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Enquanto muitos artistas vivem uma luta contra a idade, tentando parar o tempo para manterem-se jovens para sempre, Bowie foi lá, encarou a morte de frente e ainda criou um álbum inteiro em cima dela

Postado dia 14/01/2016 às 00:00 por Mariana Pastore

davidlabyrinth

Eu ia escrever sobre outra coisa, o texto estava quase pronto, mas não consigo parar de pensar em David Bowie. Jurei que não ia escrever nada, pois nunca chegaria aos pés da minha admiração por ele, mas foi mais forte do que eu. Então escrevo como fã babona, não sou crítica de nada.

Se desenhasse na minha linha do tempo todas as vezes que o Bowie fez parte da minha vida, ele apareceria logo na primeira infância, aos três ou quatro anos, quando assisti ao filme “Labirinto” pela primeira vez. Morria de medo quando ele surgia em cena, mas ao mesmo ele era tão bonito, tão diferente de tudo que eu conhecia, que ficava hipnotizada.

Os encontros seguintes começaram em uma festa despretensiosa, à qual fui calçando sapatos vermelhos e ganhei uma música em homenagem a eles; passaram por madrugadas regadas à vodka na casa de um amigo onde ouvíamos suas músicas por horas; e uma matéria que escrevi sobre um gato com um olho de cada cor, o qual batizei carinhosamente de Bowie. Minha admiração nunca mais parou de crescer até chegar ao auge, até então, na exposição do MIS, em São Paulo, em 2014.

Que viagem! Estava tudo lá, as letras, as gravações, os figurinos, os filmes, os livros, as peças. A capacidade dele de criar, se recriar e se expressar por diferentes formas de arte é inigualável. A exposição acabava numa sala com um telão 360° dividido em quatro partes. Cada um mostrava um trecho de um show de uma fase diferente do Bowie. Era tão incrível e eu fiquei tão fascinada por cada performance que não queria mais sair, e por lá fiquei até o museu fechar!

Então minha linha do tempo chega ao dia 8 de janeiro de 2016, sexta-feira passada. Bowie completou 69 anos de vida e nós que ganhamos o maior presente: o álbum “Black Star”. Baixei e ouvi durante o trabalho. Achei o álbum difícil, mas não dediquei a atenção que ele merecia. Não ouvi até o final e deixei para fazê-lo num momento em que não tivesse distrações. Um amigo me mandou o clipe “Lazarus”, mas o conteúdo era exclusivo para assinantes de um jornal, o que me deixou com preguiça na hora e acabei adiando também.

Corta para segunda-feira, 11 de janeiro de 2016. O despertador do celular toca, pego-o na mão e vejo que há diversas mensagens na minha tela inicial. Uma salta aos meus olhos: “Mari, o Bowie morreu??”. Eu, a rainha do “mais cinco minutos”, despertei na hora e fui procurar uma notícia oficial, torcendo para não encontrar, afinal não podia ser verdade, o cara acabou de fazer aniversário! Mas era. Fui trabalhar com a cabeça em Marte, ouvindo Ziggy Stardust em looping no caminho.

Em meio a uma avalanche de textos, homenagens e vídeos na internet, finalmente parei para assistir ao novo clipe, “Lazarus”. “Caramba, como assim? Ele encenou a própria morte!” Mais uma vez, Bowie me surpreendeu. Até a morte, o maior tabu para mim (detesto conversar e sequer pensar sobreo assunto), serviu de inspiração para esse gênio.

Enquanto muitos artistas vivem uma luta contra a idade, tentando parar o tempo para manterem-se jovens para sempre, ele foi lá, encarou a morte de frente e ainda criou um álbum inteiro em cima dela. É por isso que ele é o artista mais foda que eu conheço. Viveu para a arte, para a música e para a performance. Mesmo recluso, não parou de trabalhar e ainda fez algo extraordinário, mais uma vez.

Eu nunca o vi ao vivo. Encontrei com ele somente uma vez, num show, num sonho. Era o único que faltava na lista dos artistas que gostaria de ver antes de morrer. Quem sabe em outra vida eu ainda consigo olhar dentro dos olhos dele, hipnotizadores, e agradecer: “Thanks for everything!”.

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Sobre o Autor

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Mariana Pastore

Mariana Pastore é jornalista, atualmente é freelancer na área. É apaixonada por viagens, e pelo universo da arte e cultura

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