Guerra nas areias

Para Thiago Dias, a guerra nas areias do Rio de Janeiro, se espalha além do conflito entre marginais e cidadãos, promovendo verdadeiras segregações étnicas que contribuem ainda mais com a desigualdade social na cidade maravilhosa

Postado dia 02/10/2015 às 17:02 por Wilson ADM

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Arrastam-se pelas areias pés e cadeiras apressadas. Mais um domingo quente no Rio de Janeiro! Gritos aflitos contrastam com a paz que emana das águas serenas, um dia de poucas ondas no mar. A correria entre toalhas e cangas termina com um jovem caído, o rapaz sumariamente recebe alguns tapas do policial, a plateia ao redor aplaude. A cena já virou rotina.

Se por um lado, os “arrastões” andam ofuscando o brilho das praias cariocas e tirando o sossego do descanso de muita gente, por outro, a reação de alguns moradores dos nobres bairros da Zona Sul a eles não poderia ter sido mais elitista e irracional. Algumas linhas de ônibus que fazem o transporte de bairros da Zona Norte e Zona Oeste da cidade em direção as praias da Zona Sul tiveram seus carros danificados, passageiros foram agredidos, fisicamente e verbalmente, os autodenominados “justiceiros” foram parar nas capas de jornal.

O poder público parece concordar que a solução para o problema é dificultar o acesso as praias. Apenas o tipo de violência utilizado é diferente. O número de linhas de ônibus que ligam os bairros economicamente menos favorecidos da cidade às praias foi reduzido, as que ainda existem, são vistoriadas, passageiros “suspeitos”, como os sem dinheiro na carteira, são retirados dos veículos.

Tal cenário nos remete a questionar o quanto a identidade de alguns espaços da cidade do Rio de Janeiro vem sendo alterada ao longo dos últimos anos, em que a mesma passou por intensas transformações, políticas, físicas e econômicas. A praia, aos finais de semana, talvez seja, historicamente, o espaço mais democrático da cidade de São Sebastião. Tanto por seus frequentadores, que sempre dão à mesma um colorido diferente nesses dias, quanto por sua vista, escancarada para alguns dos mais conhecidos morros da região, como o Vidigal.

Mas a elitização de espaços populares da cidade não fica restrita as areias. Para muita gente a tradicional dobradinha carioca de “praia e sol, Maracanã e futebol” ficou salgada demais. O Novo Maracanã parece também não gostar dos torcedores menos abastados. Os ingressos são caros, assim como as bebidas e comidas – bandeiras grandes foram proibidas, torcedores assistindo jogo sentados, pessoas se fotografando enquanto a bola rola – o antigo frequentador da “geral” deve até se envergonhar, quando se dá ao luxo de ir.

Os exemplos são intermináveis, da Pedra do Sal, reduto do samba carioca na Praça Mauá, passando pela Feira de São Cristóvão, centro de tradições nordestinas que fica no bairro homônimo. Os dois espaços foram abraçados pelos universitários e viraram point de um público “mais alternativo”. Se por um lado, o intercâmbio cultural é positivo, por outro, os preços subiram e os frequentadores tradicionais já começam a abandonar os locais, hoje vistos como “muito caros” e “muito cheios”.

Uma nova ordem pede passagem no Rio. A antiga cidade parece perder, aos poucos, pedaços de si mesma. As rodas de samba e Capoeira dos Arcos da Lapa, cada vez mais, de tem de disputar espaço com caixas e carros de música eletrônica. A distância entre subúrbio e Zona Sul nunca antes pareceu ser tão maior do que é no mapa, como parece nesse momento. Tanto tempo sem viajar. Mas sinto saudades da minha cidade.

 

Autor: Thiago Dias
Profissão: Advogado
Cidade: Rio de Janeiro
Formado em direito pela UFRJ, advogado que se aventura pela música e a escrita de crônicas, artigos e poesias.

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