A herança dos currais

É o preço da nossa ignorância que financia este paraíso de vigaristas e estelionatários que tomaram de assalto o nosso país

Postado dia 24/10/2016 às 09:59 por João Anatalino

 

currais

Foto: Reprodução

Lembro-me de uma história que o pai de minha falecida esposa contava. Ele foi prefeito de uma cidadezinha no interior da Paraíba. Toda noite ele se sentava numa cadeira de balanço, na varanda da sua casa, e os habitantes da cidade faziam fila para conversar com ele. Um par de botinas para um, uma enxada para outro, emprego público para o filho de outro, carro para levar alguém para o hospital na capital e assim por diante. Com isso o coronel Octacílio foi eleito várias vezes. Quando não era ele, elegia algum parente. Eis a história que ele me contou: houve um coronel (não foi ele, isso ele jurava de pés juntos) que fretava vários ônibus para buscar os eleitores no dia da eleição. Trazia o povo para a fazenda, botava dentro de um curral e enchia o povaréu de comida. Depois pegava os títulos de eleitor de todos e só os devolvia á noitinha, após terminada a votação. Na hora de ir embora, um ou outro caboclo perguntava para ele: “Coronel, o senhor pode me dizer em quem eu votei? “

Isso pode parecer engraçado, mas tem um alto custo. Políticos como Fernando Collor, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Edson Lobão, Jader Barbalho e outros da mesma laia já deveriam ter sido banidos da politica nacional há muito tempo. Mas a maioria continua na política, não só sendo sempre bem votados, mas ainda patrocinando a carreira de outras tranqueiras como eles. Agora estão sendo investigados pela Lava Jato. Tomara que desta vez o Supremo Tribunal Federal faça o que a maioria do povo deste país deseja, que é botar toa essa corja na cadeia, acabando de vez por todas com essa maldita herança dos currais.

Também não dá para entender porque ainda se mantém essa indecência jurídica que é o foro privilegiado. A ditadura já acabou. Não se justifica mais a carapuça que a Constituição criou para proteger o direito de opinião. Hoje esse instituto só serve a bandidos, vigaristas, estelionatários e ladrões, que se travestem de políticos para poder roubar impunemente. O Supremo levou quase dez anos para julgar o Mensalão. A maioria dos condenados pegou pena menor que isso. Alguns deles, como o José Dirceu, continuou delinquindo até quando cumpria pena. Com privilégios como esses não admira que a criminalidade no Brasil continue crescendo mais que o PIB da China e que mais e mais jovens e adolescentes queiram entrar para esse mercado. Ele garante bons rendimentos, status social e impunidade.

É o preço da nossa ignorância que financia este paraíso de vigaristas e estelionatários que tomaram de assalto o nosso país. E nós continuamos todos dentro do curral.

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Sobre o Autor

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João Anatalino

João Anatalino Rodrigues é bacharel em Direito e Economia e Mestre em Direito Tributário e escritor com 10 publicações autorais.

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