Em nome de Deus

É evidente a contradição entre fé e política uma vez que os representantes da população se posicionam muitas vezes em choque com os representados

Postado dia 31/05/2016 às 09:00 por Heródoto Barbeiro

Deus

Foto: Criação de Adão de Michelangelo

Muitos deputados votaram em nome de Deus. Esta foi uma constatação que deixou muita gente surpresa quando a Câmara dos Deputados decidiu a admissão da abertura do impeachment. Foi uma demonstração clara que a influência da religião na política não está confinada no Oriente Médio. Causa uma certa estranheza por aqui quando se divulga a existência de partidos mais ou menos influenciados pelo islamismo. Contudo o mesmo ocorre no Brasil e, para isso, basta ver nas siglas partidárias a palavra, ou no seu programa o ideário cristão. É verdade que nada se compara com os fanáticos do Estado Islâmico. Nem com os países teocráticos do oriente. Os partidos cristãos brasileiros também estão ligados a denominações religiosas rivais, oriundas do neo-pentecostalismo. Talvez nem mesmo os fundadores da república brasileira imaginavam essa contaminação. Na época separaram a Igreja do Estado e o proclamaram laico. Igreja no final do Século 19 era apenas a Igreja católica apostólica romana e o imperador tinha algum poder sobre ela como por exemplo o padroado. Acrescente-se que os partidos com forte influência religiosa no Brasil vão da esquerda à direita, de conservadores à radicais liberais.

Mais de uma vez se alimentou a polêmica que é ilegal a presença de ícones cristãos em prédios públicos. Eles são repudiados tanto pelos evangélicos, contrários às representações religiosas, como pelos que entendem que não cabem em um Estado laico. Certa vez um presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, evangélico, mandou tirar uma grande estátua de um Cristo crucificado e mandou guardar no almoxarifado. A polêmica gerada levou entidades religiosas a protestar contra ele e a mídia participou ativamente do debate. Aparentemente está ocorrendo uma dessacralização de algumas partes do mundo. Curiosamente na Europa, onde já pontificou a democracia crista e outros assemelhados, essa tendência arrefeceu. Na Grã Bretanha quase metade da população se diz sem religião. No Brasil ainda permanece a opção utópica e profética mas ela migrou do catolicismo para o evangelismo. A tradição religiosa católica se converteu em uma estratégia para chegar ao poder e o mote foi a opção pelos pobres. No entanto, em determinados temas considerados conservadores elas se aliam, como a questão do aborto, células troncos, casamentos gays e por aí vai.

É evidente a contradição entre fé e política uma vez que os representantes da população se posicionam muitas vezes em choque com os representados. Há uma decadência da fé católica e ao mesmo tempo uma ascensão da evangélica. Isto faz, de fato, o grupo cristão ainda majoritário no Brasil. O mito messiânico de dom Sebastião, o rei que morreu na batalha de Alcácer Quibir, é de origem lusitana. No entanto, ele contribuiu no Brasil para alimentar a lenda do salvador da pátria, que tem uma tom messiânico e milenarista. Ainda hoje parte da população espera o ungido, personificado na pessoa do presidente da república, aquele que é capaz de, sozinho, melhorar a vida dos pobres, provê-los de salários, saúde, educação e divertimento. Não é por acaso que, nas vésperas das eleições, os candidatos são vistos em cerimônias religiosas, nos cultos mais movimentados, e mostrados com o semblante contrito. O ungido é admirado, apoiado por preces e promessas, e muitos querem tocá-los como os santos nas sacristias. Isto mostra que o país está muito longe de ser uma sociedade moderna, contratual, republicana, igualitária e laica.

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Sobre o Autor

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Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

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