Dossiê Aerosmith – Uma viagem pelas quatro décadas da banda

Segundo Ted Nugent, se não fosse o Aerosmith, não haveria tantas minissaias nos Estados Unidos

Postado dia 25/10/2016 às 09:30 por Sociedade Pública

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução – Banda Aerosmith com sua formação original. Da esquerda para a direita: Brad Whitford, Tom Hamilton, Steven Tyler, Joe Perry e Joey Kramer

Com uma certa dor no coração eu me ausentei do show do Aerosmith no dia 15 de outubro em São Paulo no Allianz Park, conhecido também como “Estádio do Parmera”. Mas não é por eu ser corintiano não – afinal, estive lá em 2010 para ver essa mesma banda realizar o que chamo até hoje de “melhor show da minha vida”.

Aerosmith é puro rock and roll e originalidade! Engraçado, só quem é amante da arte pode perceber a importância do quinteto para o meio e para o cenário cultural mundial. É a melhor banda do mundo? Claro que não! Existem bandas que conseguiram alcançar “níveis” superiores no que diz respeito a explorar música de formas mais complexas. Cito, por exemplo, Led Zeppelin, Beatles, Hendrix, Black Sabbath, Faith no More, Rush, Pink Floyd, e ainda mais umas dez pelo menos… Então qual é o diferencial? O diferencial está no emocional. Em tudo aquilo que essa banda significou em minha vida e por tudo que ela representou em quatro décadas incríveis.

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Foto: Reprodução – Steven Tyler – Um dos maiores cantores de Rock de todos os tempos

Segundo Ted Nugent, se não fosse o Aerosmith, não haveria tantas minissaias nos Estados Unidos. Isso é algo para se pensar a respeito… Mas o que é Aerosmith? O que realmente representa essa banda no cenário rock and roll? Depois de mais de 15 anos ouvindo (muito) e tendo assistido dois shows (2007 no Morumbi e 2010 no Parque Antártica), além de muitos outros shows pela TV, além de DVD’s, VHS’s e Bootlegs, acredito que tenho o know how necessário para responder essa questão que envolve quatro décadas de trabalho. Já estava mais que na hora de eu tocar nesse assunto e escrever esse “dossiê”.

Steven Tyler declarou que, em uma noite, ainda durante os anos 60, estava perto do Madison Square Garden, uma famosa casa de show em New York, e nesse dia haveria um show dos Rolling Stones no local. De repente, Tyler foi rodeado por pessoas querendo autógrafos devido sua grande semelhança com Mick Jagger, vocalista dos Stones, pois ambos são conhecidos por possuírem uma boca enorme, e na época os cortes de cabelo eram bem semelhantes. Nesse dia, o jovem rapaz sentiu o gosto do sucesso e desejou isso para sua vida. Tempos atrás o vocalista disse que é preciso cuidado com o que se deseja, pois pode se tornar realidade.

 

As origens

Decidido a fazer sucesso, Stephen Victor Tallarico, conhecido por Steven Tyler, começa em meados dos anos 60 sua primeira banda, chamada Chain Reaction. Ele tinha temperamento explosivo e por ter diversas vezes agredido seus coleguinhas de banda, a Chain Reaction terminou. Nessa época, Tyler assistiu um show da “The Jam Band”, um grupo amador que trazia Joe Perry como Guitarrista e Tom Hamilton com baixista.

Steven ficou fascinado por uma canção que a Jam Band tocou chamada Rattlesnake Shake, e da forma que Pery a conduzia na guitarra. Convidou o músico para se juntar a ele com uma nova banda, ele aceitou e pediu que fosse chamado o baixista Tom Hamilton. Assim nasceu o Aerosmith.

Foto: Reprodução - Aerosmith durante as fotos do primeiro disco

Foto: Reprodução – Aerosmith durante as fotos do primeiro disco

Aerosmith é uma banda formada em New York em 1971 por jovens músicos que vieram praticamente bebendo suco de blues, misturando boas raízes e fazendo um rock and roll inicialmente bem simples, que trazia em seu primeiro disco (1973) a seguinte formação: Steven Tyler nos vocais e gaita, Joe Perry e Brad Whitford nas guitarras, Tom Hamilton no baixo e Joey Kramer na bateria, formação que até hoje encanta os palcos pelo mundo. Antes do primeiro disco, um antigo integrante chamado Ray Tabano, que havia deixado a banda antes da primeira gravação, foi o responsável pelo primeiro esboço do que seria no futuro o logotipo oficial do grupo, uma marca na indústria do entretenimento tão conhecida como a da Nike no mundo do esporte.

