Figuras lendárias

Os historiadores e arqueólogos tentam, mas não conseguem comprovar a existência da maior parte dos personagens da Bíblia. Eles provavelmente são mitos, ainda que poderosos

Postado dia 06/11/2015 às 11:54 por Tiago Cordeiro

moisés

O bebê estava condenado à morte. Para salvá-lo, seus pais o colocaram em uma cesta de vime e o deixaram no rio. Acabou sendo encontrado por outra família, alimentado e educado até a idade adulta, quando se tornou um grande líder.

Você conhece esta história. Está na novela da Record, Os Dez Mandamentos, em filmes incontáveis (o mais recente sendo o interessantíssimo Êxodo – Deuses e Reis), nos discursos dos padres e pastores. O bebê é Moisés, claro. É esta a história que está na Bíblia: o homem que teria sido criado pelo faraó, apenas para descobrir suas origens na idade adulta e começar a operar uma série de façanhas em nome de Javé, até libertar uma multidão de hebreus do jugo egípcio.

Acontece que a mesma história de infância, com pouquíssimas variações, já havia sido contada em 2300 a.C. – séculos antes da compilação dos relatos que formaram os primeiros livros bíblicos. Esta é a origem lendária de Sargão, um filho ilegítimo de uma sacerdotisa que teria sido lançado ao rio, apenas para ser salvo por um funcionário da casa real chamado Akki. Sargão se tornou rei e unificou um dos primeiros impérios conhecidos da história: a Acádia, na Mesopotâmia, terra onde surgiram a escrita, a roda e toda a civilização ocidental.

Poderia ser coincidência, não fosse o fato de que a mitologia desenvolvida na Mesopotâmia incluir histórias curiosas, como a de um casal que vive em um jardim perfeito na companhia de uma serpente maliciosa, ou a de um homem santo salvando a vida no planeta durante um grande dilúvio. E estes relatos surgiram muito antes de os hebreus sequer começarem a existir como um povo.

Mais ainda: sabemos que Sargão existiu. Para Moisés, não existe a menor prova. Não é provável nem mesmo que os hebreus tenham sido escravizados pelos egípcios. Afinal, um povo inteiro, do tamanho que o texto bíblico aponta, estaria nos registros dos faraós, e não está.

É seguro pensar, portanto, que o profeta é personagem de um relato mítico, inspirado em histórias que circulavam pelo Oriente Médio fazia mais de 4 mil anos. Nada disso reduz a força do relato bíblico. O resultado final é o mesmo: no caso de Moisés, por exemplo, ele pode ter ou não existido, mas os Dez Mandamentos existem, são um fato da tradição hebraica e inspiraram boa parte da legislação, da moral e da ética das civilizações ocidentais dos últimos 15 séculos, pelo menos.

Arqueólogos e historiadores tentam, desde sempre, encontrar provas da existência dos profetas e reis do Antigo Testamento. Afinal, a Bíblia cita locais específicos, pessoas conhecidas de outros povos, datas. Deveria haver mais evidências. Mas os dados continuam impossíveis de comprovar.

A busca vai continuar, não há dúvida. Este é um caso em que a ciência não se debate contra a religião; sempre existiram pesquisadores em busca de provas para suportar, ou pelo menos questionar, os textos sagrados. Mesmo quando algum objeto ou papiro parece mais próximo de confirmar a existência de grandes personalidades, as provas insistem em se mostrar insuficientes. E este é um dos muitos motivos pelos quais o relato bíblico mexe até mesmo com os ateus: a mitologia é tão forte que se tornou real, mesmo que nunca tenha acontecido da forma que os relatos apontam.

 

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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