Eutanásia – amor ou obsessão?

A decisão pela eutanásia é muito dolorosa, afinal, quem decide pela vida do bicho, normalmente é quem mais quer vê-lo saudável e feliz, mas nem todo caso é igual

Postado dia 17/11/2015 às 11:21 por Lisandro Frederico

Quando eu tinha 13 anos, dois novos membros ganharam a simpatia da empresa de confecção onde eu trabalhava. Faruk e Bruce chegaram com toda energia e alegria que um cão da raça labrador tem no DNA. Eles ainda eram filhotes quando percebemos que entre os pulos e brincadeiras, haviam problemas de coordenação motora. No veterinário, ouvi pela primeira vez o termo “cinomose”, nome dado à virose que acomete cães e ataca o sistema nervoso, com altos índices de mortalidade. A alegria acabou! Meu irmão, que na época trabalhava na mesma empresa, se desdobrava entre a rotina de trabalho e a série os cuidados especiais que os irmãos caninos exigiam para tentar sobreviver.

A doença avançou, Bruce e Faruck já estavam em estado vegetativo. Comiam e bebiam só por indução e não conseguiam levantar para as necessidades diárias. Lembro do Faruk mexendo apenas o globo ocular, enquanto o seu corpo estava estático. Seus olhos vibravam a vontade de sobreviver, enquanto seu irmão, Bruce, vinha a óbito em virtude da doença.

Faruk foi trazido para minha casa, continuava a ser cuidado pelo meu irmão. As visitas ao veterinário eram constantes, assim como a frustração do meu irmão, por ser induzido a eutanasiar o cachorro.

Segundo os veterinários, não haviam chances de sobrevivência. Até hoje essa doença tem alta mortalidade, embora o surgimento de novos tratamentos tenham aumentado as chances de sobrevivência. Naquela época, sequer existiam alternativas para tratamento.

Meu irmão insistiu, até que encontrou um veterinário que compartilhou do desejo de curar Faruk, ou pelo menos, aguardar que sua morte ocorresse naturalmente.

Os dias se passavam e a situação piorava. A doença avançava e Faruk perdeu toda sua massa muscular, perdia a pelagem enquanto sua pele se enchia de ulceras devido e imobilidade.

A morte de Faruck era questão de tempo, bastava que o coração parasse de bater, o que – milagrosamente – não aconteceu. Depois de quatro meses, com fisioterapias caseiras e uma incansável luta pelo tratamento, Faruck voltava aos poucos a movimentar suas patas, sua coluna, seu pescoço. Ele levantou. Tudo começava a funcionar. Ficaram algumas sequelas, como sua patinha que pulsava enquanto dormia e seu sistema cardiovascular fadigava com poucos exercícios.

Nada disso foi impedimento para ele viver – intensamente. Ele me viu crescer da adolescência até a fase adulta. Foram inúmeras as lembranças daquele cachorro que eu invejava, afinal, enquanto eu insistia em aprender a nadar, ele não podia ver uma piscina que logo disparava para um grande mergulho. Era um cachorro-peixe! Nadou em lagos, piscinas e até na praia. Gostava tanto de água, que quando passeava pela rua era preciso cuidado para que ele não se jogasse nas poças que se formavam após a chuva. Era um bom companheiro e muito divertido!

A eutanásia do Faruck quase antecipou nossa despedida, quase impediu que ele sentisse a brisa e a adrenalina dos seus constantes mergulhos. Após doze anos da sua recuperação, Faruk enfrentaria um novo desafio, dessa vez, um câncer levou o cão idoso para a mesa cirúrgica. Durante meses, novos tumores surgiam e sua saúde se debilitava cada dia mais. Faruk tinha dificuldades de dar um passeio pelo quarteirão, o que sempre gostou de fazer. Foi quando por orientação do mesmo veterinário que o salvara anos atrás, meu irmão recebeu uma recomendação: “Ofereça tudo que seu cão mais gosta, aproveite todo tempo que resta ao lado dele. Em pouco tempo a eutanásia deixará de ser uma opção e passa a ser uma solução” recomendou Luiz, o veterinário.

O cãozinho se despediu alguns dias depois. Na sala de eutanásia as lágrimas da família misturavam a dor da despedida, com o alívio do sofrimento de Faruk.

Doze anos foi o período de vida do  Faruk. Um intervalo que fez a eutanásia ser observada em duas óticas distintas. Ainda hoje a pratica continua sendo uma indagação insolúvel, um misto de moralidade e fé. Uma questão que para muita gente é tida como egoísmo, mas não se sabe se é egoísmo por impedir a chance de sobreviver, ou por não cessar um sofrimento.

De acordo com uma resolução brasileira, a eutanásia em animais é legalizada em algumas situações, mas felizmente, até profissionais veterinários entram em controvérsia e não acatam algumas imposições resolução, como a autorização da eutanásia para quando o proprietário “não tem condições de custear um tratamento veterinário”. Muitos veterinários se recusam a levar o animal à óbito, dando-lhes a mesma chance que teve o Faruk.

A decisão pela eutanásia é muito dolorosa, afinal, quem decide pela vida do bicho, normalmente é quem mais quer vê-lo saudável e feliz, mas nem todo caso é igual. É preciso ter cautela, compreensão e clareza para se tomar a decisão e para isso, eu quero recomendar alguns aprendizados:

  • Sempre considere o diagnóstico do veterinário da sua confiança e não deixe de procurar outras opiniões, quando se sentir inseguro.
  • Esclareça se as chances de vida do animal são mínimas ou inexistentes.
  • Elimine suas dúvidas. Questione o veterinário e esclareça qual a expectativa de evolução da doença, a possibilidade de sequelas, deficiências, etc.
  • O animal terá qualidade de vida? Lembre-se que essa é uma analise subjetiva, portanto, depende muito do que você considera como qualidade, o que você tem para oferecer a ele.
  • Tenha cuidado para não transformar seu amor por obsessão. É a obsessão que leva o dono, sem perceber, a manter o animal vivo mesmo que custe a dor e sofrimento ao animal.

A decisão não será fácil pra ninguém. Tenha tranquilidade. Não se amargure e procure pensar com carinho naquele que te ofereceu tantos momentos felizes. Nós, seres humanos ainda somos incapazes de lidar com esses bichos que são dotados de tanto carinho. Vamos apenas guardar boas lembranças do tempo de vida que essas criaturinhas passaram ao nosso lado, nos enchendo de felicidade, aprendizado e amor!

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Sobre o Autor

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Lisandro Frederico

É formado em Marketing, é atual vereador da cidade de Suzano e atualmente preside o Projeto Adote Suzano, ONG que atua na proteção dos animais

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