Em 1973 o Aerosmith com sua atual formação lançava pela Columbia Records seu primeiro bolachão (disco de vinil), intitulado “Aerosmith”. A capa era extremamente brega, porém o álbum era recheado de grandes canções como a clássica “Dream On”, que fez com que eles acertassem de primeira. Dream On é um belo som que até hoje emociona milhares de pessoas quando tocado ao vivo, inclusive teve acompanhamento de uma orquestra no início dos anos 90 durante um evento transmitido pela MTV em comemoração aos 10 anos da emissora e hoje é uma das músicas mais conhecidas e aclamadas no cenário do rock mundial, assim como “Bohemian Rhapsody” (Queen) e “Stairway to Heaven” (Led Zeppelin).

Esse primeiro disco também traz a famosa “Mama Kin”, (regravada pelo Guns and Roses em seu primeiro EP chamado “Lies”, de 1988), com seus riffs agitados e uma letra polêmica que fala de um travesti.  Quero mencionar também, aquelas grandes músicas desse álbum que poucas pessoas conhecem, como Make it, Walkin’ the Dog, One Way Street, Movin’ Out e Write me a Letter… Ótimas por sinal, principalmente para quem quiser ouvir a gaita de Tyler gritando junto a guitarra envenenada de Perry e Whitord.

Foto: Reprodução: Uma das primeiras aparições da banda na televisão

Foto: Reprodução: Uma das primeiras aparições da banda na televisão

Nessa época a banda costumava cometer pequenos delitos em mercados para poder se manter alimentada e chapada, pois a situação era bem difícil. A gravação do primeiro álbum é tão precária que é possível ouvir um objeto se quebrando enquanto rola a segunda faixa do disco “Somebody”. Além disso, a banda ainda foi julgada como sendo só mais uma cópia fajuta de Rolling Stones.

Continua então o quinteto na estrada durante os anos 70 em busca do sucesso. Em 1974 foi lançado o disco “Get your Wings” com uma atmosfera diferente, um tanto misteriosa e soturna. A impressão que esse álbum passa é que foi gravado em uma garagem sofisticada, mas nota-se uma banda que já começava a adquirir identidade. Particularmente, esse é um dos meus álbuns favoritos, mas não foi com ele que a banda conquistou os Estados Unidos.

 

As grandes turnês

Em 1975 a banda já era produzida pelo Jack Douglas, e nesse ano foi lançado o “Toys in The Attic”. Esse disco colocou o Aerosmith nas paradas de sucesso da América e então as grandes turnês começavam. Nessa época, a banda começou a se engraçar com muitas drogas, groupies e confusões dentro do backstage. Embora o sucesso fosse grande, os integrantes da banda estavam completamente drogados, Começaram a ganhar dinheiro e a fazer grande sucesso. Logo a fama subiu à cabeça da banda toda, e Steven Tyler e Joe Perry começaram a ter gigantescos problemas de ego.

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Foto: Reprodução -Na foto, o voclaista Steven Tyler. Em meados dos anos 70 a banda começava a se apresentar para grandes públicos

Mais pra frente Aerosmith encontraria um médico especialista em lidar com bandas com problemas, o Dr. Lou Cox, que trabalhou com muitas bandas famosas. Uma frase dele em relação ao Aerosmith foi: “Porra, a banda toda está drogada…”

A banda continuava estourando nas paradas de sucesso, até que em 1976 é lançado o quarto disco, “Rocks”. Nessa época um álbum como esse sendo lançado nos Estados Unidos trazia algo bem positivo, pois as grandes bandas de sucesso dessa época eram inglesas e estavam ditando as regras com trabalhos excelentes. Então o “Rocks” chega forte no cenário mostrando o jeito americano de fazer rock pesado e de altíssima qualidade.

Esse disco é considerado por muitos fãs da banda como sendo o melhor disco já gravado pelo quinteto. Durante as gravações, Steven Tyler teve um surto e tentou estrangular o produtor Jack Douglas. O motivo? Jack Douglas quis abaixar meio tom do disco. A demonstração de Tyler de parecer não concordar não influenciou a decisão de Jack, que gravou o disco meio tom abaixo do que havia sido planejado pela banda. Ainda bem, pois do jeito que o Steven Tyler começou a cantar devido os abusos, ele teria problemas em cantar as músicas do Rocks, que mesmo modificado, exige um tanto de técnica para qualquer vocalista experiente.

