A energia também vem do lixo

As poucas chuvas, falta de planejamento e ausência de investimentos em geração e transmissão de energia acarretaram ao longo do ano de 2001 na famosa (denominada pela mídia) "crise do apagão"

Postado dia 02/05/2016 às 08:30 por Pedro Muniz

energia

Foto: Reprodução/Internet


Após 10 anos de investimentos impudicos do governo FHC, fomos então presenteados com o cenário de adversidade conhecido pela maioria. Este deslize, que deveria ter sido (somado a tantos outros) um sinal de alerta, pouco incentivou agências reguladoras e grupos de investidores a buscarem alternativas para a geração de energia, principalmente através de outras tecnologias, além da desgastada e mal gerenciada energia hidrelétrica brasileira.

Diversas são as possibilidades hoje. Usinas hidrelétricas, energia solar, termoelétricas, energia eólica, energia maremotriz (proveniente da movimentação das marés), energia nuclear, entre outras. Um grande nicho a ser explorado, por já nos ter mostrado um imenso potencial no Brasil é a energia de biomassa, ou seja, a partir da decomposição de materiais orgânicos (esterco, restos de alimentos, resíduos agrícolas, resíduo domiciliar e afins).

Segundo estudo feito pela Abiogás (Associação Brasileira de Biogás e Biometano), o Brasil tem potencial de produzir 37 milhões de megawatts de energia por meio do biometano, um gás que pode ser obtido atráves do aproveitamento, principalmente do biogás gerado em aterros sanitários. Esse valor equivale a um terço do total gerado na possante usina de Itaipu. Além das vantagens competitivas de geração, a energia de biomassa é renovável, auxiliando na diminuição da emissão de CO² na atmosfera. Somada a essa importante contribuição ambiental, a utilização do lixo na sua produção, pode-se auxiliar na diminuição da quantidade de dejetos nos aterros.

Em países desenvolvidos, diversas são as utilizações e os estudos para aplicação desta energia limpa. Além de fonte para produção de energia elétrica através de geradores, pode também ser usado como combustível veicular exatamente da mesma forma como o GNV. Algumas das grandes montadoras e fabricantes de motores não só realizaram testes, como já possuem frotas circulando tendo o biogás enriquecido como combustível. A própria Usina de Itaipu introduziu um ônibus para circular internamente e 40 automóveis, todos abastecidos com biogás. Testes estes bem sucedidos, os quais nos mostram que as alternativas existem e apenas aguardam interesse e investimentos.

Infelizmente o modelo de energia por biometano/biogás é descentralizado e não possui normas regulamentadoras convencionais. Assim, este se torna um dos primeiros entraves da evolução desta pauta. Aparentemente seria um negócio de pequenos/médios investidores, pois seriam necessários biodigestores e/ou usinas de biogás, próximos aos locais onde estão os resíduos, seja em uma área agrícola ou um aterro sanitário. Por não ter o mesmo apelo aparente de geração, como as hidrelétricas, acaba ficando fora das discussões do governo.

Em uma simples busca na internet, cases de sucesso são encontrados aos montes, em periódicos e notícias internacionais. Segundo recentes publicações da ABRACEEL (associação brasileira dos comercializadores de energia) e da ABEGÁS (associção brasileira das empresas distribuidoras de gás canalizado) está previsto para o próximo semestre a inauguraçao de uma nova térmica em construção, a Termoverde Caieiras, em São Paulo, com capacidade para produzir 30 MW, alimentada pela geração do biogás de um dos maiores e mais bem operados aterros sanitários do país. Esta usina poderá alimentar um município de 580 mil habitantes.

Assistindo a investimentos desta magnitude, em meio as dificuldades e barreiras existentes no setor, nota-se que as portas estão se abrindo e a sinergia entre progresso e respeito ao meio ambiente vão aparentemente estreitando os laços. Esperamos assistir a mais frutos, pois sabemos que o lixo deixou de ser o ponto final da cadeia produtiva ha muito tempo.

 

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Sobre o Autor

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Pedro Muniz

Engenheiro Ambiental formada pela UNESP, pós graduado em Gestão de Projetos, especializado em gestão e gerenciamento de resíduos sólidos.

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