Estamos todos no mesmo naufrágio

Salve-se quem puder... O Brasil está afundando!

Postado dia 04/10/2015 às 18:19 por Janaína Leite

Titanic_sinking

Aceite, dói menos: eles não nos salvarão. Estão ocupados demais tentando evitar que a água invada seus pulmões e afunde todos de vez. Gastam seu tempo debatendo-se como epiléticos e, nas horas vagas, empenham-se em dar caldos uns nos outros. Eles são governo ou oposição, tanto faz. Eles não têm olhos para nada além do próprio umbigo acatingado.

Nós? Servimos apenas para lhes fornecer o barco e as insígnias. Não temos boia, não temos ideia para onde aponta a bússola, não enxergamos areia alguma. Mal e mal sabemos nadar. É com a força dos próprios braços e o controle da respiração que contamos. Aceite. Entenda. O Brasil está se afogando. O Brasil é feito por nós, uma imensa e intrincada rede de pessoas que precisa se esforçar muito para sair da enrascada em que se meteu ao preferir mentiras adocicadas às verdades exigentes.

Não se trata mais de culpar a facção “a” ou “b” por ter votado em fulano ou beltrano. Isso é inútil, tão inútil quanto é a máxima “eles faziam o mesmo”, tão inútil quanto o confronto de ideologias emboloradas que só explicavam o mundo à época da Cortina de Ferro.

Precisamos de um plano de ação econômica consistente baseado em cinco pilares. O primeiro diz respeito a eleição imediata de prioridades em áreas essenciais (Educação, Saúde, Habitação, Saneamento e principalmente a Previdência Social). O segundo é relativo a um corte significativo das despesas do governo, bem como a criação de mecanismos que limitem o aumento futuro desses gastos. O terceiro é o aumento da receita via redirecionamento de impostos e a criação de novas contribuições. O quarto trata de desburocratizar e simplificar o investimento, além de reforçar a fiscalização. O quinto pilar é a proteção radical do meio ambiente, a nossa grande riqueza remanescente. Tudo isso amarrado com metas de curtíssimo, médio e longo prazo.

A equipe econômica atual não tem condições de cumprir uma tarefa de tal envergadura. Que caia.

É preciso colocar por terra o mito de que investe-se pouco no Brasil — o verdadeiro problema é que o investimento é mal feito. Programas novos sobrepõem-se aos antigos apenas para atender às necessidades eleitoreiras de alguns. Aparecem com desenhos cada vez mais rebuscados, até que se tornam absolutamente ininteligíveis, labirintos por onde o dinheiro público escoa sem que os ganhos pretendidos sejam consolidados.

Nos piores casos, o planejamento não passa de populismo arreganhado e as peças de marketing terminam desmontadas às pressas sem consideração por quem está na ponta. Obras param pela metade e linhas de crédito abertas sem critério são fechadas logo após a eleição. O que era panaceia em um ano é simplesmente arquivado sem explicação no ano seguinte. Que o diga, por exemplo, o “Minha Casa Melhor”.

Você pode espernear e dizer que gente como eu é má e egoísta, quer tirar os benefícios dos pobrezinhos que finalmente conseguiram, ao longo dos últimos anos, comprar uma TV tela plana 42 polegadas para ver o Rodrigo Faro distribuindo dentaduras aos domingos. Pode dizer que faço parte do esquadrão de defesa dos empresários malévolos e não quero um Estado forte porque isso significa distribuição de renda — e eu, ora bolas, represento a elite. Ou afirmar que os ricos reclamam porque não gostam de pagar impostos e carregar o piano. Se for desses ousados, pode até sustentar que esse discurso politicamente correto sobre o meio ambiente esconde uma defesa de interesses escusos e internacionais, cujo objetivo é impedir a sociedade de explorar suas riquezas, mantendo-a, assim, atada à corrente histórica do imperialismo.

Você pode, amigo. Mas não deveria. Como eu disse lá para cima, o barco afunda ao som de violinos desafinados. Não há tempo para brincar de anjos versus demônios. Devemos nos concentrar em soluções que nos levem em segurança até a outra margem.

Precisamos de gente que desenvolva um programa econômico em seus detalhes e que tal planejamento seja apresentado ao público de forma clara, contundente e eficaz. Um plano objetivo, que agrupe em torno de si as cabeças pensantes remanescentes na academia, na comunicação, nas artes. Um projeto bom o suficiente para ser compreendido pelos mercados, para mobilizar as vozes fortes daqui e de fora, e para emparedar os políticos que não se preocupam com nada além de si, enxergam-se como reis do mundo.

