E fez-se a luz

A versão bíblica para a origem de tudo é tão complexa e rica em elementos mitológicos que fica difícil entender por que os criacionistas querem reduzir a fatos concretos e sem brilho

Postado dia 03/12/2015 às 00:00 por Tiago Cordeiro

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Com quem Deus conversa enquanto cria o mundo? Ele é a única criatura que existe, desde sempre, incriado, inalterado, eterno, onipotente, onipresente. E, ainda assim, na medida em que faz a vastidão do nada se dividir em diferentes elementos, afirma: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Ele tem dois nomes, Elohim (um plural para “deuses”) e Yahweh Elohim (singular para “Senhor Deus”). E cria o ser humano de duas formas diferentes – são dois relatos que se somam, mas não são idênticos.

Essas duplicidades caracterizam o relato da criação do mundo segundo o livro do Gênesis, o primeiro da Bíblia. A primeira frase do primeiro livro é expressiva: “No princípio criou Deus o céu e a terra.” E um verso se repete, o tempo todo: “e Deus viu que tudo era bom”. A obra exala otimismo em suas afirmações sobre o quanto a natureza, os céus, as águas e também o ser humano são originalmente bons.

Por falar em ser humano, em um primeiro trecho do relato, o Javé plural, Elohim, faz nascer homem e mulher ao mesmo tempo, com a força de seu sopro, seu comando. Num segundo momento, que aparece poucos versículos depois, é que vem a história mais popular, do homem formado do barro e a mulher de uma costela – Adão, aliás, não é um nome singular, é ‘adam, um artigo definido que caracteriza uma espécie inteira.

Deuses que criam os homens a partir do barro são comuns em muitas mitologias diferentes. O que diferencia o Javé dos hebreus é que ele controla todas as ações e a natureza o obedece rapidamente. “E disse Deus: faça-se a luz; e fez-se a luz”, por exemplo. Ou “produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi.”

Em outras mitologias, o mais comum é a criação ser resultado de uma batalha feroz, em que a entidade boa precisa superar a má, que perde a briga mas deixa suas marcas na Terra. O Gênesis é mais inovador neste quesito: a serpente que surge no Jardim do Éden está entre os répteis criados por Deus. Ou seja, o mal também vem do mesmo Criador, que contém tudo em si, inclusive seu próprio inimigo.

Por muitos séculos, as crianças do Ocidente aprenderam uma versão simplória deste texto tão complexo. Ouviram de seus professores, sempre padres, freiras e pastores, que o mundo foi criado em exatos sete dias, há alguns poucos milhares de anos. Aprenderam que todos os seres surgiram exatamente como são hoje, e que a mulher é companheira do homem, que apareceu primeiro e a quem ela deve obediência.

Há uns duzentos anos, o texto mitológico da criação segundo a Bíblia foi confrontado com evidências arqueológicas e recolocado em seu lugar de direito, que não é nada desprezível: trata-se de um relato forte e muito diferente de tudo o que as outras religiões daquela área do planeta afirmavam. Havia muita novidade ali, em especial a afirmação de que Deus era único (ainda que o uso do plural Elohim deixe claro que esta figura solitária não surgiu automaticamente, mas sim foi resultado de um longo processo de construção).

Diante de tudo isso, não faz o menor sentido discutir se o criacionismo seja ensinado nas escolas como a única versão aceitável para o começo de tudo. É fundamental que os jovens conheçam os dados levantados pela ciência, e também as diferentes versões, de diferentes religiões, para a criação do universo, da vida e de tudo o mais que existe. O Gênesis é leitura obrigatória sim, porque ajuda a entender a revolução religiosa trazida pelos hebreus há três mil anos.

 

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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