Após o imenso sucesso de vendas do Rocks, a banda lança em 1977 o disco “Draw The Line” – outra obra prima, percebe-se isso logo pela faixa título. Esse disco possui uma curiosidade: a banda havia esquecido a fita demo desse álbum em numa caixa de biscoitos. Nessa época a convivência de Steven Tyler com Joe Perry estava ficando crítica, as brigas eram cada vez mais constantes e eles trocavam socos e pontapés com frequência, precisando que os seguranças da banda os separassem.

Além das brigas, a banda estava cada vez mais enfiada no consumo de heroína, cocaína e estimulantes. Os shows começaram a ficar com defeitos técnicos e a qualidade da banda começou a cair, assim a produção também foi diminuindo.

 

O declínio

O Aerosmith, que havia decolado e ido bem alto, começa a perder velocidade e a cair brutalmente, no lançamento do quinto disco. Em consequência das brigas entre os integrantes, Joe Perry deixa a banda para a entrada do guitarrista Jimmy Crespo. Isso aconteceu durante a gravação do sexto álbum do grupo, “Night in the Ruts”, um disco também excelente, que não mostra a fraqueza do grupo enquanto rola na vitrola. Mas, logo após a gravação, o guitarrista Brad Whitford também sai do conjunto e dá espaço ao guitarrista Ricky Dufay.

Nessa época o Aerosmith estava indo de mal a pior. Joe Perry estava gravando o “Joe Perry Project” e Brad Whitford gravara o Whitford/St. Holmes, junto do guitarrista Derek St Holmes. Enquanto isso, o Aerosmith continuava fazendo a turnê do “Night in the Ruts”, porém a situação estava cada vez pior.

Foto: Reprodução - Banda na formação do Rock in a Hard Place sem Joe Perry e Brad Whitford

Foto: Reprodução – Banda na formação do Rock in a Hard Place sem Joe Perry e Brad Whitford

Steven Tyler estava extremamente doente por causa do uso quase insano de heroína – ele chegava a gastar 5 mil dólares por semana com a droga e diversas vezes teve convulsões durante os shows, tendo que ser socorrido e colocado em uma ambulância. A banda já havia vendido um avião para comprar narcóticos. Agora, estava ficando sem dinheiro e o vocalista estava prestes a morrer de overdose.

Então foi lançado em 1982 o sétimo trabalho, “Rock in a Hard Place”, que ficou bem abaixo dos outros grandes sucessos do grupo. As vendas foram baixas e o trabalho não conquistou os fãs, mesmo tendo músicas legais como “Lithining Strikes” e “Joanie’s Butterfly”. Então, logo após esse disco, e devido ao momento caótico que o grupo se encontrava, o Aerosmith chegou ao fim.

Parecia que tudo estava decidido, era o fim, Assim pensavam os fãs no começo dos anos 80, afinal bandas como Metallica, Iron Maiden, Judas Priest estavam fazendo um estilo de rock mais pesado, como o Heavy Metal e o Thrash Metal, influenciados por bandas como Black Sabbath e Motorhead e cativando milhões de pessoas pelo mundo. Durante o começo dos anos 80 surgem estilos novos, como o new wave, também conhecido como pós-punk.

A explosão da música pop foi grande, devido a artistas que mudariam a cultura do entretenimento, como Michael Jackson. Além disso, nos anos 80 surgia a MTV que iria transformar as bandas em veículos audiovisuais, pois os videoclipes se tornaram um fenômeno. Desatualizado, incompleto, sem dinheiro, entorpecido e perdendo cada vez mais força, o Aerosmith não tinha como continuar fazendo sucesso nesse meio.

 

O retorno

Quando tudo parecia perdido, eis que uma luz surge no fim do túnel. A banda resolveu voltar em 1984 – mais precisamente, o grupo reatou no dia dos namorados. Após voltarem a compor, em 1985, lançaram o primeiro disco da banda em sua nova fase, chamado “Done with Mirrors”.