Na linha do que defendo está a economista Monica De Bolle. Na semana passada ela mostrou que cabe aos especialistas a apresentação de alternativas para o enrosco no qual estamos metidos, ao defender a volta à estaca zero do Plano Real e a retomada temporária das bandas cambiais.

A princípio não concordo com a hipótese (o Brasil é useiro e vezeiro em esticar o que é temporário, a manipulação cambial encobriria problemas estruturais, acabaríamos torrando as reservas sem obter resultado). Entretanto, a fala da economista é coberta de mérito, pois trouxe ao palco a discussão sobre a trajetória da dívida, evidenciou o quão complicada é nossa situação fiscal e embananou os autoproclamados “desenvolvimentistas”. Obrigou ainda a manifestação de Henrique Meirelles, presidente do BC no governo Lula e apontado como possível substituto do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Precisamos, urgentemente, de mais Monicas.

Enquanto não conseguirmos nos mobilizar em torno de uma alternativa bem montada, somos presas fáceis para os tubarões. Se não forçarmos nossa entrada no bote de resgate, ele zarpará carregando meia dúzia. Nós pagaremos o preço dos corpos abandonados em alto-mar. Serão anos e anos à deriva.

O governo mostrou de inúmeras formas ser inepto para a tarefa de estruturar tal plano. Elegeu-se a partir de mentiras e mantém-se por meio do fisiologismo descarado. Nomeou uma equipe que, com o passar dos dias, revelou uma face mumificada e subserviente. Agora segura-se por meio de um “ministério Sucupira”, que em tudo lembra os auxiliares da personagem Odoriço Paraguaçu.

O partido que segura a base é o PMDB, esse imenso balcão de negócios. Como confiar? O presidente do Senado, Renan Calheiros, hoje apóia Dilma. Amanhã, ocupados todos os espaços pelo peemedebistas, pode ser a mão que a empurrará. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, enrola-se em suas próprias mentiras — mesmo assim é um galo anabolizado pronto a meter as esporas no rosto do governo que o criou. Michel Temer vive às costuras com banqueiros, empresários, oposição, governistas e quem mais puder lhe conceder apoio daqui a pouco, quando Dilma se for.

A oposição, por sua vez, divide-se entre medrosos e omissos, irresponsáveis e cooptados. Vende-se por nacos de apoio do PMDB, igual ao governo, sem saber para que lado os peemedebistas irão. Lê-se por aí que os dois principais candidatos que enfrentaram Dilma Rousseff (o tucano Aécio Neves e Marina Silva, da Rede) sentem-se “aliviados” por não ganhar. Não é uma beleza? Justo o tipo de líder que o país precisa, esses que ficam “aliviados” por estarem com as mãos atadas em um momento de crise.

Há exceções, claro, mas agora é o momento para tratar da regra. Como o próprio nome diz, são exceções. Quem manda e está nos encaminhando para o redemoinho não são elas.

É preciso que você entenda o que a multidão, cabeça quente, pouco raciocínio, é incapaz: a corrupção é, sim, um problema terrível, que precisa ser enfrentado o quanto antes, do jeito mais direto, incisivo e fustigante possível. Todavia, o que vivemos agora extrapola tal distorção. Nosso cenário resulta de combinar corrupção a outros dois fatores: incompetência extrema e cegueira diante da realidade. Para obter resultados imediatos devemos atacar os dois últimos com a mesma força usada para rechaçar o primeiro.

Em outras palavras, colocar sicrano na cadeia sem prestar atenção ao que permitiu que ele se tornasse um mercador da noite não irá nos garantir nada além de vingança. Temporariamente é bom, mas e depois? E o restante? Que a Justiça faça seu trabalho da melhor e mais completa forma. E que nós tenhamos noção do todo: primeiro as coisas primeiras.

Por isso acredito que a reprovação das contas do governo pelo Tribunal de Contas da União e pelo plenário da Câmara é indispensável para o nosso amadurecimento como sociedade. Se não acontecer, teremos perdido uma boa chance de entender que governante que descumpre propositalmente a lei para maquiar as contas e usar o dinheiro de modo eleitoreiro precisa ser responsabilizado por sua conduta. Governante que desmonta uma estrutura econômica bem sucedida, montada a duras penas, deve lidar com as consequências.

De modo que repito o que disse acima: que caia a atual equipe econômica. E acrescento: se for preciso, que caia todo este governo e o quanto antes. Ele deu mostras suficientes de sua incompetência.

Estamos inequivocamente sós, amigo. Controle sua respiração.

Precisamos nadar até terra firme.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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