Coordenação é o nome do jogo

Equipe de Temer e equipe de Meirelles fazem parte da mesma iniciativa, mas são bastante diferentes

Postado dia 18/05/2016 às 12:17 por Janaína Leite

 

governo

Foto: Reprodução/Internet

Quase uma semana depois do impeachment, feito o anúncio dos ministérios e cogitadas publicamente as primeiras medidas, é possível observar que, na prática, existem dois governos de transição. Um é formado em boa parte por investigados que precisam de foro privilegiado. Representa interesses imediatistas, questionáveis e segmentados, reportando-se a um presidente da República interino e facilmente influenciável. O outro é composto por especialistas, técnicos brilhantes em suas respectivas áreas, donos de visão estratégica e de longo prazo. Presta contas a um ministro da Fazenda que ao longo da carreira combinou ambições políticas pessoais com ações que visavam o desenvolvimento efetivo do país.

O primeiro grupo pertenceu à base de apoio de Dilma Rousseff. Está enrolado com a Lava Jato e outras operações policiais. Seu maior interesse é recuperar a influência perdida pelos partidos políticos na administração pública desde a chegada do PT ao poder. Trabalhará incessantemente no Congresso para aprovar algumas medidas paliativas que garantam ao governo Temer o apoio do capital. Atua de olho na possibilidade de o PMDB manter-se na cabeça de chapa nas eleições de 2018.

O segundo agrupamento sempre foi crítico ao modo de Dilma governar. As carreiras de seus integrantes foram desenvolvidas em grandes universidades e no setor privado. O desafio de fazer parte do governo está diretamente relacionado à vontade que têm de provar a eficácia de seu posicionamento ortodoxo. Trabalhará incessantemente para reverter as expectativas do mercado e tirar o país do buraco econômico em que foi metido. Ou seja, recuperar o tripé econômico, atacar a frouxidão fiscal e criar mecanismos que impeçam novos governos de destruir as conquistas obtidas com o Plano Real.

Os primeiros estão mais ligados ao chamado setor produtivo, sempre interessado em empréstimos subsidiados. O segundo, ao dito mercado, aquele que olha sempre para a necessidade de garantir a solvência guardando um dinheiro em caixa, o chamado “superávit primário”.

Entender as diferenças apresentadas acima é crucial para acompanhar o que vem por aí. Michel Temer assumiu o governo com o apoio da maioria dos brasileiros em relação ao impeachment, mas sem popularidade, de modo que a boa vontade do povo é mais volátil do que costuma ser e obedece a um prazo de expiração bastante curto. Além disso, existe uma concepção arraigada de que, diante de impostos extorsivos cobrados sem a devida contrapartida, não há que se falar em aumentar deveres, apenas em exercer direitos.

Será preciso, portanto, que esses dois grupos trabalhem de maneira coordenada para conseguir uma imagem pública que concilie o que os brasileiros querem manter (sensibilidade social) com aquilo que sentiam ter sido perdido (respeito ao bem público, honestidade, foco). Não é fácil. A situação das contas do governo e das condições internas da administração federal é muitíssimo pior do que se imaginava – a gestão de Dilma Rousseff deixou um cenário de pós-guerra para seus sucessores.

Até aqui, as trapalhadas de Michel Temer e de seus escolhidos foram tratadas com certa condescendência. Mas elas existiram e foram várias. Se a vaidade e a tendência do presidente interino de voltar atrás não terminarem domadas rapidamente, os tubarões lembrar-se-ão de também serem peixes. Passíveis de morte pela boca.

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Anunciar o fim da Farmácia Popular e cogitar a volta da CPMF antes de o governo vir a público para detalhar a real situação das contas públicas herdadas do PT são exemplos de atabalhoamento, descoordenação e, principalmente, da avaliação superficial sobre a importância da comunicação. O mesmo ocorreu na semana passada, no episódio do desmembramento do Ministério da Cultura e o anúncio de um ministério sem mulheres. Não se pode confundir a importância de economizar e comprar brigas com fazer isto a qualquer tempo, de qualquer modo. Caso contrário, o discurso da oposição é confirmado e favorecido.

Michel Temer não foi eleito a partir de um programa de governo em que a sociedade concordava com políticas ortodoxas, ao contrário. Se as pessoas não forem esclarecidas, se não entenderem a altura do abismo, pularão. Rejeitarão fortemente o novo governo e pressionarão por novas eleições, nem que para isso seja preciso emendar a Constituição e derrubar Temer.

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A Lava Jato e as demais investigações do gênero estão em claro risco. Conforme explicou Delcídio do Amaral, a percepção de Dilma Rousseff era a de que apenas congressistas seriam atingidos pela denúncia e que, portanto, poderia até lhe ser favorável que as operações seguissem. Era tarde demais quando a presidente afastada percebeu que os estragos atingiriam a si e aos seus. Temer, exímio conhecedor dos bastidores políticos, já foi alertado de não poder seguir pelo mesmo caminho.

Por outro lado, o súbito silêncio de Curitiba, coincidindo exatamente com o período do impeachment, reforçou o discurso do PT de que apenas eles eram perseguidos. A conferir.

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A eficácia de nomear políticos encrencados será testada nos próximos dias. É importante para o governo tirar Waldir Maranhão da presidência da Câmara. A pergunta é quem o PMDB tentará colocar no lugar.

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Criança, quando quieta, está a fazer bagunça, dizem. É bom a mídia não perder de vista o que Lula e Cunha continuam articulando, cada um ao seu lado. Ambos são raposas que, embora feridas, não têm a menor intenção de oferecer a pelagem em sacrifício.

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Ilan Goldfajn que se cuide. Nenhum presidente de Banco Central deixou de ser alvejado por José Serra ao longo dos tempos. Agora que o tucano está no Itamaraty e tem pretensões de estimular as exportações, o câmbio voltará para sua mira.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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