Gambero Rosso: o guia sinistro

Em tempos de polarização política no Brasil, talvez cause estranheza - e até indignação - a alguns saber que o mais importante guia de vinhos da Itália surgiu no jornal Il Manifesto, veículo de militância comunista

Postado dia 14/04/2016 às 08:30 por Edgard Reymann

vinhos

Foto: Reprodução/Internet

Em tempos de polarização política no Brasil. talvez cause estranheza – e até indignação – a alguns saber que o mais importante guia de vinhos da Itália surgiu no jornal Il Manifesto. Veículo de militância comunista, portanto da ala “sinistra” (esquerda, em italiano), deu à luz, em 1986, um suplemento de oito páginas chamado Gambero Rosso, editado por Stefano Bonilli. Desinformada que é a sociedade tupiniquim, o hábito de beber vinho não é elitista nem político. Historicamente, foi até profilático, pois era uma das pouquíssimas bebidas sãs, muito mais que a água. Na Grécia, Epicuro (341 – 270 a. C.), por exemplo, reunia os alunos em seu “jardim” (que, junto com o tríptico de Bosch, inspirou este blog) para debater e buscar soluções para uma vida mais ética, sempre com o vinho como testemunha. Como o consumo de vinho no Brasil ainda é muito baixo, bebê-lo mais pode ser o caminho para transcender a polarização, que é sempre burra.

 

Das oito páginas para virar a referência em vinhos italianos não demorou muito. Dois anos depois, Bonilli já publicava o primeiro guia, o Vini d’Italia, que, com o tempo, se expandiria para a gastronomia, meio que antecipando o conceito de slow food. O conceito epicurista de consumo de comida e bebida – mais ético que o hedonista, com certeza – é, ainda hoje, um dos parâmetros da Gambero Rosso, que hoje engloba a Città de Gusto, escola de enogastronomia, fundada em 2003. E há, também, o Top Italian Wines Road Show, que pela terceira vez aconteceu no Brasil. Contando com a presença de Marco Sabellico, editor do guia e profundo conhecedor dos vinhos italianos, o road show teve a presença de 62 vinícolas de todas as regiões do país. E, como sempre, duas espetaculares master classes comandadas por Marco Sabellico, o gentleman italiano, com os rótulos que mais se destacaram em 2015. No dia seguinte, ainda tive o privilégio de acompanhar o staff do Gambero Rosso em almoço no NB Steak, com os vinhos do road show para harmonizar. Mama mia!

As aulas divisaram a Itália vinícola em norte e sul. Do norte, aqui considerados Piemonte, Vêneto, Friulli, Lombardia, Liguria, Emilia Romagna e Alto Adige, desta vez privilegiaram-se os vinhos claros, e das 29 amostras, mais de 20 eram de espumantes e brancos. Prosecco de alta qualidade, como o Extra Dry da Tenute de Genagricola, ou o Cartizze Brut Brut da Villa Sandi, ambos do Vêneto, ou ainda os Franciacorta Cuvée Annamaria Clementi, o espumante do ano, dão uma boa ideia de como a Itália é capaz de produzir borbulhas elegantes, seja de uma uva própria, a glera (para o Prosecco), como de uvas internacionais, no caso dos Franciacorta e outros.

Mas me encantaram os brancos da uva pinot bianco da região do Vêneto/Friulli, nordeste da Itália, tamanho frescor na boca e toques florais no olfato, que fazem deles uma experiência magnânima. Um exemplo? O Friulli Grave Pinot Bianco 2014, da vinícola Le Monde. A novidade foi a entrada da Sardenha entre os destaques. Sobre a região, Sabellico, disse que “tem um terroir meio parecido com o da Toscana, especialmente no norte da ilha, em Gallura, perfeita para o branco de uva vermentino”. As vinícolas locais Surrau e Capichera fazem ótimos vinhos dessa uva. Claro que os tintos do NOrte da tália dispensam apresentação: o que dizer sobre o Langhe Nebbiolo de Angelo Gaja, do Barolo Tradizione, de Marchese di Barolo, ou do Amarone da Allegrini, que não sejam os  melhores adjetivos?

 

O Sul da Itália vem ganhando muito respeito. A região de Marche, a leste de Roma tem uns brancos maravilhosos, como o Offida da Velenosi, de uva pecorino (!), o Castelli di Jesi da Casalfarneto, de uva verdicchio e um rosé incrível da Leone de Castris. Quanto aos tintos, as uvas montepulciano (busque vinhos da Villa Medoro e da Castorani), a apaixonante nero d’avola (vinhos da Sicília, em especial), a primitivo, na Puglia, produzem vinhos fantásticos. A surpresa, para mim, no entanto, foi provar o Nicosia e o Cottanera, Etna Rosso 2012 e 2011, respectivamente. Feito de uvas nerelo mascallese, com adição de nerelo cappucio no caso do primeiro, são ambas uvas autóctones, milenares e que se dão muito bem no solo vulcânico do entorno do vulcão Etna.

 

 Esses vinhos são de limpidez, leveza e frescor que lembram os da Borgonha, só que, para mim, um pouco mais ácidos. Instigantes e exóticos, diferentes dos corpulentos tintos do Sul, são vinhos para se ter em casa e abri-lo quando quiser surpreender os amigos. De resto, o Sul também esteve representado pela Toscana. Adorei o Chianti Il Grigio da San Felice o Bolgheri Rosso dad Colle Massari, um spertoscano, com 5% de sangiovese, numa degustação de 29 vinhos, que teve o Sassicaia 2012 da Tenuta San Guido a grande estrela, já que uma garrafa dele pode ultrapassar os dois mil reais. O grande feito do Top Italian Wines Road Show é mostrar a riqueza dos vinhos italianos, a sua evolução ano a ano, e como ele pode fazer parte da sua mesa, adicionando beleza, sabor e encanto.
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Edgard Reymann

Jornalista que está atualmente dedicando suas atenções para o vinho e para a gastronomia

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