Cunha teve a hombridade que faltou a Dilma

No fim, creio que Cunha teve aquilo que faltou em Dilma: hombridade. Hombridade de reconhecer que um mandato não possui caracteres divinos

Postado dia 11/07/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

cunha

Foto: Reprodução/Internet

Fui um dos poucos colunistas desta gama enorme de analistas da política interna que, desde o início, sempre pediu o afastamento de Cunha e Dilma sem distinção. Tenho um senso muito firme em minhas convicções: a moralidade na política deve ser um mandamento irrevogável, seja para qual inclinação ideológica se tenda.

Trotsky dizia, em seu livro A Nossa Moral e a Deles, que a moral comunista era mais larga, que comportava atitudes mais duras e sórdidas – atitudes estas que, se vistas nos atos dos capitalistas, deveriam ser condenadas irrevogavelmente, mas, se tomadas por comunistas, deviam ser toleradas como condutas acertadas e necessárias. Um absurdo hipócrita per se. Assim sendo, não importando de onde venha a corrupção, seja da direita ou esquerda, cima, baixo ou centro, nós, meros mortais não trotskistas, devemos condená-la.

Nesta semana pudemos ver a renúncia de Eduardo Cunha[1], uma atitude esperada por muitos, seja por nós analistas políticos, seja pela oposição petistas e coligados. É verdade que, talvez, seja apenas uma estratégia política. Uma aposta que me parece muito pouco convincente — ainda que muito possível. Afinal, ele perderá contato direto com a vida interna da Câmara dos Deputados, o que é péssimo para sua defesa, ainda que ele tenha amigos lá dentro.

Não podemos negar que, somente pelo fato de não poder fazer suas jogatinas políticas pessoalmente, já se trata uma perda considerável em suas pretensões de absolvição. Me parece (e eu posso errar feio nesta constatação; todavia, é um risco que todos os escritores que tratam de política, correm) que ele renunciou por quatro motivos claros.

Primeiro, o julgamento de suas contas na Suíça me parece estar encaminhado para a condenação; segundo, ele não tinha mais nenhuma practibilidade em seu posto de presidente afastado da Câmara dos Deputados; terceiro, seu substituto estava entravando as votações que iam contra a agenda petista; quarto, sua permanência estava adiando a votação de um novo presidente da Câmara, o que dava poder a Waldir Maranhão, um petista enrustido. Ou seja, a não-renúncia estava, na verdade, ajudando a agenda petista no Congresso e tendo pouca colaboração com sua situação de réu.

No fim, creio que Cunha teve aquilo que faltou em Dilma: hombridade. Hombridade de reconhecer que um mandato não possui caracteres divinos (uno, imutável e eterno), de perceber que há momentos em que devemos reconhecer: não podemos mais ajudar em nada; ao contrário, nossa permanência só atrapalha e trava o andamento democrático de uma nação inteira.

Neste momento, é preciso ter mais coragem para dizer o “não” a nós mesmos, do que o “sim” ao nosso ego sedento de poder. Independentemente do que esconde a renúncia de Cunha, independentemente se lá na frente veremos que, no fim das contas, não passou de mais uma estratégia política dele. Creio que ele acertou. Tudo o que o Brasil não precisa é de estátuas monásticas nos poderes da nação. O certo é certo mesmo quando o ato vem de um devasso.

Os crimes de Cunha são claros, os de Dilma também. Em ambos podemos escolher em qual crime poremos nossos protestos e julgamentos. Com Cunha: lavagem de dinheiro e omissão fiscal; com Dilma: irresponsabilidade fiscal e improbidade administrativa (por enquanto). No fim, há mais semelhanças neles do que diferenças, creiam. O fato é que precisamos tirar esses “deuses” da política. São pedras de tropeço que, dia após dia, entravam mais o sistema político nacional somente porque não conseguem desapegar de suas chupetas estatais.

Referência:

[1] http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,cunha-renuncia-a-presidencia-da-camara-dos-deputados,10000061519
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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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