A dicotomia entre educar e cuidar

Desde que iniciei meus estudos no campo da educação, presencio um recorrente paradoxo: a falsa dicotomia entre educar e cuidar

Postado dia 18/03/2016 às 00:00 por Julliana Santos

educação

Foto: Divulgação/Internet

Juntamente com essa ideia equivocada, caminha o discurso atribuindo as funções do pedagogo apenas à sua prática, como trocar fraldas, alimentar, etc, enquanto que “professor” é aquele que oferece apenas os saberes específicos, profissionais formados nas licenciaturas de letras, matemática, etc.

Penso que, para a maioria da população, esse pensamento ocorre por desconhecimento desta ciência do ensino. Já para os “professores” especialistas, além do desconhecimento, há uma necessidade de rebaixar a atividade do pedagogo para elevar a sua própria função. Porém, na ausência de um especialista, um pedagogo pode substituí-lo. O contrário já não pode ocorrer, pois esta área tem uma problemática e funções muito específicas.  O pedagogo é o profissional que se debruça a investigar todas as manifestações educativas, em diferentes instâncias da sociedade, não apenas no ambiente escolar e em sala de aula. Está na gestão da escola, na coordenação pedagógica, na educação não formal, nos movimentos sociais, ONGs, hospitais (as crianças em tratamento médico também têm direito a acompanhamento escolar), no sistema carcerário e onde mais se efetivar as iniciativas educativas.

Ambos, especialistas e pedagogos, são igualmente importantes, mas essa briga territorialista só gera prejuízos para a educação. Além do mais, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, não existe diferença de quem cuida ou quem educa, pois, como consta no “Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.”. Ou seja, estamos todos participando da efetivação desses direitos.

Aceitar que uma criança passe o dia inteiro com a fralda suja ou com fome, porque seus títulos acadêmicos não lhe permitem rebaixar-se a tal circunstância, é uma atitude ética? O ato de alimentar, assim como o ato de higienizar não são práticas que mereçam atenção e orientação? Pior são os discursos dos professores que não reconhecem a sua função social e atribuem o ato de “educar” como relativo ao lar, ou seja, as crianças devem carregar a educação de casa para a escola.

Mas, se essa educação básica não é adquirida no lar, esta criança não vai recebê-la? São reflexões que devemos fazer para não desclassificar as funções profissionais de nenhuma categoria, muito menos dos pais, mães, tios e avós que também participam desse movimento para criação de novos indivíduos. Importa é que todos que trabalham na área da educação façam a reflexão do seu papel como produtor de futuro: qual sociedade queremos construir? O que preciso fazer para desenvolver as virtudes humanas e recriar um novo presente?

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Sobre o Autor

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Julliana Santos

Educadora em formação pela Universidade Federal de São Paulo.

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