Dezenas de mandamentos

Em 40 anos perambulando pelo deserto, o povo não parou de reclamar. Enquanto isso, Javé repassava a Moisés uma lista gigantesca de regras de vestimenta, alimentação, casamentos – e uso de escravos

Postado dia 05/04/2016 às 08:00 por Tiago Cordeiro

javé

Foto: Reprodução/Internet

A segunda temporada da novela Os Dez Mandamentos, da TV Record, estreia na segunda-feira prometendo focar na rebelião de parte do povo hebreu contra Moisés. O evento dá à emissora a oportunidade de usar e abusar dos efeitos especiais: no texto bíblico, os revoltosos são engolidos pela terra. Mas a verdade é que, nesta segunda etapa da vida de Moisés, a história perde impacto. Saem os egípcios, sempre charmosos, fica um povo teimoso, condenado a andar no deserto por 40 anos simplesmente porque insiste em não aceitar Javé como o único Deus.

Para cada milagre divino, o povo reage com um novo tipo de ingratidão. Falta comida? Javé faz aparecer um orvalho fino com consistência e gosto de pão. A água está acabando? Basta Moisés bater o cajado em rochas e ela brota. Apareceu um povo mais forte no caminho? Sem problemas: basta Moisés ficar com os braços erguidos, com a ajuda de dois assistentes, que o exército israelita, muito inferior, vence a batalha. Ainda assim, as pessoas insistem em deixar o Deus único de lado. A quantidade de vezes que o povo blasfema e desobedece é gigantesca. No episódio mais famoso, a humanidade perde a chance de conhecer a caligrafia divina. Ao surgir com as duas tábuas de pedra com os Dez Mandamentos, Moisés depara com um povo dançando ao redor de um animal de ouro. Pois ele quebra as pedras, esmaga o animal, joga o pó de ouro na água e faz o povo bebê-la. Na segunda versão dos Mandamentos, agora Javé se limita a ditar o texto. Quem escreve na pedra é Moisés.

O episódio da saída do Egito e da caminhada no deserto ocupa toda a primeira parte da Bíblia. O Gênesis antecipa o assunto e explica como o povo foi parar no Egito. A trajetória de Moisés e seu povo ocupa os livros do Êxodo, do Levítico, de Números e do Deuteronômio. Além de relatar os milagres de Deus e criticar a impressionante teimosia do povo, estas quatro obras têm um outro objetivo, muito claro: descrever, repetidas vezes e com muitos detalhes, todas as regras de conduta que o povo de Javé deve seguir.

Há alguns anos, um jornalista americano, chamado A.J. Jacobs, tentou seguir todas estas regras. Ele vivia em Nova York e transformou a experiência num livro, Um Ano Bíblico. Seu objetivo era ganhar dinheiro, é claro. Mas existem judeus ortodoxos que se esforçam para seguir todas as dezenas de regras do Antigo Testamento – e parte considerável delas está listada nos livros que formam o Pentateuco, a coleção de livros listada no parágrafo acima.

Na lista de orientações repassadas a Moisés, Javé manda não misturar lã e linho na mesma peça de roupa. Determina que homens não podem encostar em mulheres menstruadas – nem mesmo em cadeiras e camas em que elas encostaram. É proibido comer carne com leite, uma lei que é interpretada como uma proibição para misturar hambúrguer e queijo. Porco e camarão são absolutamente proibidos, mas é permitido comer insetos saltadores, como grilos e gafanhotos. Não se pode fazer a barba.

Existe uma série de regras para manter escravos – sim, os hebreus, como todos os outros povos daquela época e daquela região, mantinham o regime de servidão. É permitido espancar o escravo, desde que ele não fique inválido; se perder um olho, por exemplo, precisa ser libertado. O adultério também é punido de acordo com regras estritas. Por exemplo: se um homem estupra uma mulher na cidade, os dois são mortos até o apedrejamento. Pressupõe-se que ela poderia ter gritado, e não gritou. Agora, se a violência acontece num lugar abandonado, só ele é punido. Afinal, ela não teria a quem pedir ajuda.

Algumas orientações são bem modernas. O divórcio é aceito e as mulheres têm uma série de direitos. Por outro lado, a poligamia era tão comum que a Bíblia se obriga a orientar: um homem só pode aumentar o número de esposas se tiver condições de manter a todas, igualmente. Se a mulher fica viúva, é obrigada a casar com o irmão do morto, uma forma de preservar os bens da família.

Aborto não é liberado. Homossexualidade também não, ainda que exista um trecho dos mais polêmicos envolvendo o rei Davi e Jonatã, filho do rei Saul. Mas o rei é assunto para outro dia. Boa novela!

 

#:
Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter