Empire TV Tycoon e você, tudo a ver

A guerra pela audiência ao alcance do mouse

Postado dia 19/02/2016 às 03:00 por Guillermo Gumucio

emp cap

Cortesia da produtora Dreamsite Games, da Espanha, encabeçada por Javier de Miguel, Empire TV Tycoon coloca o jogador nas botas de um chefe de emissora de televisão. Entre as suas funções, você terá que se virar para contratar uma boa equipe com produtora, roteirista, analista de audiência e assessor de relações públicas e ser principalmente o diretor de programação. Sua rotina envolverá comprar, vender e produzir programas, fazer os melhores arranjos publicitários e deixar o seu público-espectador cada vez mais sintonizado no seu canal.

A visão de corte horizontal remete instantaneamente ao clássico Sim Tower (Maxis, 1994), espécie de spin-off da franquia Sim City criada por Will Wright, no qual o desafio era administrar e fazer crescer uma grande torre comercial. Os recursos são bem distribuídos na tela de Empire TV Tycoon e pouco a pouco o jogador aprende a localizar rapidamente as informações necessárias sem precisar abrir outra dúzia de janelas, como costuma ocorrer em diversos outros games semelhantes. Agora, uma tela à qual você se prenderá é a da grade programática do seu canal de televisão. Ali são tomadas muitas das decisões que têm impacto direto no seu sucesso ou fracasso e não é nada raro trocar uma atração um segundo antes de ela ir ao ar ou tirar um anunciante no último instante para aproveitar a cota em um momento mais propício, com uma audiência mais favorável. E, sem dúvida, um dos atrativos mais recompensadores do jogo é realmente construir a grade de programação. Com a experiência provinda de algumas horas de jogo e um olhar atento, você ficará craque na conquista da audiência.

O jogo começa com algumas produções prontas, entre filmes, séries e programas de auditório de vários gêneros, para que você transmita aos seus espectadores. Uma lógica simples, porém bastante inteligente de ser aplicada ao jogo, é que você não pode recorrer ao mesmo às na manga com tanta frequência: um ótimo filme não cativará a mesma audiência se reprisado centenas de vezes em um curto período de tempo. Não só isso, mas o ano de produção também é importante, já que o público costuma perder o interesse em obras menos recentes. Você pode comprar programas e vender aqueles que julgar que não são mais tão úteis na videoteca do subsolo. Ou pode sair do prédio pela direita e ter uma conversinha com um comerciante informal com ofertas irresistíveis, filmes novos a preços extremamente atraentes. O risco de transmitir uma produção pirata é todo seu, claro. Se for malsucedido, poderá ir preso e pagar multa, mas se conseguir escapar ileso, será recompensado pela audiência e uma conquista do Steam na primeira vez em que isso ocorrer.

empire

Construindo um império, um andar por vez.

Só que chega a hora em que o seu canal precisa produzir as suas próprias atrações para ter um lugar de destaque na preferência do público. E como na vida real, toda e qualquer produção começa pelo mesmo lugar: o roteiro. E assim que você ficar satisfeito com o trabalho do roteirista contratado, poderá tirar a carteira do bolso para contratar um protagonista e um ator coadjuvante e também escolher quais aspectos serão priorizados na realização do filme. Um dos pequenos prazeres de Empire TV Tycoon está nos argumentos apresentados pelos roteiristas. O repertório de histórias é deliciosamente tresloucado e, quanto pior a habilidade do roteirista no gênero fílmico escolhido, mais sem pé nem cabeça será o argumento. A avaliação do texto pode ir de “lixo” a “obra-prima”.

empire

Syd Field, trema: um professor judeu, um antagonista hacker e uma grande conspiração musical em que só um homem pode sair com vida.

O jogo conta com uma miríade de referências que fazem o deleite do fã de cinema e televisão. São constantes as sátiras e os jogos de palavras com títulos, atores e personagens. Entre os colaboradores fixos que sempre ficam à sua disposição no prédio estão figuras como Walter White (o protagonista de Breaking Bad), a quem você deve recorrer para comprar filmes, programas e demais atrações, com direito a um balão com a emblemática frase “I am the one who knocks” interpretada originalmente por Bryan Craston. Quando o assunto são as cotas e campanhas publicitárias, ninguém mais ninguém menos que um Don Draper (da premiada série Mad Men) estará à sua espera, devidamente acomodado na sua poltrona. Degustando seu indefectível cigarro, explica que “as pessoas já fumavam muito antes de Freud ter nascido”.

Por isso, o jogador menos incauto também se divertirá com a criatividade da Dreamsite Games na hora de escalar o elenco da sua produção exclusiva. Dependendo do porte da sua empresa midiática e da competência da sua produtora, você poderá escolher entre Niklas The Cage, Brice McLane, Tim Gump, Sister Whoopi, G.I. Moore, Johnny Scissorhands, Jack Cuckoo e, talvez o mais infame de todos, Indiana Solo, uma concatenação de dois dos mais marcantes protagonistas personificados por Harrison Ford. À primeira vista, pode parecer que se trata de prática comum no setor para se esquivar de questões jurídicas com as quais nenhum desenvolvedor indie gostaria de se ver envolvido, mas isso não explicaria a presença de atrações (produtos, na melhor linguagem do empresariado) como Toy Story, Réquiem para um Sonho, Modern Family ou O Iluminado, nem mesmo as citações que marcam o início de cada dia de trabalho.

empire TV

Profundo.