É um trabalho bem legal, mas não tem nada que chame muito a atenção, não traz nenhum hit, apenas músicas legais. É possível destacar as melhores, mas essas ainda não são tão cativantes, é um disco bem morno e estável. Mesmo assim, com certeza é melhor que o “Rock in a Hard Place”. O fato de ter a banda unida novamente traz de volta a velha química e faz as engrenagens funcionarem.

Foto: Reprodução - Aerosmith volta as paradas de sucesso graças aos rappers do Run DMC

Foto: Reprodução – Aerosmith volta as paradas de sucesso graças aos rappers do Run DMC

O disco não foi um sucesso de vendas, passou bem longe disso, mas felizmente, com a banda junta novamente as possibilidades de sucesso eram maiores. Foi então que tudo mudou! Os rappers do “Run DMC” estavam começando a fazer sucesso e tiveram a ideia de regravar um grande hit do Aerosmith chamado “Walk this Way”, lançado no “Toys in the Attic”.

Essa foi a grande oportunidade de a banda voltar aos holofotes. Os caras do Run DMC faziam questão da presença de Steven Tyler e Joe Perry no clipe, e isso acendeu de vez a luz para o grupo. Lançado em 1986, o clipe foi um enorme sucesso, para os rappers e para os roqueiros. Afinal, além do trabalho ter ficado bem feito, a ideia de unir hip hop com rock and roll foi inovadora e abriu portas para muitas possibilidades. Após o sucesso de “Walk this Way”, e com a banda finalmente limpa das drogas, o grupo gravou o disco de 1987 chamado “Permanent Vacation”.

 

Transição crucial

Antes de escrever sobre o Aerosmith após a gravação do “Permanent Vacation”, é importante mencionar as grandes mudanças da banda dos anos 70 para os anos 80. Durante os anos 70. o Aerosmith era uma banda extremamente competente. O som deles era pesado, e os discos tinham poucas músicas lentas, as baladas. Cada disco do Aerosmith costumava ter apenas uma balada, as faixas restantes eram para divertir nossos ouvidos com pauladas de guitarra e bateria.

Nos anos 70, principalmente depois do “Toys in the Attic”, o Aerosmith se tornou uma banda que tinha uns sons bem agressivos, a ponto de eles ficarem conhecidos como “the bad boys from Boston” (Os caras maus de Boston). Muitas coisas mudaram nessa transição do Aerosmith quando gravavam com a Columbia para quando foram gravar com a Geffen.

Foto: Reprodução - A banda sofreu uma grande transformação dos anos 70 para os anos 80. Na foto, Steven Tyler e Joe Perry dividem o microfone

Foto: Reprodução – A banda sofreu uma grande transformação dos anos 70 para os anos 80. Na foto, Steven Tyler e Joe Perry dividem o microfone

A voz de Steven Tyler ainda nos anos 70 tinha um timbre mais rouco, e ele não atingia notas tão agudas com a facilidade que ele faz hoje em dia. Mesmo assim, ele tinha uma potência vocal incrível que combinava muito bem com o som das guitarras, sempre mandando riffs rápidos e bem swingados. Aliás, swing e pentatônicas sempre foram bem marcantes nos sons do grupo, que faziam do Aerosmith uma banda de rock and roll que soava malícia e sexualidade. Acredito que muitas garotas hippies perderam a virgindade ao som de Steven Tyler e companhia.

Quando o Aerosmith começou a gravar com a Geffen e finalizou o “Permanent Vacation”, era como se fosse uma nova banda. O som dos caras estava com uma energia diferente e uma produção completamente nova, tanto no áudio como no visual. Steven Tyler passou a se vestir de uma forma mais exagerada, com brincos, maquiagens e roupas quase femininas. Além disso, o timbre da banda mudou bastante. As guitarras, bateria, teclado, baixo e inclusive a voz passaram a soar diferentes. Era uma nova versão do grupo.

A cultura pop entrou junto com a banda no estúdio e quando a gravação acabou, o disco foi um grande sucesso de vendas, vendendo cinco milhões de cópias. Os grandes sucessos viraram diversos clipes colocados na MTV, como “Dude Lookes like a Lady”, “Angel” e “Rag Doll”. A banda estava novamente voando alto e dessa vez eles conquistariam não somente a América, mas todo o mundo.

