Fusão do ministério da cultura com o da educação

Impossível ficar alheio aos acontecimentos políticos atuais e mais ainda, deixar de olhá-los com preocupação

Postado dia 17/05/2016 às 08:30 por Priscila Nicoliche

cultura

Foto: Reprodução/Internet

O presidente-interino (me recuso a nomeá-lo presidente) já anunciou ações que representarão enormes retrocessos. Eu poderia me alongar falando das perdas sociais e trabalhistas que se anunciam porque a visão e o modelo políticos que serão instaurados são por si excludentes, Ponto. Entenda-se pobres, negros, gays, mulheres… Ponto.

Mas vamos falar sobre Teatro, Cultura.

Com a já anunciada fusão do Ministério da Cultura com o Ministério da Educação, que ao que tudo indica ficará sob a tutela de Mendonça Filho (DEM – PE), da turma que defende o modelo de privatizações, entre outras coisas, o que ocorrerá é um retrocesso sem dimensões. Isto é fato.

Vejamos: foi a partir da criação e da autonomia do MINC, em 1985, que entre idas e vindas foi possível pautar questões e obter conquistas e espaços até então impensáveis. A partir dele surge Ancine, Lei Rouanet, que tem problemas? Tem muitos. Mas existem.

Pontos de Cultura! O programa que desescondeu o Brasil. Que colocou no centro do palco a diversidade do nosso país. O Brasil criolo, a literatura de cordel, a capoeira, a dança, o teatro, a criação digital!

E mais uma vez falamos no protagonismo do negro, do periférico, da mulher, do caboclo, agora ameaçados.

Mas nos últimos anos já víamos o desgaste ocorrendo. Editais não pagos, outros que não saíram da promessa, recursos cada vez menores, a reforma da Lei Rouanet que não saiu do papel, o Programa Mais Cultura, cuja as caravanas pelos país me lembram o filme ‘O Sétimo Selo’ de Ingmar Bergman, onde um grupo maltrapilhos de artistas tenta fugir da peste negra e um dos personagens joga xadrez com a Morte que o acompanha na jornada, de perto.  E agora com esta fusão nefasta não será possível pautar nenhuma destas questões porque voltamos à estaca zero: teremos que começar brigando pelo direito de existir.

E isto poderá ainda ter um outro reflexo.

Nada impedirá que as cidades ou os prefeitos que serão eleitos neste ano entendam isto como uma orientação a ser seguida para enxugar a máquina pública, ou seja, em municípios onde a Secretaria de Cultura não esteja assegurada por Lei, que não tenham a existência da Pasta aprovada em seu Plano Municipal de Cultura e onde não haja Conselho Municipal de Cultura atuante, não será de se espantar que haja fusões e, as já capengas em muitas cidades, Secretarias de Cultura se juntem à Educação, ao Meio Ambiente, aos gabinetes e se transformem em uma pequena sala, com ações que servirão apenas para fotos das primeiras damas com laquê no cabelo.

Para quem acordou feliz, achando que com a abertura do processo de impeachment teremos um novo país, acertou. Teremos. Só resta saber para quem. Aliás, isto nós já sabemos. E não é para nós.

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Sobre o Autor

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Priscila Nicoliche

Priscila Nicoliche é atriz, diretora de teatro, produtora cultural por necessidade, estudiosa livre e fundadora do grupo Quântica Teatro Laboratório.

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