E se engana quem fizer qualquer analogia entre o visual clássico do game em pixel art e a morte da televisão como a conhecemos por tantas décadas. Em um dos estágios de aprimoramento dos recursos e das instalações, todos oferecidos pelo pirado Doc Brown de De Volta para o Futuro, há a opção de transmitir o conteúdo também por vídeo sob demanda, uma novidade que praticamente dobra o seu público espectador. As melhorias são o caminho para uma das maiores recompensas que o jogo proporciona: ter uma produção da sua emissora premiada no maior evento do cinema independente, o Festival de “Sundancer”, ou uma série em dez capítulos com o seu nome nos créditos nas “Bolas de Ouro”, o equivalente ao Golden Globe Awards. O grande barato dos simuladores é que, por mais infantil que seja seu visual, eles são muito fieis quanto à relevância do vil metal. Se o cachorrinho do seu astro morrer e você não lhe comprar outro, se os mafiosos certos não tiverem as mãos molhadas, se você não deixar aquelas fotos indecorosas da sua musa vazarem… bom, aí pode ser que o seu filme seja um sucesso de crítica e público.

Olha o Jack Nicholson ali na primeira fila!

Olha o Jack Nicholson ali na primeira fila!

O jornalismo televisivo não poderia ficar de fora do escopo. Quase todos os dias, uma repórter lhe esperará no início do dia no lobby com uma pauta sobre algum acontecimento relevante no dia. Você poderá escolher entre três repórteres, cada uma com o seu próprio preço e perfil, para fazer a cobertura ao vivo de acordo com o enfoque jornalístico que você, o manda-chuva da emissora, escolher. É um investimento para que você possa usar esse material no horário-nobre.

Talvez a chave para o sucesso em Empire TV Tycoon seja aprender quais tipos de públicos apreciam quais conteúdos e tentar saber quais deles estarão devidamente sentados no sofá e ligados na telinha em quais horários. Munido dessas informações, basta selar acordos publicitários com inteligência e transmiti-los nas faixas adequadas para atingir o público consumidor desejado pelo anunciante (o “target”). É verdadeiramente frustrante ver smileys vermelhos e alguns “ZzZzZz” no canto inferior direito da tela por ter tomado alguma decisão pouco fundamentada ou simplesmente errônea. É o modo que o game usa para demonstrar que você poderia ter feito melhor, que deixou o seu Mario ser abocanhado pela planta carnívora saindo do cano verde.

Como a maioria dos jogos independentes, Empire TV Tycoon apresenta alguns pequenos problemas que não chegam a comprometer a sua fruição como um todo, como um ou outro erro de ortografia no texto e um bug que faz com que seja necessário clicar e confirmar várias vezes para escalar um ator ou atriz no elenco, principalmente nos estágios iniciais. Talvez o problema de design mais notório não seja verdadeiramente um problema, mas uma dificuldade imposta propositadamente pelo desenvolvedor para aumentar a dificuldade. Como a corrida contra o tempo é uma constante para tentar ser bem-sucedido no jogo, o fato de não ser possível subir mais de dois andares de elevador de uma única vez não é só irritante, mas um empecilho considerável quando cada segundo é precioso para chegar até o oitavo andar e comprar a campanha publicitária ideal para faturar antes de a atração acabar. Talvez isso também explique porque há tantos andares que se parecem a andares funcionais que você efetivamente usa para algum recurso, mas, na verdade, são apenas decorativos e acabam por confundir o player repetidas vezes (algo que não ocorre em Sim Tower, por exemplo).

Capitão América e Thor estrelam... Vendetta?

Capitão América e Thor estrelam… Vendetta?

Além desses aspectos de dificuldade inatos, o jogador também poderá se deparar com a menina-fantasma do horror japonês Ringu (e seu remake estadunidense O Chamado) que bloqueia recursos e funções, de modo que nem sempre a roteirista estará disponível, justamente quando você precisa produzir o mais novo arrasa-quarteirão das telinhas, por exemplo.

Para nós, que vivenciamos um circo midiático há tantos anos e estamos acostumados ao papel duplo que diversos meios desempenham no país, como braços ocultos do poder regulados por um órgão que parece se esquecer de que se tratam de empresas que operam sob concessão pública, podemos lamentar a falta de um pouco mais de sarcasmo no jogo da Dreamsite Games. O Brasil conta com personagens históricas como Chateaubriand, Roberto Marinho, Silvio Santos, que encontram paralelo em William Randolph Hearst, Rupert Murdoch, entre outros. São figuras atreladas a uma cartilha de fazer televisão ultrapassada, mas com ecos que perduram até hoje e, por isso, folclóricos. Lamentavelmente, também não há qualquer referência a programas religiosos em Empire TV Tycoon. Uma pena para todos aqueles que gostariam de passar algumas horas brincando de Edir Macedo ou R. R. Soares, que seriam possivelmente invocados pelo falecido Gene Scott (o protagonista no documentário para televisão de Werner Herzog God’s Angry Man, de 1981), tão-somente pelo prazer cínico da coisa.

Com seu visual familiar, inúmeras referências e por ver a produção televisiva da coxia, ainda que com bastante ingenuidade e de forma inevitavelmente simplificada, Empire TV Tycoon é um ótimo jogo independente. E de reduto independente, porque são tantas infrações de copyright em potencial que não haveria a mínima possibilidade de o jogo chegar ao grande público sem uma briga judicial, mas estamos satisfeitos de que ele tenha sido feito, da forma que foi feito. Após uma dezena de horas, a fórmula se gasta, mas aumentar a dificuldade do jogo ainda pode render bons momentos e não retira o mérito da Dreamsite Games de ter produzido um game inteligente e divertido.

Empire TV Tycoon e sua trilha sonora podem ser adquiridos no Steam.

 

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter