A graça dos mercados

Marcadas pela incerteza, as bolsas de valores oferecem ganhos rápidos – e perdas bilionárias. Mas é possível investir de forma mais segura e reduzir os dois: riscos e rendimentos

Postado dia 22/11/2016 às 08:30 por Luiz Edmundo

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Foto: Reprodução

O mercado tem suas leis e assim ele se distingue das loterias, mas a sua principal característica é a incerteza. Muito se pode esperar dos preços, mas não existe garantia quanto ao rumo da sua evolução; qual ativo deverá subir, e qual descerá? Como se comportará a Bolsa de Valores? E os preços dos hortifrútis após uma geada, como se comportarão? Se tivéssemos as certezas para essas questões… acho que não teria graça.

Em 2008, quando a crise detonada no mercado imobiliário norte-americano atinge o mercado nacional, o dólar dispara. A mudança súbita da tendência da moeda, pega de surpresa grandes empresas nacionais endividadas em dólares.

Em janeiro de 2008, um dólar no Brasil custava R$1,77. Seu valor irá declinar até julho, chegando a custar R$1,59. A partir dessa data inicia o processo de sua valorização, chegando em dezembro a R$ 2,39. Essas empresas, então com dívidas em dólar, deixaram de fazer reserva em moeda norte-americana, pois contavam com a preservação da tendência de alta do real.  Esperavam, ao deixar a conversão para o futuro, usar menos reais para comprar a moeda norte-americana. Porém, ao chegar a data de vencimento, a conta vem com um acréscimo de 50%.

Certamente, esse caso não teve graça para Sadia, Votorantim, Aracruz Papel e Celulose, que amargaram prejuízos bilionários na época. Porém, não cabe ao mercado a culpa desses prejuízos, pois existem meios de evitar os riscos corridos. Foi a busca de lucros especulativos que as levaram a prejuízos dramáticos, prejuízos que marcaram o destino dessas empresas.

Uma operação a termo, ou no mercado futuro, pode eliminar os ricos de uma variação brusca nos preços. Essas operações denominadas hedge (cercar ou proteger) consistem em estabelecer hoje as condições contratuais de preço e quantidade para uma entrega futura. Nesse caso comprador e vendedor aceitam negociar hoje uma certa quantidade de dólares (ou commodities agrícolas) para entrega futura, a um preço conveniente a ambas as partes.

E, se no futuro o dólar se elevar, o comprador terá levado vantagem por ter pago um preço menor e o vendedor não obteve prejuízo pois vendeu a um preço aceitável. Se, por outro lado, o preço cair, o comprador não teve prejuízo, pois comprou a um preço razoável, mesmo sendo esse um valor maior que ele pagaria se esperasse o preço cair.

Enfim, incorrer em risco não é uma condição inevitável nos mercados, é uma opção para atingir ganhos especulativos. Para o investidor conservador, avesso a riscos desnecessários, o mercado oferece alternativas como os hedges.

Porém, a graça dos mercados, para muitos, está exatamente nas possibilidades de lucros rápidos.  Conta-se a história do lendário megainvestidor George Soros, que teria ganho um bilhão de dólares no mercado futuro, sem que para isso tenha gasto um só centavo.

Durante a integração europeia no início dos anos 90, prevendo uma desvalorização da Libra Esterlina, a moeda inglesa, o investidor húngaro, naturalizado norte-americano, vende grande quantidade da moeda inglesa para entrega futura. Na data do vencimento do contrato, como previsto, a libra tinha perdido valor. O investidor adquire a moeda a um preço inferior ao recebido antecipadamente, embolsa o lucro e como o restante paga seus credores. Nesse caso, a graça está em ser bem-sucedido apesar dos riscos corridos.

Com isso, podemos distinguir a diferença entre investidor e especulador. Se o especulador está disposto a correr risco para obter lucros excepcionais, o investidor procura eliminá-lo para garantir o lucro planejado. Ambos, porém, investidores e especuladores, para atingir seus objetivos, procuram conhecer as leis e os mecanismos do mercado – pois, se a sorte não ajudar, o azar também não atrapalhará.

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Sobre o Autor

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Luiz Edmundo

Economista e doutor em engenharia da produção, dedicam-se ao ensino superior como professor.

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