Escolas ocupadas, estudantes desocupados

Enquanto alguns alunos entram para a história para viverem a utopia revolucionária, muitos outros perdem a chance de entrar em uma faculdade

Postado dia 16/11/2016 às 09:00 por Wilson ADM

Foto: Reprodução/Internet

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Uma vez Nelson Rodrigues deu um conselho aos jovens: sugeriu que eles envelhecessem. Tempos atrás, os estudantes brasileiros estavam mais indiferentes em relação à política nacional e sobre o exercício da cidadania. Desde que se extinguiu o movimento dos caras pintadas, a maioria dos protestos realizados foi por parte de sindicatos e estudantes universitários. Em junho de 2013, durante os grandes protestos iniciados exigindo o passe livre, falava-se que o Brasil, um gigante adormecido, finalmente havia acordado.

Difícil ter a certeza de que o Brasil acordou ou se está tendo uma crise de sonambulismo. É importante que os jovens secundaristas e universitários tenham participação política. Mas também é crucial que busquem informações para que tenham consciência das consequências dos seus atos, pois uma ocupação escolar motivada por pais dos alunos, partidos políticos, diretores e professores pode ser um grande tiro no pé. E em vez de progredir, a educação pode retroceder.

Os jovens que ocupam as escolas protestam contra a PEC 55 que congela gastos públicos (Antiga PEC 241) e pela reforma da educação. Nas escolas ocupadas, as atividades desenvolvidas são extracurriculares, mais voltadas ao lazer, como dança e parkour (modalidade esportiva baseada em saltos arriscados e estilosos). Enquanto isso, um pequeno grupo de adolescentes fica preso em uma escola, longe da visão de seus pais, provavelmente sendo doutrinados por ideias revolucionárias que os motivam e fazem com que eles acreditem  que esses movimentos ocupacionais irão mudar o Brasil para a melhor.

De fato, essas ocupações irão realmente entrar para a história e novamente irão martirizar os estudantes, como foi feito durante o período da ditadura militar na década de 60 e 70.

Na década de 60, os militares assumiram o comando e a censura foi instalada com sucesso. Pensadores e artistas foram varridos do Brasil, jornalistas e estudantes acabaram mortos e torturados enquanto jornais eram fechados e dominados pelo regime militar. Atualmente, o país vive sérias mudanças devido à troca da gestão presidencial pós-impeachment, mas isso não se compara com o que aconteceu em 1964.

Não há censura. Pelo contrário, os direitos democráticos não foram extintos e há um fluxo de informações massivo que circula livremente, 24 horas por dia. Qualquer cidadão pode aventurar-se no jornalismo com um simples smartphone, fazendo vídeos e tirando fotos, criando um blog ou um canal no youtube, e assim, participar diretamente da era democrática da comunicação, onde há total liberdade de expressão.

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Foto: Uma sala de aula após a ocupação dos estudantes secundaristas

Há uma grande incoerência nas ocupações. Primeiramente, todo o planejamento criado pelos jovens para mudarem a educação ficam restritos dentro das escolas ocupadas. Acaba acontecendo quase que uma espécie de sarau filosófico da resistência mimada. Assim, todas as atividades exercidas, sendo ou não úteis, tornam-se exclusivas somente aos alunos que optaram em fazer parte desse movimento.

Os estudantes que abdicaram de tomar posse das escolas são prejudicados diretamente, pois ficam sem aulas enquanto poucos alunos gozam da liberdade de ter uma escola 24 horas disponível, e que não é nem 10% utilizada com se deve. Centenas de milhares de alunos foram prejudicados no ENEM e tiveram a oportunidade de ingressarem em uma universidade adiada, enquanto que jovens com os egos inflados de heroísmo e patriotismo acreditam que lutam por uma educação melhor paralisando as escolas e violando o direito de estudantes e professores. É outro grande absurdo ocupar espaços públicos e negar o acesso às escolas por meio de uma simples assembleia que mostra ter mais poder do que leis constitucionais.

Os jovens que estão ocupando as escolas também são contra o projeto “Escola sem Partido”. A estudante secundarista Ana Julia, que no mês passado falou no plenário em nome de todos os estudantes, não foi nada original quando disse que uma escola sem partido torna-se racista, machista e homofóbica. Por outro lado, uma escola com partido acaba deixando a educação de lado para usar jovens e fazer militância política.

Está claro que essas ocupações são uma resposta contra o atual governo de Temer, pois durante os anos que o Brasil foi apelidado descaradamente de “Pátria Educadora” nada foi feito pelos estudantes em benefícios das diversas instituições que possuem uma péssima qualidade de ensino.

Enquanto as escolas continuarem ocupadas, os jovens continuaram manipulados e batendo sempre na mesma tecla, dizendo que lutam por uma pátria que não seja racista, fascista, golpista, homofóbica e machista. A verdade que explode na cara da sociedade é que isso não é mérito de militância nenhuma, isso é conquista de todo o Brasil, e de outros países também, que, cada vez mais informados, optaram por evoluir e aprenderem a conviver com as diferenças de forma pacífica.

A luta dos estudantes seria mais bonita se não fosse tão trágica, pois isso desestrutura todo o país na tentativa de padronizar o pensamento da juventude para essa e outras gerações, como se privar os colegas de assistirem aulas e buscarem um futuro melhor fosse o melhor caminho para conquistar o direito de viver uma utopia infantil e ingênua. É uma grande incoerência. A garotada tem a capacidade de formar opinião, mas não quando é desesperadamente alimentada com apenas um lado da história e usada covardemente como massa de manobra.

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