Depois da Câmara é que são elas

Governo promete o que não pode cumprir, parlamentares negociam o que não pretendem entregar

Postado dia 11/04/2016 às 17:43 por Janaína Leite

governo

Fotp: Reprodução/Internet/Google

A menos que algo sério faça o chão de Brasília tremer ao longo da semana, o impeachment está dado na Câmara. O governo promete benesses a possíveis aliados sem condições de entregar nada; parlamentares negociam livres da intenção de cumprir sua palavra. De modo que a guerrilha de números não é indicativo confiável do que vem pela frente. Quem quiser avaliar os próximos passos na política deve atinar a três informações: 1) o parecer da Procuradoria-Geral da República dificultou muito a nomeação de Lula à Casa Civil e deve resultar em uma ação contra a presidente Dilma; 2) os próprios parlamentares eleitos pelo PT mexem-se para criar um novo partido e não afundar junto com a legenda e 3) Paulo Maluf e Fernando Collor desembarcaram do projeto governista. O primeiro é uma raposa que entende tudo dos intestinos da política. O segundo conhece na pele como o impeachment ganha vida própria à certa altura. Há alguns meses, inclusive, o senador alagoano avisou que não haveria como segurar o processo de afastamento, caso ele fosse aberto.

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A temperatura está nas alturas e certamente não será agora que o PT e o governo farão um esforço para compreender a sequência de erros que levou ambos ao abismo. Quando o fizerem, talvez encontrem um cronograma fácil de ser observado: Lula aumentou as pedaladas para eleger Dilma pela primeira vez. Assim que a reeleição ocorreu, a presidente recém-empossada deveria ter revertido a tendência de maquiar as contas e apostado na mescla de suas preferências com algumas medidas ortodoxas, apostando em uma espécie de seguro. Não fez isso. Ao contrário, pedalou cada vez mais. Em 2014, o volume das fraudes contábeis era gigantesco e Dilma teve de levar adiante uma campanha mentirosa, completamente desconectada da realidade, na qual a economia do país aparecia firme e forte. Ganhou, mas teve de arcar com um governo apodrecido por suas próprias ações. A presidente teve na segunda posse mais uma chance. Preferiu manter um pé em cada barco, nomeando um ministro da Fazenda que despertava a simpatia do mercado, mas na prática servia como “sparring” para os ataques de uma esquerda descontente. O ministro caiu e a última chance de Dilma foi apresentada: a nomeação de alguém capaz de enviar algum sinal de seriedade. A escolha foi outra. Ali, exatamente ali, começou a queda de Dilma.

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O Datafolha e a pesquisa divulgada no último fim de semana deram a senha para o jogo dos blefes. A julgar pelos números do instituto, Lula ainda é uma carta de força na disputa pelo Planalto, junto com Marina Silva. De acordo com Datafolha, a maioria dos brasileiros quer Dilma e Temer fora do Planalto, Cunha longe da Câmara. Os tucanos teriam encolhido.

Há que se notar, entretanto, o enorme grau de rejeição do ex-presidente e o fato de a pesquisa ter comparado em pé de igualdade um cenário real (o governo Dilma) com um cenário imaginado (o governo Temer).  Alhos e bugalhos, quando colocados no mesmo forno, não criam um prato que possa ser servido com o nome de lógica.

Se os números do Datafolha refletirem a realidade, não há motivo para Lula brigar contra o impeachment. Muito melhor articular uma possível eleição extraordinária. Eis que Lula e Marina, depois de alguns anos, têm os mesmos interesses em curso.

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Em tempos de extrema divergência entre os juristas, a pergunta: em caso de eleições extraordinárias, Lula, indiciado, poderia ser candidato à presidência da República ou por analogia, usar um cargo público para fugir da primeira instância da Justiça continuaria de pé?

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As pesquisas de intenção de voto deixam em segundo plano uma das informações mais importantes para entender quem está forte o suficiente para barganhar, negociar e fazer exigências políticas: dinheiro. No meio de uma recessão sem precedentes desde a década de 30, a agricultura é o único setor que cresceu em uma economia afundada. A desvalorização do real e a alta de produtos como o café, a soja e o açúcar permitem que o Brasil mantenha-se competitivo em um cenário mundial. Logo, o setor tem condições de turbinar nomes no Congresso ou mesmo em uma suposta corrida presidencial, quer agora, quer em 2018. Mesmo que um parlamentar agrícola não surja como cabeça de chapa, uma possível aliança com a bancada ruralista pode garantir muitos votos ao candidato que fechar tal aliança. Aparentemente, quem preenche os requisitos para enfrentar a tarefa é Ronaldo Caiado, adversário de Lula desde 1989.

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O juiz Sergio Moro marcou dois gols importantes nos últimos dias. O primeiro ao fazer declarações públicas contrárias à tendência messiânica e personalista que seduz facilmente os brasileiros. O segundo ao deixar entrever sua intenção de encerrar a Lava Jato ainda este ano. Neste caso, ele terá tudo para escapar do desgaste e dos ataques sofridos pelos juízes e procuradores da operação italiana Mãos Limpas, que se arrastou por praticamente dez anos.

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Um sopro de impressionante sinceridade parece ter atingido a política brasileira. Roberto Jefferson voltou com tudo, dizendo que Eduardo Cunha era seu “bandido preferido”. Paulo Maluf afirmou que gosta de ser deputado – só tem de “fingir que trabalha”. A ferida está aberta e purulenta à vista de todos.

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O Supremo Tribunal Federal pode até não perceber, mas é ele, mais do que todos, quem estará em julgamento nos próximos meses.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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