Desabafo de Bruxa

Nascer mulher não deveria ser uma iniquidade acompanhada de punições e limitações. Atravessamos séculos desde a Inquisição, e ainda somos hereges por sermos “Bruxas”.

Postado dia 03/11/2016 às 08:30 por Karla Hack

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Foto: Reprodução

Era Dia das Bruxas, a data pagã que se popularizou em virtude da magia das fantasias e do famoso “Gostosuras ou Travessuras” norte-americano. Admito que o termo “bruxa” sempre me causou um fascínio, por considerar ele extremamente feminino. Claro, eu sei que existem bruxos, feiticeiros e outros magos, mas, a bruxa parece algo tão de mulher que só poderia resultar em encantamento meu; Fora toda a questão histórica que envolveu a infame Inquisição, onde o fato de ser uma figura fêmea já lhe servia de indicativo para a fogueira. Enfim, era um dia que em mim brotava um senso maior de feminilidade e alguém o feriu brutalmente.

Há poucos dias aconteceu um assassinato na cidade vizinha a minha. Uma mulher saia de seu trabalho quando levou dois tiros na cabeça, o autor do crime foi seu ex-marido. Enquanto eu e uma amiga comentávamos sobre a atrocidade, um homem desconhecido acrescentou: “Bem-feito pra ela. O cara pagou um monte de plástica pra deixar ela gostosa, pra depois ela se separar e ficar com outro. Tinha que matar mesmo”. Sabe aquela incredulidade emudecedora, seu corpo todo fica em completo choque que não consegue esboçar reações? Tinha levado um soco seco no estômago e lutava para me reerguer. Em segundos minha cabeça fez um catálogo de histórias, fatos, legislações, comentários, olhares, vozes, rostos, pessoas… a sensação de náusea acompanhou-me durante todo o dia. Como podia alguém pensar desta forma e ter tanta certeza da “razoabilidade” do argumento a ponto de compartilhar isso? A vítima – mulher, mãe, fêmea – não apenas era culpada, como merecia isto?! Ah.. é.. esqueci que ela deveria ser propriedade do homem e ele poderia fazer o que quiser com ela. Esqueci que todas as leis, todas as declarações de Direitos Humanos, todas as lutas foram revogadas e ser mulher é sim uma condição irrevogável de CULPA. Afinal, é “A” culpa – gênero feminino.

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Papo feminista sim, é sim. Não consigo calar meu âmago exausto de justificativas infundadas: “Evidente… ela não deveria sair sozinha, a roupa estava muito curta, era uma traidora, ficou com os dois, queria agir que nem homem, mandou fotos nuas pro cara, bancava a puritana, era muito bonita/feia/gorda/magra/sexy/só, era uma puta!”. Chega! Até quando estes pré-conceitos serão “verdade”? Nascer mulher não deveria ser uma iniquidade acompanhada de punições e limitações. Atravessamos séculos desde a Inquisição, e ainda somos hereges por sermos “Bruxas”.

Estranho imaginar que o mesmo homem que fez aquele comentário ferino está cercado de mulheres em sua vida – mãe, avó, tia, professora, médica, esposa –, mulheres que contribuíram para quem ele se tornou hoje. Quem sabe até possa ter uma filha, uma menina que aos poucos vai crescer e provar de todos os sabores e, infelizmente, dissabores advindos do signo mulher. Esta corda bamba social em que transitamos segundo após segundo com pés de bailarinas, equilibrando-nos nas tênues insanidades humanas.

Vivemos num mundo de castas disfarçadas, por mais que se tente ignorar, elas estão ali, diariamente comprovadas pelos absurdos de alguns. Agradeço cada pessoa que é capaz de enxergar os eventos além de gêneros e com compaixão. Contudo, enquanto a harmonia não estiver no tempo da música, não há espaço para o silêncio. Precisamos falar sobre Elas.

 

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Karla Hack

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