Glauco Ricciele

Jovem professor de talento, aos 28 anos ele assumiu a presidência da recém-fundada AMHAL (Academia Mogicruzense de História, Arte e Letras). "Temos todas as condições de mudarmos a cultura da cidade", ele garante

Postado dia 30/09/2016 às 10:35 por Sociedade Pública

Foto: JRO Fotografia - Glauco Ricciele e sua esposa

Foto: JRO Fotografia – Glauco Ricciele e sua esposa Valéria Rocha Machado

Glauco Ricciele é um professor mogiano, nascido no bairro do São João. Sua mãe, Cleide Aparecida do Prado, é professora ainda atuante na rede municipal de ensino de Mogi das Cruzes. Seu pai, Antonio Lemes da Cruz Ribeiro, era pintor e jogador de futebol, chegando a participar de times como o Comercial e o União de Mogi.

Sendo um jovem talento, Glauco assumiu a presidência da recém-formada AMHAL (Acadêmia Mogicruzense de História, Artes e Letras) com o intuito de preservar valiosos patrimônios históricos da cidade, que possam servir para o desenvolvimento cultural da sociedade e também como fonte de pesquisas. Nessa entrevista, Glauco Ricciele, de apenas 28 anos, conta um pouco de sua história, fala sobre a AMHAL e também a respeito de políticas de educação.

##SP: Como foi o seu desenvolvimento educacional e acadêmico?

Cursei o ensino fundamental na escola Henrique Perez. Futuramente fui para o colégio Deodato Wertheimer, onde não me adaptei como desejava. Comecei a busca por uma nova escola e decidi estudar no Camilo Faustino de Mello, que na minha opinião era uma escola diferenciada. Tive bons professores, que até hoje são meus amigos. Eu também recebi, desde criança uma formação cristã que mantenho até os dias atuais. Depois de formado no ensino médio, comecei logo em seguida a cursar História na UBC (Universidade Brás Cubas). Em 2011 fiz pós-graduação e em 2013 realizei o mestrado em políticas públicas na UMC (Universidade de Mogi das Cruzes).

##SP: O que te levou a querer fazer faculdade de história?

destaqueIsso vem desde quando eu ainda era garoto. Sou participante da Festa do Divino, e acredito que eu desenvolvi um tipo de hobby, colecionar informações sobre a história do evento. Desde 1997, separo documentos da festa do Divino em pastas, possuo diversos recortes de matérias de jornal. Hoje tenho uma cervo de quase 20 anos com diversos registros da Festa do Divino. Eu gostava de ler as obras de Isaac Grinberg, me interessava pelas histórias de Mogi e gostava de conversar com pessoas mais velhas também como meu avô e vizinhos. Na escola eu não era um aluno nota 10 em história, minha ex-professora Nilza deve lembrar bem disso. Mas quando entrei na universidade comecei a me aprofundar e desenvolver cada vez mais gosto por esse estudo.

Estava na dúvida se eu ia pesquisar ou lecionar, pois eu já via o desafio que era ser professor nos dias atuais. Enquanto estava fazendo faculdade, comecei a experimentar como era a profissão de docente atuando pela rede estadual de ensino na escola Cid Bocault em Jundiapeba. Nesse período tive que aprender na raça, pois eu ensinava diversas matérias, menos história. Fui começar a dar aula de história somente em 2009 na escola Benedito Borges, na rodovia Mogi Bertioga, e foi nesse ano que me formei na faculdade. Logo após recebi um convite para dar aulas na rede privada, no colégio Millenium Construtivo, onde fiquei até 2012. Depois fui para a escola de ensino médio Unisuz, na cidade de Suzano. Em 2011, consegui passar em um concurso público: entrei na ETEC Presidente Vargas, onde estou até hoje lecionando história, filosofia, sociologia e ética, nas cidades de Mogi, Itaquaquecetuba e Arujá. Em 2014 recebi um convite para entrar na escola UEB (Universo da Educação Básica) e atualmente também atuo nessa instituição.

##SP: Quais pesquisas você desenvolveu durante sua fase acadêmica?

