Duas faces de um mesmo corpo

Como em toda época de transição, duas sociedades divergentes convivem: uma decadente, a outra em ascensão. É o que acontece agora

Postado dia 24/11/2016 às 08:00 por Heródoto Barbeiro

 

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Foto: Reprodução

 

A humanidade vive mais uma época de transição. Elas povoam a história desde a revolução do neolítico, há uns dez mil anos. Os grupos humanos, todos originários da África, se espalharam acompanhando os animais que buscavam água. Naquela época, como hoje, havia uma mudança climática e a desertificação tomou conta de parte do continente.

Os seres humanos fixaram-se ao longo dos grandes cursos d´água na África, Oriente Médio e Ásia. Não foi fácil abandonar um tipo de vida por outro. Deixar de ser caçador e coletor, para cuidar de plantações e animais domésticos. Como em toda época de transição, duas sociedades divergentes convivem: uma decadente, a outra em ascensão.

Essas mudanças não se dão de uma hora para outra, nem mesmo no atual momento de transição que vivemos no século 21. Portanto, não é possível esperar que a nova sociedade se imponha e que não haverá mais manifestações da antiga. Em determinados momentos há uma sucessão de visões do mundo, ora do passado, ora do futuro.

O futuro sempre despertou medo. Quer individual, quer coletivamente. Ele é sempre identificado com a incerteza, da troca do certo pelo duvidoso, do seguro pelo inseguro. Um risco permanente.

Não é fácil identificar como as sociedades conflitantes vão se comportar no momento de transição. Ora uma se impõe sobre a outra. Por isso os resultados podem surpreender os estudiosos.

Os exemplos mais recentes são a eleição de Trump, a derrota da proposta de paz da Colômbia e a saída do Reino Unido da União Europeia. São três manifestações da parte “antiga” da sociedade que se organiza e derrota os partidários do “novo”.

Esta, por sua vez, imagina que já tem o domínio do processo histórico e não precisa mais se esforçar para impor os novos paradigmas. Por isso, nos três exemplos, boa parte das pessoas não se dignou a deixar as suas casas para votar. Consideravam que os antigos, ou reacionários, ou conservadores não teriam a menor chance de vencer. E venceram.

Alguém já disse que muitas vezes é preciso dar um passo para trás para dar dois para frente (seria Lênin?). No entanto, os passos para trás custam muito. Derrubam sonhos, destroem ideais, conturbam a busca pelo progresso e reavivam velhos valores, muitos deles conflitantes.

Entre eles o nacionalismo, o revanchismo, o ódio, o imperialismo e as guerras. O Renascimento foi outro período de transição. Marcou a passagem do feudalismo para o capitalismo, do teocentrismo para o homocentrismo, da fé para a razão, do conhecimento sensitivo para a ciência.

Foi o período em que entre tantas mudanças se concebeu que o planeta era redondo, que girava em torno do sol e um continente inteiro foi descoberto em uma viagem ainda no final do século 15. Ainda assim o setor conservador insistia em manter o trabalho servil, a condenar o comércio, a acumulação de riquezas e perseguir os que insistiam em abrir frestas para que a nova sociedade surgisse.

Levou tempo. A Inquisição foi uma das barreiras mais duráveis e cruéis que a nova sociedade teve que transpor. Hoje existem outras barreiras a serem superadas.

 

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Sobre o Autor

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Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

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