Era um novo Aerosmith, agora sóbrio e bem humorado. A imagem de “caras maus” ficou pra trás e agora eles eram mais irreverentes. Começaram a fazer apresentações mais alegres e a cativar um púbico diferente, diferente e bem maior, pois agora com o sucesso que faziam e conquistando cada vez mais a MTV. A banda, a partir desse, disco começou a ditar as regras dentro do cenário do Hard Rock, estilo de músicas onde estão muitas bandas bem famosas como Guns And Roses, Bon Jovi, Whitesnake e Scorpions, entre muitas outras.

 

Hits em série

As turnês milionárias voltavam e a banda começava a demorar mais tempo para compor um disco, uma média de três a quatro anos. Surge então o álbum “Pump” em 1989, um verdadeiro sucesso que trazia verdadeiros hits como “Janie’s got a gun”, “Love in na elevator” e “What it Takes”. Embora What it Takes seja numa balada realmente boa e bem feita, o Aerosmith estava cada vez mais fundo no cenário Pop, passando a ser conhecido mais pelos hits que passavam na MTV, mantendo certa distância das músicas de década passada. Renovada a banda continuava seu grande sucesso e entrava nos anos 90 com tudo, já sendo consagrada uma das maiores bandas de rock do mundo.

Foto: Reprodução – A banda durante o ensaio fotográfico para o disco Pump de 1989

Os anos 90 foram especiais para a música, pois muitas bandas surgiam, trazendo novas propostas e novas sonoridades. O Hard Rock estava enfraquecendo e o grunge, o industrial e o uso de recursos eletrônicos ganhavam cada vez mais atenção. Pessoalmente, eu não acredito que haja um estilo que possa ser classificado de grunge, pois as bandas dos anos 90 eram bem diferentes umas das outras e foi uma época de fazer músicas menos exageradas e valorizando mais os sentimentos humanos. Era o fim dos sintetizadores bregas dos anos 80.

Novamente o Aerosmith surpreendeu o mundo inteiro ao lançar o “Get a Grip” em 1993, o último trabalho da banda com a Geffen, mas que levou para a gravadora milhões e milhões de dólares. Esse é o disco da polêmica capa da vaca usando um piercing na teta, ainda que a banda tenha assegurado que nenhuma vaca foi ferida para a construção da obra. O “Get a Grip” conseguiu com maestria se adaptar aos anos 90, criando um disco de rock pesado, e ao mesmo tempo com ótimas baladas, embora grudentas, mas realmente boas.

Com certeza Crying e Crazy fizeram muitas garotas do ensino médio e do colegial chorarem por algum amor perdido. Esse disco também possui a maravilhosa Amazing, uma canção que relata a vida de Tyler após a sobriedade. Para os homens, esse disco trouxe uma surpresa bem agradável, as super gatas Liv Tyler e Alicia Silverstone participando dos clipes e fazendo caras, bocas e movimentos super sensuais nos clipes.

Além das baladas, esse disco é recheado com verdadeiras pauleiras que fazem qualquer rockeiro aumentar o som e perder a voz tentando acompanhar as notas agudas de Steven Tyler, que nesse disco estava cantando muito, inclusive mantinha as performances ao vivo fazendo shows de mais de duas horas sem perder a qualidade.

Durante a turnê do Get a Grip a banda visitou o Brasil enquanto rolava o festival “Hollywood Rock” em 1994, realizando um show em São Paulo e e outro no Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que o Aerosmith se apresentou no Brasil e foi um show simplesmente eletrizante, a banda estava no seu auge e o set list contou com uma série de hits com quase duas horas de apresentação. Um espetáculo que só quem esteve presente poderá descrever o que aconteceu no palco

Foto: Banda durante a turnê do Get a Grip. Uma das épocas mais gloriosas do grupo

Foto: Banda durante a turnê do Get a Grip. Uma das épocas mais gloriosas do grupo

O Aerosmith estava bem longe daquela banda decadente completamente junkie do final dos anos 70. Com duas décadas de sucesso, o Aerosmith estava partindo rumo à terceira e deixando um presente para os fãs chamado “Nine Lives”.

É um dos melhores discos da banda na minha opinião, e com certeza o disco em que o Steven Tyler usou 100% de sua capacidade vocal deixando registrado para a eternidade o quão invocado ele era quando o assunto era chegar em notas altíssimas. Nota-se um cuidado especial com a gravação das linhas vocais desse disco: em quase todas as músicas Tyler grava pelo menos dois tons diferentes na mesma melodia.