Durante minha pós-graduação eu desenvolvi uma pesquisa descrevendo como a Universidade se comportou durante o regime militar. Consegui um arquivo histórico do estado de São Paulo da divisão do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), uma instituição que durou de 1932 até 1982. O que chamou a atenção nessa pesquisa foi ter descoberto que quem investigava as universidades era a aeronáutica, e as pessoas que eram presas dentro das universidades eram levadas para o Campo de Marte. Outra curiosidade foi ter descoberto que o compositor Geraldo Vandré chegou a vir para Mogi das Cruzes, onde foi preso quando descoberto por um policial, que, ao interrogá-lo, descobriu seus planos de fugir com uma garota que ele havia conhecido através de cartas, e que por acaso era menor de idade. Depois da pressão da imprensa, ele foi liberado.

##SP: E qual foi a sua tese de mestrado?

Durante meu mestrado, desenvolvi um trabalho crítico que envolvia uma tese sobre a preservação dos patrimônios históricos de Mogi, uma forma de criticar o que está sendo feito e sugerir novas ideias. Através dessa tese, é possível ter uma noção da atual questão cultural de Mogi. Então eu argumento sobre a preservação dentro do cemitério São Salvador, que pesquiso desde 2011 e já desenvolvi artigos para a Universidade Federal de Vitória que foram aceitos e incluídos na revista cientifica deles. A proposta é utilizar o cemitério como sendo um local turístico, e também como uma fonte de estudos pela riqueza existente nas diversas formas de arquitetura presentes no local. Diversos países já adotam essa prática, mas Mogi ainda via isso como tabu, então comecei a levar meus alunos para estudarem dentro do cemitério. Outro assunto que abordei foi a administração e a legislação municipal que protege e preserva os grandes e antigos casarões da cidade.

##SP: Pretende lançar algum livro baseado em suas pesquisas?

Tenho três: um sobre japoneses na época da guerra em Mogi, outro que detalha minha pesquisa sobre o DOPS, e um terceiro que estou desenvolvendo com amigos sobre a Festa do Divino.

Glauco

Foto: JRO Fotografia – Membros da AMHAL

##SP: Como surgiu a ideia da AMHAL?

Basicamente começou em agosto de 2015, durante um diálogo com meu amigo Luiz Miguel Baida. Disse a ele que deveríamos fazer uma academia de letras e concentrar um grupo de pessoas para homenagearmos nomes que foram bem importantes para o crescimento intelectual e criativo da cidade, de modo que essas pessoas não fossem esquecidas, e para que pudéssemos preservar o patrimônio artístico, cultural, histórico e literário de Mogi das Cruzes. É nosso intuito fazer pesquisas e publicá-las, incentivando o cidadão a se envolver cada vez mais com a riqueza cultural de Mogi. Em janeiro conversamos novamente e começamos a pensar em quem poderíamos convidar para iniciarmos a academia. Então ele falou no nome da professora Vera Lucia Meira, filha da professora Níssia Freitas, que escreveu dezenas de livros entre linguística e poesias, recebendo muitos títulos.  Começamos no dia 5 de março a criarmos um formato de academia, mas ainda não tínhamos ideia de como levantar os documentos necessários. Convidei o Ismael Mendonça para a primeira reunião. Não sabia que ele era membro de uma academia maçônica na cidade, então ele entrou como secretário devido a sua experiência na área. Posteriormente, a Academia Feminina de Santos nos auxiliou com a criação do nosso regimento e estatuto.

##SP: Quantos membros foram escolhidos para participarem da AMHAL?

No total foram disponibilizadas 40 cadeiras. Cada membro ocupa uma cadeira simbolizada por um patrono. Os patronos são pessoas que foram importantes para a cidade e que já faleceram. Até o momento decidimos apenas 30 nomes pois ainda existem pessoas em Mogi das Cruzes que estão sendo úteis e trabalhando para o desenvolvimento da cidade, então queremos, de acordo com os anos seguintes, escolher com critério quem serão os 10 novos patronos a serem homenageados e definirmos os nomes das 40 cadeiras. Até o momento existem 15 membros oficiais da AMHAL, nove na área de história, quatro na área de artes e dois na área de letras. Importante lembrar que, além dos 40 patronos que serão homenageados pela academia, existem mais dois patronos oficiais.

