Educadores hipócritas, alunos reféns

Escola sem partido: quem deve ter liberdade assegurada em primeiro lugar, dentro da sala de aula, são os alunos, não o professor

Postado dia 25/07/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

escola

Foto: Reprodução/Internet

Vivemos no Brasil uma época de crises políticas e debates acalorados. Não é preciso ser nenhum analista político muito bom, ou algum profeta magnifico, para intuir tais conclusões. É verdade que a democracia, se ela é possível, de fato, se constrói sobre o plano movediço das discussões de partes, sobre as alas opinativas diferentes – por um contrato mútuo de respeito, aliena-se, por vezes, suas vontades frente a da maioria.

Não obstante todo este processo democrático, existem debates corriqueiros na sociedade, mídias sociais, meios jornalísticos e acadêmicos. Dia e noite travam-se intensos e calorosos embates de ideias. Filósofos e historiadores, sociólogos e cientistas políticos, jornalistas e economistas tomam a frente desta arena cotidiana de digladiação das ideias. E isso é muito bom, é maravilhoso.

Creio que é a possibilidade do debate, com ampla liberdade para quaisquer pontos de vista, é o princípio de uma sociedade minimamente prudente e harmoniosa — dentro dos limites do possível.

Todavia, não podemos negar que há influências e trapaças nesta arena. Antes destes homens e mulheres se encontrarem em pleno embate de ideias, foi necessário que eles se formassem intelectualmente e tomassem conhecimento das matérias que se debatem dentro desse ringue. E é aqui que a Escola sem Partido entra.

Para que a liberdade seja de fato respeitada, é necessário, anteriormente, que haja uma imparcialidade do educador para explanar as ideias.

Vejamos: se um professor desde cedo expõe que o capitalismo é algo demoníaco, que o empresariado é o mal social e que qualquer opinião que se aproxime de um princípio conservador é um retrocesso humano. Como querem falar verdadeiramente em liberdade? Quando se recusa literaturas, informações e tratados dos verdadeiros autores das ideias opositoras, não há liberdade; há, tão somente, condicionamentos.

Dentro de uma sala de aula, a principal e mais importante liberdade a ser considerada não é do educador, mas sim do aluno que está sendo formado intelectualmente. O que deve ser observado e se fazer valer é que a sala de aula não seja um púlpito religioso, nem um palanque partidário, muito menos uma trincheira de guerras civis; as universidades não são centros de recrutamento de militantes, e as escolas primárias e secundárias não são preparatórios de cadetes.

Hoje não se discute mais se há ou não doutrinação ideológica nas universidades, hoje se debate como amenizá-las ou extirpá-las. Que existe doutrinação ideológica socialista, isso não é mais dúvida, é certeza. Nossos jovens adentram as universidades e, em pouco tempo, saem como zumbis a defender ideias as quais não compreendem, as quais não pesquisaram. Mas, depois de apenas duas ou três aulas, decidiram viver e morrer por elas, ainda que não entendam seus desenvolvimentos e suas implicações.

O mais engraçado de tudo isto é que os verdadeiros e mais gritantes apologistas da ideia de imparcialidade são os que usam do aparato doutrinador.

A imparcialidade dos parciais funciona desta forma: enquanto se ensina Marx, Lênin, Adorno, Horkheimer, Simone Beauvoir, Judith Butler, Paulo Freire, entre outros, isso é liberdade; ao passo que, quando se ensina Adam Smith, Edmund Burke, Ludwig von Mises, Russell Kirk, Roger Scruton, Frederich Hayek, aí neste momento eles se lembram da imparcialidade, usada agora como desculpa para voltarem ao status quo socialista.

Ao se ensinar liberalismo e princípios conservadores, dizem eles: devemos ser imparciais e voltarmos sempre os olhos ao canto esquerdo do corner para nos lembrarmos da “verdade”. Quando se ensina socialismo, aí então estamos galgando verdadeira liberdade; olha-se para a direita somente para cuspir.

Todavia, a trama está descarada, ou seja, não se ensina liberalismo ou conservadorismo pelas vias liberais e conservadoras. O que é o mínimo a se pedir a um professor. Ensina-se somente por vias difamatórias: se alguém quer um contraponto, este deve buscar por seus próprios meios, pois não será em nenhuma instituição de ensino que isto lhe será oferecido.

Me estranha muito, pois, que meus professores, algozes da ditadura militar e profundos democratas, gladiadores e defensores da liberdade de opinião (logo, da imparcialidade) babam com tanta raivosidade sobre os projeto da Escola sem Partido.

Ora, o projeto que, de fato, prega e faz acontecer a imparcialidade nas escolas é o mesmo projeto que os defensores da imparcialidade atacam. Estranho, né?

Isto mostra muito sobre as intenções desses professores. Falam da liberdade do professor. Ora, quem deve ter liberdade assegurada em primeiro lugar, dentro da sala de aula, são os alunos, não o professor.

O ente passivo e receptivo deste ambiente é primeiramente o aluno, não o professor; aquele de quem se pressupõe o conhecimento sistemático da matéria e a transmissão imparcial dos fatos, não é o aluno, mas sim o professor. O professor possui toda a liberdade do mundo de ser comunista, mas deve ter o caráter e a hombridade de transmitir o conhecimento das matérias de tal forma que faça o aluno ter a liberdade de escolher ser ou não comunista como ele.

A forma que se faz a educação no Brasil, hoje, se trata de uma mão única, onde o aluno, por vezes, deve repetir o discurso do professor para ganhar nota, mesmo que não concorde com ele. Ou pior, mesmo que os fatos, mesmo que a realidade não concorde com ele.

Nossas escolas são um centro de adestramento, não palácios de saberes. Os maiores críticos do conservadorismo nunca leram sequer uma obra conservadora. Os maiores críticos do liberalismo nunca depararam com uma obra de algum liberal. Falam do conservadorismo pelos óculos do comunismo, tratam e palestram sobre o liberalismo com vistas de um socialista. São estes que querem me falar de liberdade? São estes que levantam os punhos cerrados para me ensinar sobre democracia?

A Escola sem partido é necessária para formar intelectos emancipados e independentes de terceiros, mentes que não precisam consultar cartilhas partidárias nem dobrar-se ante dogmas ideológicos para opinarem sobre política. A Escola sem partido é necessária para desvelar o montante dos falsos educadores, aqueles que querem doutrinar, e não ensinar. Fazem das escolas verdadeiros quarteis generais de partidos e ideologias.

Nossas universidades federais são as maiores provas disso. Uma lata de lixo que transforma humanos em animais teleguiados. Como fantoches, esses professores brincam de generais, mandam tirar a roupa, levantar cartazes, lutar por ideias que os próprios militantes desconhecem. Por fim, só posso dizer: Orwell estava certo!

A imparcialidade sempre foi pregada na democracia moderna. E, quando, de fato, um grupo de parlamentares tenta implementar a imparcialidade como lei normativa, os que outrora gritavam por ela — na ditadura militar, por exemplo — agora querem barrá-la?

Isso deveria nos dizer algo sobre o caráter sublimado de alguns educadores e políticos!

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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