Corpo estranho

Os livros de Macabeus 1 e Macabeus 2 são aceitos pelos católicos, mas não pelos protestantes nem pelos judeus. Existe um bom motivo para isso: eles destoam, na linguagem e no conteúdo, do restante da Bíblia

Postado dia 22/06/2016 às 08:00 por Tiago Cordeiro

 

macabeus

Foto: Reprodução/Internet – A guerra dos Macabeus

A Bíblia católica inclui livros que não fazem parte da versão protestante. E nem mesmo estão no livro judaico! É estranho, mas tem explicação: os primeiros seguidores de Jesus eram, obviamente, judeus, e conheciam os livros a que a comunidade estava acostumada no século 1. Acontece que as lideranças judaicas ainda estavam definindo sua lista final de livros. Enquanto isso, os cristãos já vinham utilizando uma coleção de obras um tanto diferente, com textos populares em sua época.

Foram mantidos pelos primeiros cristãos: Baruc, Eclesiástico (não confundir com Eclesiastes), Judite, Sabedoria, Tobias e Macabeus, além de trechos de Rute e Daniel. Em geral, se não são os mais importantes da Bíblia, estes textos ainda assim formam um belo conjunto com os demais. Não é o caso de Macabeus 1 e Macabeus 2. Obras posteriores, estranhas no conteúdo e na linguagem, elas dão a impressão de que, realmente, não deveriam estar ali.

O relato é interessante: os dois livros descrevem as revoltas e as batalhas lideradas por uma dinastia específica de judeus, a dos Macabeus. Diante do esfacelamento do império de Alexandre, o Grande, e antes da ascensão do império Romano, o povo conseguiu se estabelecer como um país relativamente autônomo pela última vez até o século 20 da nossa era. Seus líderes cometem proezas militares e demonstram grande capacidade de diplomacia. Negociam com os romanos e, por algum tempo, se tornam aliados deles. Resistem a cercos, mas também são traídos e enganados por outros reis.

Nada, nestes dois livros, combina com a linguagem do restante da Bíblia judaica – de fato, um dos critérios usados pelas lideranças judaicas para formar a versão final de seu livro sagrado é a antiguidade dos textos, o que garante maior coerência na linguagem.

Mas, exatamente por seguir um estilo mais recente, mais próximo da Antiguidade clássica dos helênicos, os Macabeus se aproximam bastante do Novo Testamento cristão. E, neste sentido, sua adoção pelos católicos é bastante coerente. Por exemplo: o livro faz vários elogios ao martírio, bem ao estilo dos apóstolos de Jesus. O caso dos sete irmãos, que os invasores gregos tentaram forçar a comer carne de porco, é exemplar.

“Aconteceu também que sete irmãos foram presos, junto com sua mãe. Torturando-os com chicotes e flagelos, o rei queria obrigá-los a comer carne de porco, contra o que determina a Lei”, afirma Macabeus 2. “Um dentre eles, falando por primeiro, disse: “Que pretendes conseguir e o que queres saber de nós? Estamos prontos a morrer, antes que transgredir as leis de nossos antepassados”.

O texto continua, na tradução produzida pela CNBB: “Enfurecido, o rei ordenou que se pusessem ao fogo assadeiras e caldeirões. Logo que ficaram incandescentes, ordenou que se cortasse a língua ao que falara primeiro, e lhe arrancassem o couro cabeludo e lhe decepassem as mãos e os pés, tudo isso à vista dos outros irmãos e de sua mãe. Já mutilado em todos os seus membros, mandou que o levassem ao fogo e, ainda respirando, o torrassem na assadeira. Espalhando-se por muito tempo o vapor da assadeira, os outros, junto com a mãe, animavam-se mutuamente a morrer com coragem.”

 

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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