##SP: Quem são os patronos oficiais escolhidos pela academia?

Diferentemente dos demais, eles não possuem cadeiras com seus nomes e ainda estão vivos. Temos o professor e expedicionário Miled Cury Andere, de 95 anos, que lutou na Segunda Guerra Mundial, e na outra ponta o cartunista Maurício de Souza, de 80 anos, que tem uma história bem bonita em Mogi das Cruzes. Ele é nascido em Santa Isabel, mas viveu um bom tempo aqui.

##SP: E como foi a cerimônia de fundação da AMHAL?

Pensamos no dia 1º de setembro, dia do aniversário de Mogi. Cogitamos em fazer na Câmara Municipal. Mas, como é ano eleitoral, não podíamos fazer tal evento na Câmara. Então o Frei Antonio cedeu a Ordem Terceira do Carmo para fazermos a cerimônia no dia 1º de setembro de 2016, às 15 horas.

Foto: JRO Fotografia

Foto: JRO Fotografia

##SP: Tudo que foi criado na AMHAL foi com recursos próprios?

Sim, Tudo foi gerado por nossos próprios recursos, sem investimento algum vindo de dinheiro público. Desde a segunda reunião combinamos de que todo mês a mensalidade de manutenção é de 50 reais por acadêmico. Para podermos arrumar a sede e começarmos a cerimônia de posse, teve membro que já doou um ano de parcela.

##SP: A AMHAL pretende produzir eventos artísticos na cidade?

Estamos planejando fazer um evento musical, possivelmente em novembro. Queremos também fazer um evento maior, provavelmente em outro local, na própria festa do Divino, que é uma noite da viola, em parceria com esse grande evento regional. Além disso, temos também o interesse em darmos cursos gratuitos para cidadãos mogianos, de modo a contribuir com o crescimento intelectual e artístico da sociedade.

##SP: Como você se sente hoje, sendo tão jovem, com a grande responsabilidade de estar na presidência de uma academia com fins tão importantes como a preservação do patrimônio histórico, cultural e literário de Mogi das Cruzes?

Sinto um certo peso, mas ao mesmo tempo é bem gratificante. Somos um grupo de pessoas que se conheceu e se uniu para o mesmo objetivo, e estas pessoas confiam em mim e na proposta. Sei da responsabilidade que eu tenho, e eu uso dessa responsabilidade, mas sem me apoiar em muletas ideológicas ou partidárias e sem contar também com apoio do poder público. É uma coisa puramente social elaborada por cidadãos. Tenho a convicção que todos estão pensando no mesmo sentido. Nós temos todas as condições de mudarmos a cultura da cidade.

##SP: Para quem tiver interesse em participar da AMHAL, quando será a próxima inscrição?

As próximas inscrições para candidatos a membros deverão ser feitas de 7 a 18 de novembro. As informações estarão no edital publicado no facebook da academia, e as inscrições devem ser feitas pessoalmente junto com um(a) secretário(a) da academia, com o Ismael Mendonça ou a Marina Vecchi. São quatro vagas pra letras e duas para artes. É importante que os candidatos apresentem obras realizadas que tenham inserção no município de Mogi das Cruzas, podendo ser poesias, livros, workshops, exposições, entre outras atividades.

Foto: JRO Fotografia

Foto: JRO Fotografia

##SP: Como você vê a cultura mogiana hoje com relação a preservação de patrimônios históricos?

Maestro Gaó costumava dizer que, se São Paulo era o túmulo do samba, Mogi era túmulo da cultura, pois tudo que vinha de fora, segundo ele, o mogiano enterrava por não valorizar as obras com raízes de dentro da cidade, era um povo que tinha uma certa “marra”. Porém vejo que muitos artistas bons passaram por aqui, viveram aqui por muito tempo, morreram e foram esquecidos. Houve um artista chamado Mestre Chang, que morava em Taiaçupeba, veio para o Brasil para fugir da China comunista, ele fazia desenhos em papel, sua última obra foi leiloada por 120 milhões de dólares em Nova Iorque. É possível que existam pessoas na cidade que tenham algumas de suas obras e não têm ideia do valor que possuem. A sociedade mogiana, embora seja saudosista, passa por algumas mudanças de comportamento de acordo com algumas épocas. Hoje percebo que os jovens estão se interessando mais por atividades culturais, e isso resgata o interesse deles em relação às raízes históricas e culturais da cidade.

