidade absurda

Afugentam nossas culturas passadas…

No constante bolero dos tempos

A desmemória fatídica

O alumínio esconde nossos adornos Eurocoloniais-indígenas

Veda as arquiteturas passadas

Nossa herança eclética-racial…

No constante balé das horas

A destruição da lendária serra do Itapety

O progresso imobiliário, o progresso industrial

Exalam a fumaça urbana, contaminam as águas mogianas

Anhemby (Tietê), Guaió, Jundiaí Taiaçupeba Mirim-Açu, Negro

Os ventos levam por seus leitos:

O lixo, o excreto, os execráveis agentes químicos terceiromundanos…

Na quadrilha cortesã Pulam e saltam os veados, as pacas, os nambus

Voam os pássaros nos quintais concretinos…

No ritmo do rock-and-roll

Abalamos os paralelepípedos, cobrimos as pedras

Benditas pedras, maldito fóssil viscoso:

O asfalto no Centro Histórico de Mogi das Cruzes…

No eletrizante heavy-metal

Abaixamos a cabeça à descaracterização mogiana

Curvamo-nos como nipônicos milenares

Às atrocidades ao nosso meio ambiente cultural

Ensurdecemos com decibéis malucos

A buzina, a lei do trânsito caótico…

E agora?

Agora já não ouvimos mais os sinos das

Centenárias igrejas do Carmo, o revoar dos pássaros itapetianos,

O ranger dos carros de boi

O trote dos cavalos e cavalheiros, aventureiros

E bandeirantes que por aqui passaram tempos atrás

Atrás – através das cirandas de roda

Das crianças mogianas, iremos nos encontrar

Até um dia, civilizações indígenas:

Muiramomis (pés-largos), Guayanas

Guerreiros Tamoyos do Paraíba, atrozes Tupiniquins

Até o dia profético de Caetano Veloso em que

Descerão de uma estrela e falarão aos homens, o óbvio:

“As matas atlânticas subtropicais, devastadas por nós

Se voltarão contra nós, Os rios ingentes de vida nos sertões mogianos

Nos envenenarão Os animais impávidos voarão contra nossas

Cabeças desnudas de consciência das belezas

Das terras e arquiteturas mogianas”

(Autor: Luiz Miguel Franco Baida – Arquiteto e artista mogiano.)

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Sobre o Autor

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Leila Cabral

Especialista em língua portuguesa, é também doutora em literatura e história pela Universidade de SP.

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