Entre a vaca e o feto

A proibição da prática da vaquejada chama atenção para uma contradição: a decisão vem do mesmo país que encerra num direito garantido o aborto

Postado dia 28/10/2016 às 09:58 por Pedro Henrique

vaca

Foto: Reprodução

Chesterton disse, certa vez, que na modernidade teríamos de provar que a grama é verde e que a água é molhada. Está acontecendo, meus caros. A cada dia que passa, o banal ganha ares de normalidade e o absurdo torna-se o arroz com feijão. Pois bem, ainda que seja um movimento natural e teológico — ou melhor dizendo, escatológico — da loucura do mundo, a perversão do que é correto em busca de uma ortodoxia do acaso desconexo, a procura por uma baderna dos princípios — ou da ausência deles[1] —, não posso suportar certas inversões de valores. Aliás, não posso, não devo e não irei.

Há alguns dias, acompanhamos a decisão do Supremo de proibir a prática da vaquejada em todo território nacional, o que penso ser uma decisão acertada: não acho justo torturar um animal pelo prazer insano de uma diversão. Mas, ao mesmo tempo, não acho que o prazer insano de uma diversão desmedida justifique um aborto, por exemplo. No primeiro caso, a esquerda lutou com garra para a criminalização, na segunda ela luta com garra para a descriminalização. O que me leva a questionar se, para a esquerda brasileira, a vida humana não vale menos que a de uma vaca.

Tratando do aborto de maneira geral, em que o suposto direito da mulher dá-lhe o direito de abortar em qualquer situação que lhe aprouver, vemos verdadeiras contradições de termos e prioridades em suas lutas. Percebemos, neste distinto momento de nosso país, que a esquerda erigiu certas prioridades frente a outras.

Quando num texto o autor acaba tendo que comparar a importância da vida de uma vaca frente a de um feto humano, e não venha me falar que não é humano ainda – nunca vi o coito entre humanos gerar cavalo marinho, então o feto é indissoluvelmente ser humano, quer queira quer não queira sua filosofia idiota. Temo que estejamos com algum problema em reconhecer a dignidade humana em comparação à de uma vida animal

Poderão dizer que o fruto dessa comparação entre a vida de uma vaca e de um feto humano é minha, e não de nenhuma ONG ou partido. É bem verdade enquanto argumentação direta, até porque, creio eu, não é nada inteligente comprar as duas dignidades. Mas tal comparação se faz possível e plausível quando olhamos panoramicamente as ideias e princípios defendidos pela a esquerda “oba oba”; quando percebemos que há lutas intensas contra vaquejadas, ao passo que há lutas intensas para a legalização do aborto, creio estarmos autorizados a pensar em quais firmamentos estão alicerçados nossas convicções. Pensemos em quantas investidas tivemos pró-aborto na última década, pensemos em quantas políticas rodeiam nossos congressos tentando encerrar, numa política pública, a morte de fetos como direitos das mães.

Hoje não entrarei no mérito do aborto, o que devo fazer em breve em outro artigo. O que quero destacar é a clara realidade no qual vivemos, um país que acha um absurdo a vaquejada ao mesmo tempo que encerra num direito garantido o aborto. Devemos nos questionar sobre a sanidade de um país quando salvamos bois e matamos bebês!

[1] Para entender meu pensamento neste assunto, leia: https://medium.com/do-contra/os-pilares-da-sociedade-e-os-ide%C3%B3logos-361316e4847e#.6ohm4y8y4
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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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