##SP: Como professor, qual a sua percepção sobre o comportamento dos jovens em tempos de muitas discussões políticas sociais e culturais, em relação aos seus direitos e deveres como cidadãos?

No ponto político a gente acaba muitas vezes tendo diálogos com alunos, pois eles estão bem divididos, uns buscam argumentar como oposição e outros buscam defender o atual governo. Esses jovens tentam se inserir na sociedade com as suas próprias vozes. Mas é preciso ainda amadurecimento das atitudes. Um exemplo: vi um caso de jovens que fizeram ocupação em uma escola para protestar em relação ao problema da merenda escolar. Mesmo com o alimento disponível, eles não comem a merenda. Existem diversas classes sociais na escolas, e são educados por seus pais de formas bem diferentes.

##SP: Como está a educação no Brasil?

Posso traçar uma diferença entre o ensino técnico e o ensino padrão das escolas estaduais. Vejo que a maioria dos alunos da escola técnica passa mais tempo estudando e tem maior vontade de aprender. Inclusive, é possível comparar a qualidade de ensino de uma escola técnica com a de escolas particulares. O problema maior ocorre nas escolas estaduais. Alguns alunos da rede pública vão à escola somente para conseguirem um diploma, sabem que o ensino é defasado. Ainda há um grande problema que é a baixa remuneração do professor e a falta de estrutura para melhor aproveitamento pedagógico. Mas para mim a raiz de todos os problemas da escola pública é a familiar. Não adianta fazer uma reforma se a cultura familiar não ajudar. Muitos alunos chegam na escola com fome, sem atenção do pai e da mãe, presenciam diariamente o comportamento agressivo de seus parentes, sofrem abuso e são vítimas de violência, principalmente nos que estudam em regiões mais carentes. Então, com o professor ganhando pouco e com o aluno desmotivado, a qualidade do ensino dificilmente se eleva.

##SP: Você acredita ser possível equipar as escolas estaduais da mesma forma que esquipam as escolas técnicas?

Sim, é possível, mas para isso é preciso uma grande mudança de comportamento dos alunos para que eles aprendam a zelar pelo patrimônio da escola, a ter respeito e cuidado com tudo que a escola lhe oferecer, desde materiais escolares como também equipamentos caros e bem úteis no desenvolvimento educacional, como, por exemplo, televisores nas salas de aula. Mas analisando a situação que se encontram as escolas estaduais, isso deve levar um tempo para que venham gerações que já tenham essa consciência de zelar pelos bens alheios.

Foto: JRO Fotografia

Foto: JRO Fotografia – o prefeito Marco Bertaiolli prestigiando a AMHAL no dia de sua fundação

##SP: O Brasil tem sido uma Pátria Educadora?

Isso é somente um slogan político. Ainda vejo um grande número de alunos que chegam nas faculdades e não conseguem acompanhar os professores ou seus colegas de classe, não conseguem se desenvolver e se preparar para o mercado de trabalho, pois se formam sem saber ler e escrever corretamente, sem saber como fazer contas de matemática simples. O próprio Bolsa Família era para ter sido uma solução para melhorar a qualidade de ensino básico, visando que os alunos não iriam mais para a escola com fome e tivesse maior incentivo para estudar. Infelizmente a geração que foi criada com Bolsa Família não mostrou mudanças que pudessem trazer otimismo para aqueles que querem a melhora da educação no Brasil. Foi apenas com incentivos como o PROUNI e o SISU que parcelas de brasileiros conseguiram reversar as baixas taxas de cidadãos que adentram ao ensino superior. A educação no Brasil não pode ser pensada em fatias. É preciso haver uma maior valorização da totalidade, desde o ensino básico até o superior.

Compartilhar:

Leia também

Assine a nossa newsletter