E agora, quem é o palhaço?

Tiririca foi um destes homens que não se venderam por 33 moedas nem por cargos

Postado dia 20/04/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

tiririca

Foto: Reprodução/Internet

Eu poderia fazer mais uma análise panorâmica do cenário político após a votação de domingo. Talvez, para mim, um comentarista político, fosse mais prudente assim agir. Todavia, me parece que muitas vezes uma situação particular transmite com mais profundidade a realidade que não se mostra na superfície de um olhar panorâmico. Por isto mesmo creio que é mais importante conhecermos o chorume que está sob o solo do circo político do que os múltiplos espetáculos de picadeiro que acontecem na exterioridade. Sendo assim, tratemos de um acontecimento que veio à tona segunda-feira e que nos ajuda a entender a abditae causae — a causa escondida. Mas antes, tenham paciência e compreendam a rápida introdução que darei ao texto.

Sou um homem que tenta venerar com certo ardor o conhecimento e a alta cultura deixados pelos longos anos de crescimento humano em várias culturas distintas. Mas nada me encanta mais do que a dignidade que ultrapassa qualquer demarcação intelectual, cultural, postos de poderes ou montantes de dinheiro; não há nada mais sedutor do que um homem ou uma mulher que não é comprável, que não faz liquidação de seu orgulho e não seleciona a ética que lhe apraz. Creio que todos passaremos, em algum momento de nossas vidas, por propostas indecentes; neste momento teremos de escolher entre manter-se firme em nossos princípios ou negociar nossa moral, se prostituiremos nossa dignidade em troca de cédulas e gabinetes, ou se manteremos o brio de nosso caráter. São em momentos assim, quando você está somente diante de si e de seu corruptor; quando não há aplausos nem aclamações de heroísmos, é neste turvo momento que se escolhe a retidão ou a devassidão moral. Quando não há holofotes e nem olhos militantes, a alma mostra-se denudada; quando assim, nua, na opacidade do secreto, veremos na alma a mansidão e grandeza de um caráter ou o a mácula vergonhosa de um mesquinho.

Geralmente usamos a palavra “palhaço” de forma pejorativa para denominar uma pessoa estranha, desvairada e raramente possuidora de conhecimentos. Todavia, lembram-se do que disse acima, uma das características mais encantadoras da dignidade e da retidão moral é que ela não escolhe diplomas, berços dourados ou coroas reais. A retidão moral e a podridão moral são fatos de efusiva disputa metafísica e sociológica, entretanto há quase que um toque transcendente de pureza quando um pobre, ou alguém que teria tudo para aceitar um suborno, prefere a pobreza e a vida anônima do que pôr-se em pé de demérito e vexame.

Tiririca foi um destes homens que não se venderam por 33 moedas nem por cargos. A Folha de SP do dia 18/04[1], trouxe a notícia que o ex-presidente teria acertado, domingo pela manhã, o voto do deputado Tiririca a favor de Dilma. Afirma a matéria que quando ele votou contra, Lula se mostrou contrariado dizendo que na manhã daquele dia estava certo o seu voto pró-governo. Estes são um daqueles momentos que um verdadeiro rei levanta-se, retira a coroa e curva-se diante do súdito. Toda atitude dessa deveria ser louvada, mostra que há sombras de respeitabilidade na alma do homem. Mostra que em alguns ainda jazem a moral e a consciência. Longe de mim louvar a santidade de Tiririca, pode ser que ele simplesmente por pressão tenha votado a favor da instauração do impeachment. Porém, em oito anos de parlamentar, me parece que sua dignidade mostra-se límpida e sem motivos para que eu desconfie que tenha feito o que fez a não ser por pura elevação moral acima das seduções corruptas. Quando um homem não se vende ele garante respeitabilidade de alguns e desconfiança de muitos, porque o óbvio tornou-se ceder a putrefações da dignidade e não resisti-las; temo que a régua pela qual medimos as atitudes dos outros sejam as nossas falhas morais e não a grandeza do que é certo. Quando o dinheiro não compra a nobreza de um homem, desconfiamos de quem negou vender-se e não de quem tentou comprá-lo; este é o triste beco a que chegamos.

A verdade é que, quando um governo não consegue comprar um homem, pois sua integridade não está em varejo, quando um corrupto não encontra pares em sua podridão, aí sim o desespero bate à porta com socos ensurdecedores. Sim, neste momento quero ser otimista e acreditar que há homens na política que não se vendem, homens do qual ainda guardam a respeitabilidade e a honradez como coisas inalienáveis, tesouros sem valor de compra.  Quero crer firmemente que há alguns que preferem andar de cabeça erguida sem dever favores “especiais” a ninguém, do que ter uma poltrona de luxo e um caráter de lixo.

E agora, quem é o palhaço?

Referência:
[1] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/04/1762352-tiririca-esteve-no-hotel-de-lula-antes-de-votar-a-favor-do-impeachment.shtml
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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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