Além do vocal excelente, esse disco é recheado de criatividade e músicas bem agitadas – ouça a faixa título e tire suas próprias conclusões. Um grande presente para os ouvidos é a canção “Taste of Índia”, acompanhada de uma cítara e com uma levada super gostosa e cheia de energia.

Do “Permanent Vacation” até o “Nine Lives” a banda conseguiu a redenção. Não só isso, deixou registrados quatro ótimos trabalhos que são ideias para iniciar qualquer um a começar a gostar da banda. No meu caso, conheci os caras pelo disco “Nine Lives”. Confesso que demorei um tempo para me acostumar com o estilo de som feito nos anos 70. Mas, depois de ter aceitado o poder do rock na veia, hoje certamente posso cantar toda a discografia de cor.

Quem quiser conhecer essa banda pode procurar pelas suas diversas coletâneas – o que pessoalmente, eu acho um saco, pois o Aerosmith lançou muitas, e a maioria com as mesmas músicas. Recomendo o “Live Bootleg” de 1978 e o “A little South of Sanity” de 1999, essas coletâneas na verdade são shows ao vivo, um prato cheio de gritos, solos e viradas de bateria para quem quiser conhecer um pouco mais de Aerosmith e a partir daí explorar a banda durante as décadas.

 

É hora de criticar

Depois do sucesso dos anos 90, a banda passou a ser criticada pelos fãs quando o disco “Just Push Play” foi gravado em 2001. Inicialmente, fui um desses fãs revoltados com a banda por ter feito um disco com uma pegada mais moderninha, que eu chamava de “rock para mulherzinha” ou “rock para paga pau da MTV”. Embora trouxesse canções bem legais como “Beyound Beautiful”, “Sunshine” e a faixa título, obviamente algo acontecia nos anos 2000…

Uma invasão de bandas muito ruins abusando da falta de criatividade e de tudo que era clichê, como se a grande criatividade dos anos 90 tivesse causada um “tilt” no mundo artístico. Os trabalhos mais legais dessa época estão no underground ou em poucas bandas que se destacaram, como System of a Down, por exemplo. Eu poderia citar como sendo coisas bem legais o Linkin Park e o Limp Bizkit, mas acredito que essas bandas poderiam ter sido bem melhores: apesar de boas, elas caíram na mediocridade.

Além disso, no começo da década de 2000 houve uma terrível invasão de boys bands, como hoje o sertanejo invadiu o Brasil, então a pobreza na cultura pop era enorme. Além disso, o rock meia boca ganhou espaço, os grandes dinossauros do rock saíram da mídia e o hip hop ostentação rolava quase o dia todo na MTV.

A falta de criatividade dava espaço para fórmulas mágicas de sucesso, golpe sujo da indústria cultural. Embora o Aerosmith não tivesse cedido 100% a esse mercado cultural decadente, a banda já demostrou uma queda na produção. Com isso, cativou públicos menos exigentes e assim começou a mudar seu jeito de pensar em produzir músicas boas. O chute no saco foi quando lançaram o single “Girls of Summer” – nessa época eu desejava que a banda tivesse acabado no “Nine Lives”.

Foto: Reprodução – Muitos fãs querem esquecer desse dia, quando Steven Tyler cantou com Britney Spears e com o N’Sync no palco do Superbowl

Bom lembrar que ser fã é também ter opinião própria sobre a banda em questão e saber ser crítico; afinal, simplesmente engolir tudo que uma banda faz e achar que tudo que ela faz é bom não é ser fã, é ser fanático e obcecado – meninos e meninas, isso tem tratamento.

Realmente, depois dos anos 2000 o Aerosmith se tornou menos agradável nos estúdios. Embora nos shows a banda fosse um espetáculo de carisma e de competência, nos estúdios, notava-se uma banda envelhecendo, e com isso a motivação e a ambição de conquistar coisas novas.

Eis que surge uma novidade, um disco de blues chamado “Honkin on Bobo”, lançado em 2004. Embora seja um disco bom, as músicas são todas covers de antigos sucessos, com exceção da faixa 11, a balada “The Grind”, que é bem bonita por sinal.

Segue então o Aerosmith sem muitas novidades, quando finalmente no ano de 2012 é lançado o último disco de estúdio da banda, o “Músic From Another Dimension”, que na minha opinião foi um desastre. Ouvi poucas vezes esse disco e achei que as melhores faixas poderiam ser lançadas como singles. Ficou bem longe do que eu esperava de uma reaparição banda que hoje é considerada um dinossauro do rock. Embora tenha músicas legais, não é atraente, não é original e não lembra Aerosmith, tanto que, durante as turnês atuais, nenhuma faixa desse disco é tocada.

Embora tenha pisado na jaca no fim da carreira, vale a pena mesmo assim conhecer todos os trabalhos da banda, para que cada um possa ter a própria opinião – afinal, gosto é sempre relativo, e o que não é bom para mim pode ser bom para você, leitor(a). Por isso conhecer a banda é importante, para entender como as coisas começaram e como elas terminaram.

Além de tudo isso, conhecimento sempre gera mais repertório, e assim pode desenvolver assuntos bem legais para conversar com seus amigos, ouvir a discografia de uma banda como o Aerosmith afia também seu ouvido e seu senso crítico. O melhor de tudo, você fará isso se divertindo conhecendo uma grande banda de rock.

 

A homenagem

Graças ao Aerosmith, abri um grande círculo social. Quando eu era mais jovem, aproximadamente 18 anos, eu frequentava constantemente os encontros realizados por um fã-clube da banda chamado “Aeromission”, criado por um cara bem legal chamado Wellington José. Graças a esse fórum fiz grandes amigos que carrego no peito até hoje, como é o caso do Leonardo Carrasco, que, inclusive, atualmente é colunista aqui na Sociedade Pública, entre outras pérolas importantes na minha vida como a querida Michelle Amorim, o Christian Bergamo, a Patrícia Marinho, o Jedai (vocalista do Fever, uma banda que faz até hoje um excelente tributo ao Aerosmith), o Ricardo Brozoski, o Rodrigo Marckezini e outros muitos amigos que fiz durante os anos, quando constantemente entrava no trem nos finais de semana e ia até São Paulo viver minha juventude a flor da pele.

Foto: Steven Tyler nos dias atuais. Sua voz e performanceno palco continuam fantásticas

Foto: Steven Tyler nos dias atuais. Sua voz e performance no palco continuam fantásticas

Para mim, após anos de alguma experiência, posso afirmar que a diferença da melhor banda do mundo e a banda que você mais gosta é sútil, está no sentir.

Lembro em 2007 no estádio do Morumbi, da galera se emocionando quando estávamos prestes a ver o primeiro show do Aerosmith – a banda não vinha ao Brasil desde 1994. No fim do show, parecia que tínhamos visto mágica. É incrível a sensação de estar perto de seus amigos queridos e vendo uma banda que você aprendeu a gostar e conhecer de uma forma abstrata se tornar real com toda aquela energia pertinho de seus olhos.

Ver o Steven Tyler a dois metros de distância dançando e cantando enquanto Joe Perry fritava a guitarra ao som de “Love in an Elevator” foi uma das cenas mais marcantes de minha vida. Aquela hora que você paralisa e pensa: “Meu Deus, eles existem”.

Pouco tempo depois, em 2010, no Allianz Park, lembro de ouvir em determinado momento do show o Steven Tyler dizer: “1977 nós fizemos o Draw the Line, todos estão pedindo por essa então hoje vocês vão levar, especialmente você baby”, então, ouvi o primeiro acorde de “Kings and Queens”, uma das minhas canções preferidas que ouvi naquele dia lavado de lágrimas.

Além disso, lembro de ter desenhado uma bandeira do Brasil com o logo da banda no centro, uma amiga, Paula confeccionou, e junto da Michelle e a Patrícia e entregaram para os caras no hotel, s enão me engano, foi entregue ao Tom Hamilton. Nesse mesmo show, a bandeira foi colocada em cima de um dos amplificadores. Por isso, por momento assim, só digo o seguinte: vale a pena ser fã.

Ser fã é se sentir grato pela sensação boa que esses artistas incríveis nos proporcionam, pelas lembranças maravilhosas que tenho de encontrar meus amigos e ter passado momentos inesquecíveis, dos amores que tive, das pessoas que encontrei, dos lugares que passei, viagens que eu fiz, tudo girando em torno de uma coisa… Ser feliz e cantar bem alto o refrão da minha música preferida, como um grito de liberdade conquistado por vontade própria.

O doce sabor da minha juventude embalado por tantas canções…  Doce emoção… Distante dessa época… Navegando pelo tempo por aí, mas tão presente em minhas lembranças que me fazem dizer: “Hey Baby, I’m back in the saddle again…

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